 Tudo por um beb
  The baby chase
  Jennifer Greene
  Famlia Fortune 12

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!



   Tudo o que Rebecca Fortune queria era um beb. E se para conseguir isso tivesse de ir para a cama com o inflexvel investigador particular Gabriel Deverax, ela
engoliria o orgulho e seduziria seu algoz. Rebecca sabia que logo ele partiria e seu grande segredo estaria a salvo. S que esta mulher decidida fica chocada ao
se dar conta de que sua paixo por Gabriel passara dos limites. Ser que o pai de seu filho algum dia se sentiria do mesmo modo... especialmente com a mentira que
existe entre eles?


   REBECCA FORTUNE: Escritora solidria e amorosa, Rebecca ainda  solteira, e seu maior desejo  ser me. Ela decidiu que far todo o possvel para ter um beb
? mesmo que precise seduzir um homem que no a aceita do jeito que ela ...
   GABRIEL DEVERAX: Este detetive particular no acredita nem em amor, nem em famlia. Mas aps uma noite trrida de paixo com Rebecca, ele no esperava o que aconteceria
em seguida ? ele logo se tornaria pai!
   KATE FORTUNE: Satisfeita com a realizao e felicidade na vida de seus filhos e netos, Kate agora pode pensar um pouquinho mais em si. Ser que ela ter seu prprio
romance, agora que a crise familiar est resolvida?
   STERLING FOSTER: O advogado de Kate e seu confidente mais ntimo ficou ao lado desta matriarca durante as dcadas de tumulto familiar. Ser que foi somente por
lealdade profissional ou h algo mais no relacionamento de cumplicidade entre Kate e um homem to charmoso?


   O Dirio de Kate Fortune

   Juntos finalmente! Eu senti muito a falta de toda minha famlia durante os meses que se passaram.
    bom poder afinal compartilhar de sua alegria. Muita coisa aconteceu em suas vidas. Vrios casamentos se concretizaram, muitos bebs nasceram e casais separados
voltaram a ficar juntos. Estou feliz de que alguns de meus presentes especiais tenham funcionado com sua magia e trazido a cada filho e neto amor e alegria. Tem
sido uma montanha russa, mas eu no abriria mo de cada acontecimento por nada neste mundo. Mal posso esperar o que os prximos 50 anos traro!


   Liz Jones
   A Colunista N" 1 das Celebridades

   Em uma reapario sem precedentes, a famlia Fortune voltou ? e mais forte do que nunca!
   Seu poderoso imprio de cosmticos lanou uma nova frmula da juventude que mulheres em todo mundo esto comprando por atacado e que restabelece firmemente a
Cosmticos Fortune como a empresa nmero um no mundo nesta rea.
   A famlia Fortune tambm entrou no ramo da mdia, e comprou um canal de televiso, bem como este prprio jornal. No houve mudanas na equipe, salvo uma ? Liz
Jones perdeu sua coluna. De acordo com Kate Fortune, "no h espao em um jornal srio para uma fofoqueira que espalha boatos mentirosos."
   Esta  a ltima semana desta coluna. Aqueles ainda interessados em fofoca sobre celebridades dirijam-se ao Burburinho. A partir de agora, esta seo ser o "Kanto
de Kate", com dicas de namoro, planejamento de festas de casamento, cuidados com bebs e decorao de casas.
   Esperamos que voc goste do novo rumo desta coluna. Boa leitura!
   O redator

   Captulo 1

   Todo aquele ambiente desagradava completamente a Rebecca Fortune. Era uma noite escura de tempestade ? algo comum. Meia-noite, os relmpagos se espalhavam no
cu, envolvendo uma manso imponente que mais parecia o cenrio hollywoodiano de um filme de segunda classe. E ela estava prestes a entrar ali.
   Rebecca escrevia romances policiais. Ela costumava colocar suas heronas sempre em situaes perigosas ? fruto de uma mente bastante criativa. Mas preferia jogar
seu laptop no lixo a forar sua herona a participar de um enredo estpido e repleto de clichs como aquele.
   A chuva caa pelos seus cabelos ruivos encaracolados, pingava em seu pescoo e respingava em seus clios. Ela tremia da cabea aos ps, com os tnis totalmente
ensopados. Maro normalmente era frio em Minnesota, mas o dia tinha sido quente, como se fosse primavera. Antes de sair de casa, ela escutou a previso da chegada
de uma tempestade, mas como sua capa de chuva era de um tom amarelo-cintilante ? inapropriada a uma ladra ? preferiu moletom e jeans pretos. A roupa estava encharcada
e grudada no corpo.
   Rebecca alguma vez j devia ter se sentido infeliz. S no conseguia se lembrar de quando. A extensa experincia com o crime ? incluindo uma vasta lista de tcnicas
de roubo ? foi adquirida em seu escritrio, um lugar agradvel, seguro e quentinho, em frente ao teclado e aos livros de pesquisa. A realidade estava, no entanto,
provando ser um pouco mais difcil que a teoria.
   A senhorita Fortune pensara que tivesse planejado tudo perfeitamente.
   O alto porto de ferro que protegia a propriedade estava fechado, mas ela acabara de saltar sobre ele. No foi muito difcil. Logo depois do assassinato de Mnica
Malone, a polcia e os investigadores invadiram o local. Agora, entretanto, era pouco provvel que algum a descobrisse ali. A casa estava fechada e quieta como
um tmulo, totalmente deserta ? sem nenhum sinal de que algum tivesse morado ou sequer estado l h semanas.
   Rebecca trouxe uma mochila cheia de ferramentas. A manso tinha cinco entradas. Tentara uma chave mestra em todas as portas ? comprara a chave atravs de um de
seus catlogos ? este foi seu erro. A chave no funcionou em nenhuma das fechaduras. Trouxera tambm um p-de-cabra, porque todas as heronas eram engenhosas e sempre
achavam um jeito de us-lo. No ela. Andara ao redor da casa, conferindo as janelas do primeiro andar. Nenhuma delas estava fechada com ripas de madeira, mas estavam
muito bem trancadas por dentro. E tudo o que conseguiu fazer com o p-de-cabra foi lascar a pintura.
   Ela conhecia uma dzia de outros truques e carregava diversas ferramentas na mochila ? a pesquisa que fizera para seus romances policiais a preparara muito bem
para uma vida de crimes. Porm, at agora, nada tinha sido usado, e a mochila pesava uma tonelada em seus ombros. O cu era uma massa de nuvens pretas que se moviam
e faziam um barulho forte, e o estrondo da trovoada era to intenso, que fazia a terra toda tremer ? ou seria ela quem tremia demais. Qualquer mulher sensata, disse
a si mesma, desistiria.
   A senhorita Fortune jamais cedera  possibilidade de desistir de algo que lhe fosse importante. Alguns diziam que era obstinada a ponto de ser implacvel. Preferia
pensar que sara  me, Kate, que nunca falhara por falta de coragem e personalidade para fazer o que tinha que ser feito.
   Isso era uma coisa que Rebecca tinha que fazer. Havia outras pessoas tentando inocentar seu irmo pelo assassinato de Mnica. Mas no estavam chegando a lugar
nenhum. Ningum, exceto a famlia, realmente acreditava na inocncia de Jake.
   Decidida, percorreu o jardim, todo molhado, ao redor da casa. Tinha que existir um jeito de entrar. Ela iria encontrar.
   Uma rajada de vento forte despenteou totalmente seu cabelo. Quando ela ergueu a mo para tirar uma mecha do rosto, um feixe de luz refletiu em seu pulso dourado.
A pulseira, cheia de pingentes, pertencia  me, no a ela. Dezenas de lembranas turbulentas e traumticas voltaram  sua mente.
   Quase perdera a me. Todo mundo acreditava que Kate Fortune realmente morrera em um desastre de avio ? ningum sabia que ela lutara contra um seqestrador e
sobrevivera ao acidente, perdida em uma floresta durante meses ? e o corao de Rebecca ainda ficava apertado quando lembrava das lgrimas, do medo e do amor que
coloriu o encontro que tivera com a me. Tinha tirado a pulseira, cheia de pingentes, do brao da estatueta do escritrio da famlia, no dia em que a me foi encontrada...
Acrescentou os prprios amuletos quando o testamento de Kate foi lido e cada membro da famlia recebeu o talism que representava o prprio nascimento. A senhorita
Fortune precisara da conexo que a pulseira representava, e a me, quando retornou, no permitiu que ela a devolvesse.
   Para Rebecca a pulseira era um talism, o smbolo do que vem a ser famlia e dos laos de amor e lealdade que envolviam a todos.
   Esfregou a pulseira dourada. Talvez a me tivesse se dedicado a fundar um imprio, mas Kate amava os filhos e, acima de tudo, acreditava realmente no significado
de famlia. Passara aqueles valores inabalveis a Rebecca. E agora era intil pensar em bebs, mas ela tinha trinta e trs anos, e a imagem de crianas povoava seu
pensamento nos ltimos dias. O relgio biolgico no se importava com o fato de ela ser solteira, e sem nenhuma perspectiva de encontrar um prncipe. Queria um beb.
Sempre quis ter filhos e famlia. No importava o rumo, por mais extico que parecesse, que o resto da famlia Fortune tivesse tomado. Definitivamente, era uma pessoa
caseira. E agora parecia a ltima da famlia a se estabelecer. At as sobrinhas tinham filhos!
   O sonho de embalar uma criana surgiu naturalmente. O mesmo no se pode dizer em relao ao arrombamento sorrateiro. Ao pensar nisso, sentiu um arrepio de medo.
A tempestade no a assustava. E a manso antiga e deserta no a assombrava, mesmo sendo o cenrio de um crime.
   O arrepio de medo era somente motivado por amor. Queria tanto conseguir, somente pelo irmo, e tinha medo de falhar. Em algum lugar daquela casa deveria haver
alguma resposta, informao, evidncia ? algo que pudesse limpar o nome de Jake. Dezenas de pessoas tinham muitas razes para matar aquela senhora, incluindo membros
da prpria famlia. Mnica fora uma mulher m, gananciosa e egosta, e fazia o pior para destruir a famlia Fortune havia mais de uma gerao. At uma simples criana
teria encontrado suspeitos repletos de motivos.
   O problema era que Mnica prejudicara Jake demais. Dessa forma, ele tambm tinha motivos. Alm disso, estivera no local do crime, e centenas de evidncias fsicas
apontavam para ele. Nem os policiais nem os investigadores sugeriram outro suspeito. Nem os advogados do irmo.
   Ningum parecia lamentar a morte da estrela de Hollywood, j idosa, nem acreditar na inocncia de Jake.
   Em seu corao, Rebecca sabia que o irmo no podia, no mataria ningum ? no importava a provocao. Mas receava de que se ela no encontrasse uma prova do
verdadeiro responsvel pela faanha, ningum mais encontraria.
   At o momento ainda no tinha se deparado com um alarme, ou qualquer indicao de que havia algum alerta. Todas as portas estavam trancadas, e as janelas, alm
de fechadas, tinham os batentes ? com pequenas vidraas retangulares de vidro ? chumbados. Mesmo que quebrasse os vidros, no havia espao suficiente para entrar.
Com a chuva pingando no rosto, no levou em conta as trelias ? apesar de ser magra, as trelias pareciam frouxas. Uma grande rvore espalhava seus galhos prateados
pelo jardim, mas nenhum deles estava perto o suficiente para que ela pudesse pular para o telhado ? a no ser que ganhasse asas.
   Podia tentar as trelias. Primeiro, deu mais uma volta ao redor da casa, agachada, afastando os arbustos, em meio s flores, em busca de alguma janela no poro.
   Os espinhos de um arbusto que florescia prendiam suas roupas como os dedos de uma bruxa, golpeando e agarrando. Os tnis sujos de lama. Quebrou a unha em uma
parte da armao da janela. Uma lasca de madeira entrou no dedo que comeou a sangrar. Finalmente o dilvio parou, mas ela estava to molhada e com tanto frio, que
nada mais a incomodava.
   Enfim, a lanterna iluminou uma janela que parecia irregular e quebrada. Desviou do peito um arbusto para poder se agachar e passou a mo pela janela irregular.
No estava fechada no trinco. Devia ter sido pintada fechada.
   A janela se abriu, e no parecia grande o suficiente para uma criana passar por ali, mas no importava. Rebecca imaginou que era a entrada para o paraso e que
estava prestes a conseguir o que queria.
   Procurou a mochila e, com um pouco de malabarismo e com ajuda da lanterna, buscou o p-de-cabra novamente. Por duas vezes sondou e forou a janela, mas era quase
impossvel puxar a sua alavanca naquele espao estreito entre as rajadas molhadas dos arbustos. O cho enlameado no a ajudava a manter-se firme. Na terceira tentativa
conseguiu introduzir o p-de-cabra debaixo da salincia, e a janela se abriu aps um rangido.
   Rebecca cortou-se arranhou o queixo. Enfim a janela estava aberta. Mas a cena fez com que ela se sentisse segurando um bilhete de loteria premiado sem ter meios
de receber o prmio. A janela se abriu, criando um espao para entrar ainda menor do que imaginara. Era magra mas no tanto.
   Hesitante, iluminou com a lanterna. Relaes espaciais no eram o seu forte, mas parecia que trs metros de altura a separavam do cho do poro. Nada que pudesse
amortecer a queda. Stephen King poderia ter escrito um livro naquele lugar sombrio e misterioso. A luz no iluminava nada a no ser cantos sombrios e paredes de
concreto frias e midas.
   Provavelmente ia se matar, se tentasse pular.
   Por outro lado, parecia ser a nica sada ? e voltar atrs no era uma opo. Tinha que se encolher para caber ali e passar, e isso era tudo.
   Guardou a lanterna e jogou a mochila para dentro.
   O rudo da queda foi surdo. A distncia era longa.
   Engoliu o medo e foi. Tremia, tentava ignorar a lama que penetrava no moletom. Primeiro, meteu os ps. Depois, as pernas. A, ento, se contorceu para entrar.
Veio o problema. Ficou presa na altura do quadril e, de repente, no podia mais se mexer. Nem para dentro nem para fora.
   Meu Deus! Algumas vezes se queixara por no ter quadril suficiente para encher os jeans. Agora, desejava no ter saboreado trs biscoitos de cereja essa semana.
O bumbum estava entalado. No era brincadeira, nem piada, estava realmente entalado.
   Pensou em chorar. De fato no queria chorar. Queria somente estar em casa, em uma banheira quente e com aroma de rosas, talvez uma taa de um vinho francs, talvez
lendo alguns dos arquivos de sua recente pesquisa sobre bancos de esperma, e fantasiando sobre quando teria bebs.
   Sonhar com crianas era algo tentador. Mas no ajudava em nada no momento. Sentia dor quando se mexia, no importava a direo, mas permanecer deitada era insustentvel
? a coluna reclamava por estar imobilizada nessa posio contorcionista. Seria bom se um heri aparecesse para ajudar, mas isso talvez no acontecesse. Era mais
provvel ter minhocas passeando sobre o corpo... E foi o que aconteceu. A imagem mental das minhocas, daquele tapete de flores, estando to perto dela, a incentiva
a mexer-se.
   Encheu o peito, puxou as pernas para cima e empurrou com fora.
   O empurro funcionou. Em parte. Ainda estava viva quando caiu no cho de concreto, mas aquela tentativa dificilmente mereceria aplausos. Na queda, machucara a
testa na moldura da janela, e imprensara e arranhara os seios. Caiu sentada por cima do pulso. O poro era mais escuro do que alcatro, e cheirava a mofo. No importava
se estava no Taj Mahal, sentia dor demais para se preocupar. Estrelas bailavam  sua frente como se estivessem tontas a danar um tango. No estava pensando positivamente,
era possvel que tivesse quebrado o bumbum ? nunca vira um bumbum engessado ou imobilizado ? , mas estava terrivelmente assustada com o que fizera.
   Para piorar as coisas, uma luz bateu nos olhos.
   A detestvel luz vinha de uma lmpada no meio do poro.
   E para completar a confuso na qual se metera, o homem em p ao lado do interruptor, balanando a cabea, lhe era familiar. Assim como era aquela voz grave.
   ? Pensei que pelo menos dez crianas estavam entrando aqui. Conseguiu fazer barulho suficiente para acordar at um defunto. Deveria saber que era voc. Droga,
Rebecca, o que est fazendo aqui?
   A senhorita Fortune fechou os olhos.
   ? No momento, estou sentada aqui com quarenta e sete ossos quebrados, e arrependida. Por favor, Deus, faa que isso seja somente um pesadelo e que, quando eu
acordar, faa com que ele seja outra pessoa. Faa que seja um espio russo. Faa com que seja um assassino profissional. Faa com que seja qualquer pessoa menos
Gabe Deverax.
   Apesar de no abrir os olhos para ver o que estava acontecendo, podia sentir aquela voz seca e grave se aproximando cada vez mais.
   ? Tem sorte de que seja eu. Eu, ao menos, tenho uma razo lgica para estar aqui. Esqueceu o crebro em casa? Podia ter se matado, ou ter sido morta. Voc parece
pior do que um gato de rua que acabou de sair de uma briga.
   ? Obrigada por compartilhar seus pensamentos comigo. Estou morrendo de dor e toda machucada, e tudo o que faz  gritar.
   ? Gritaria ainda mais alto se soubesse que adiantaria. Pelo amor de Deus, voc est toda molhada e coberta de lama, parece at que tem galhos saindo do cabelo.
Se isso no  tolice, no sei o que . Pare de brigar comigo, droga. Estou somente tentando ver se est machucada.
   ? J sei que estou machucada. ? O orgulho doa muito mais do que qualquer um dos arranhes ou machucados. Gabe tinha se aproximado com um certo ar de arrogncia
e se abaixou. Mantendo os olhos fechados e se negando a abri-los, Rebecca ficou assim at sentir as mos fortes de Gabe ajudando-a a se levantar. Ento, abriu bem
os olhos.
   Em outra situao no se importaria que algum a ajudasse a se levantar ? em uma fantasia, deveria at ter aceitado Gabe naquele papel ? mas no quando estava
sendo carregada como se fosse um saco de acar. Sem piedade Deverax observou e apertou os tornozelos dela, mexeu a panturrilha, dobrou os joelhos, ergueu os braos,
girou os pulsos... Rebecca disse ai diversas vezes. Ele no lhe deu a menor ateno.
   Possivelmente, teria se ressentido menos se Gabe no parecesse to bom. S Deus sabia como ele entrara na casa, mas Rebecca conhecia bem o desembarao dele. Era
o melhor. Foi por isso que convencera a famlia a deix-lo procurar a me na poca do desaparecimento. E, embora no tivesse se sado muito bem nesse episdio, tivera
sucesso com outros casos familiares nos ltimos anos. Mas agora ela parecia horrvel, e nele no havia sequer um arranho, um rasgo ou uma marca de sujeira. O cabelo
preto curto parecia recm-penteado, o maxilar quadrado recm-barbeado. Os ombros esticavam a costura da camiseta azul-marinho de manga comprida que estava por dentro
dos jeans. As botas sequer estavam sujas.
   Rebecca no o conhecia bem. No acreditava que uma mulher pudesse realmente conhecer um homem como Gabriel Deverax ? mas os dois j tinham se cruzado antes. Muitos
familiares notaram o quanto se davam bem, como gato e rato. A senhorita Fortune no apenas se opunha a Gabe, fora ela quem procurou firmas de investigadores profissionais
e convenceu a famlia a contrat-lo. Sabia, melhor do que ningum, que Gabe tinha uma reputao inabalvel e credenciais. Ela o respeitava muito. Mas quando a famlia
estava em apuros, dificilmente deixava algum assumir o controle da situao.
   Gabe no apreciava conselhos. O que Rebecca chamava de ajuda, Deverax considerava interferncia. Qualquer um, com o mais bsico conceito de famlia, iria entender
que amor e lealdade requeriam o envolvimento dela. Era intil tentar explicar isso a Gabe. O que tinha de bonito tinha de cabea-dura.
   Mesmo que no houvesse nenhum amor entre os dois, a senhorita Fortune dificilmente podia deixar de notar certos detalhes sobre a beleza de Deverax. Tinha trinta
e oito anos e a aparncia era compatvel com a idade. O maxilar quadrado, a cicatriz na tmpora direita, as linhas de expresso agrupadas ao redor dos olhos e da
boca, tudo denunciava um homem que vivera bastante. No era um garoto. Havia energia naquele rosto marcado pelo tempo, uma energia vital, viril e uma determinao
ferrenha estampada em todas as linhas da testa.
   Pessoalmente, Rebecca pensava que uma mulher precisava ser um pouco louca para arriscar desafiar um homem rude e fechado como Gabe Deverax... Mas ele tinha os
mais profundos, negros e envolventes olhos que jamais vira. Naquele momento, era impossvel ignorar aqueles olhos porque eles a miravam de forma irritante e implacvel.
Ele segurou-lhe o queixo e examinou-lhe o rosto,  procura de machucados, com tanto interesse que parecia estar ao microscpio, observando um inseto.
   ? Acho que voc vai viver ? disse. ? Embora seja muito difcil dizer com certeza, uma vez que est coberta de lama. ? Como a encarava, olho no olho, ela no percebeu
de imediato onde a mo direita dele estava. Com um gesto mais suave do que quando se rouba num jogo de cartas, Gabe colocara a mo furtivamente por debaixo da camiseta
de Rebecca. Sua mo era quente, voltil, sugestiva, como se uma corrente eltrica percorresse as costelas dela.
   ? Ei. ? Ela se mexeu mais rpido do que pde para empurr-lo, mas Gabe no seria empurrado assim to fcil.
   ? Oh, no se exalte tanto. Se quisesse tentar alguma coisa, saberia. Acredite em mim, penso em sexo somente noventa por cento do tempo. Voc tem um arranho grande
aqui. No, no estou procurando ver at onde vai. Mas quero que tussa.
   ? Tossir? No preciso tossir.
   ? Bem, podemos lev-la at a emergncia de um hospital e tirar uma radiografia das costelas, mas acredito que no apreciaria a idia. Se no doer quando tossir,
devo acreditar que aquela costela no est quebrada. Mas se quiser, pode tirar um raio X.
   Ela tossiu com vontade.
   ? Tem certeza de que no sentiu dor?
   ? Positivo. E pode parar de tentar me ameaar, Gabe. No deixaria nem voc nem os fuzileiros navais me levarem a qualquer emergncia. Estou perfeitamente bem.
Apenas fui nocauteada pelo vento.
   ? Ah, ? ? Gabe retirou a mo que estava debaixo da blusa de Rebecca, mas continuou curvado sobre ela. ? Voc tem um galo na testa, arranhes por todo o corpo,
e est to molhada que, provavelmente, vai pegar uma pneumonia. Tem gua l em cima, ento, podemos limpar os cortes, mas no posso garantir que vamos encontrar
alguma coisa para voc se secar e se aquecer. A cabea est doendo muito? Est tonta? Com viso dupla?
   Se o homem intempestivo tivesse boas maneiras, teria lhe dado a chance de responder, mas no. Obviamente, Gabe no iria levar a palavra da senhorita Fortune em
conta, porque ele se aproximou, segurou o maxilar de forma que pudesse examinar novamente o galo na testa. Com as pontas dos dedos, jogava os cabelos dela para trs
para ver melhor. Quando terminou de bancar o mdico, ambos os olhares se cruzaram.
   Rebecca no tinha certeza do que acontecera. Ele no conseguiu encar-la por mais de alguns segundos, mas a testa no estava mais franzida. Havia algo em sua
expresso. Alguma coisa que ela nunca tinha esperado. Algo mais do que irritao, algo alm da compulso desesperada de Gabe Deverax para tomar conta de qualquer
coisa que lhe aparecesse no caminho. Ela estava to molhada e enlameada que aquela estrada mortal deveria parecer mais atraente. Ainda assim havia alguma coisa naqueles
olhos escuros, profundos que faziam o corao dela bater mais rpido.
   Se Gabe tivesse notado que ela era uma mulher, no a teria deixado continuar. De repente, Rebecca comeou a sentir dificuldades para respirar. Gabe era importante,
viril, um escudo masculino potente ? era fcil ter prazer em lutar com ele quando no havia absolutamente nenhuma ameaa ou pensamento dele relacionado a ela. No
era fcil v-la com Gabe. No como mulher. Por outro lado, era provvel que a queda tivesse afetado sua mente. No havia momento pior para sentir a fora da onda
de hormnios que tomava conta do corpo, e o bom senso lhe dizia que estava imaginando aquele olhar.
   Mesmo assim, voltava a si, com uma certa rapidez, quando a expresso de Gabe mudou abruptamente. Voltou a franzir a testa e parecia mais crtico do que antes.
Recuou e se levantou.
   ? Talvez no precise de um mdico. Mas vamos ver como se sai quando tentar ficar em p.
   ? Oh, pelo amor de Deus. Estou bem. ? Ignorou a mo dele e se levantou. Um erro. O galo na testa comeou a doer; os seios e os pulsos ardiam feito fogo, e agora
tinha certeza de que o bumbum estava machucado. Mesmo que fosse ameaada com uma faca, nunca admitiria a Gabe que estava tonta. ? Como foi que entrou na casa?
   ? Da forma como a maioria das pessoas fazem. Legalmente. ? O tom de voz era seco. ? Eventualmente, o Estado negocia, mas no tem se pronunciado at que acabe
toda a confuso. Liguei para o advogado de Mnica Malone. Dei minhas credenciais e disse que acreditava que existiam mais evidncias na casa conectadas ao assassinato
dela, e perguntei se ele se incomodava que eu desse uma olhada pessoalmente. Ele me deu a chave.
   ? Assim? Foi tudo o que fez para conseguir a chave? ? Parecia irreal.
   ? No entanto, Rebeca, nem todo mundo pode ser presenteado com a imaginao de um escritor e a paixo por drama de alta qualidade. Alguns de ns tendem a fazer
as coisas de forma simples, normal, chata. Voc sabe, usando o senso comum bsico e um pouco de lgica.
   ?  surpreendente. Podia jurar que j tnhamos tido exatamente essa mesma conversa antes.
   ? Sim, tivemos. Mas parece que voc no levou a srio. ? Gabe mudou de lugar com ela para fechar a janela do poro que estava muito aberta. ? Vamos, venha se
limpar, e depois iremos para casa.
   ? S em sonho, querido. No arrisquei minha vida para ir embora, sob suas ordens. ? Tinha certeza absoluta de que ningum jamais ousara chamar Gabe Deverax de
querido. Essa palavrinha parecia assustar, mas depois o agradou. Ele fazia o tipo bem autoritrio, msculo, e, provavelmente, sem nenhum refinamento, de acordo com
o ponto de vista feminino. Porm, sempre tivera senso de humor.
   ? Falando em ordens,imagino que saiba, estou aqui a mando de sua famlia. Por mais estranho e ultrajante que seja, eles de fato acreditam que eu possa prosseguir
nessa investigao sozinho. Voc pode imaginar? Simplesmente porque  meu trabalho e tenho mais de dez anos de experincia e qualificaes profissionais.
   Rebecca se abaixou para pegar a mochila com as ferramentas. Deus, ele tinha estilo. Teve vontade de rir, se o assunto no fosse to srio.
   ? Acredito no seu potencial tambm, Sherlock ? disse honestamente. ? Voc  maravilhoso no que faz. Mas no  o seu irmo que est sendo acusado de assassinato.
 o meu. E eu o amo. E at que o nome dele esteja limpo, no posso ficar em casa, sentada, tricotando sapatinhos de beb. Chegou a encontrar alguma coisa na casa?
   ? No tive chance de procurar. Tinha acabado de virar a chave quando escutei toda aquela barulheira de vidro quebrando l embaixo. No entanto, no sei por que
no imaginei logo que era voc. ? Gabe, cansado, passou a mo no rosto. ? Rebecca, me escute.
   ? Estou escutando. ? Admitiu, com precauo.
   ? No  a primeira vez que estou aqui. Presumo que saiba que estou no caso desde o dia em que o seu irmo foi acusado. Estive aqui durante a investigao policial
e, depois, quando no estava mais interditado, voltei e vasculhei cada canto. Essa  a minha terceira tentativa. At o momento, todas as evidncias apontam para
o seu irmo como o culpado.
   ? Eu sei. ? Essa certeza era como uma agulha no peito.
   ? Amor e objetividade no se misturam. Sei que quer ajudar seu irmo. Mas no estou querendo desanim-la quando digo que deveria ir embora daqui, voltar para
casa, tricotar sapatinhos de beb. Voc pode se machucar mexendo com tudo isso.
   Ao examinar as sombras, Rebecca notou vagamente um forno, canos, umidade infiltrada nas paredes ? e o incio das escadas de madeira que conduziam ao andar de
cima. Ela ouvia Gabe, mas o que ouviu na voz dele somente aumentava sua deciso. Deverax faria o trabalho dele. Mas no acreditava na inocncia de Jake. No mais
do que a polcia.
   Ela parou um segundo, antes de se dirigir s escadas, e tirou um punhado de cabelo, todo emaranhado, que estava no rosto.
   ? Est certo quando diz que no estou sendo objetiva. No tenho nenhum interesse, seja qual for, em ser objetiva. Se voc se lembra, Gabe, fui a primeira a procurar
sua agncia de investigao profissional, na poca do acidente de avio, quando minha me desapareceu.
   ? Lembro.
   ? Ningum acreditava que Kate estivesse viva. Ningum acreditava que ela pudesse estar. E eu quis contrat-lo porque  o melhor, e sempre respeitei o fato de
que voc podia fazer certas coisas que eu no posso. Mas quando aceitou o caso, no acreditava que minha me estivesse viva. No era diferente dos outros. Quem estava
certo naquela poca, Deverax?
   ? Voc. Mas era completamente diferente
   A senhorita Fortune balanou a cabea, rpida e violentamente, fazendo com que o galo na testa doesse bastante. Mas no se importava.
   ?  exatamente a mesma coisa. Voc segue o seu raciocnio assim como eu sigo o meu corao.  porque amo meu irmo que tenho certeza absoluta de que ele nunca
matou ningum... E no me importa o quanto Mnica Malone era m, ou o que fez a ele.
   Gabe suspirou. Um daqueles suspiros masculinos irritantes que expressavam atitudes arcaicas em relao s mulheres ? e, particularmente, em relao a ela.
   ? H alguns pequenos defeitos nessa lgica, mas vamos esquecer e continuar. Se acredita que o seu irmo  inocente, e que toda a evidncia fsica contra ele 
somente uma fantasiosa inconvenincia, isso significa que o verdadeiro assassino est por perto e solto. Mais uma boa razo para ficar longe disso tudo. Voc pode
estar correndo perigo se comear a meter o nariz onde no deve, principalmente sem estar preparada.
   ? Pelo amor de Deus, Gabe.  por isso que estou aqui. Para encontrar alguma prova.
   ? Meu Deus,  como se eu estivesse falando com as paredes. No entende nada. ? Pela segunda vez, passou a mo no rosto. ? Pelo jeito, acho que no vou conseguir
convenc-la a ir para casa.
   ? Anda, anda. ? Deu uma palmadinha nos ombros de Gabe, enquanto caminhava atrs dele em direo s escadas do poro. ? Vou ajud-lo. Acredite em mim.
   Captulo 2

   Rebecca era to til quanto um tornado. Se Gabe pudesse escolher, ficaria com a opo menos catica.
   E no seria a ruiva.
   Pela segunda vez, colocou o pano debaixo da torneira, torceu-o e o colocou no galo da testa de Rebecca. A chuva ainda caa l fora e batia na janela como se fossem 
balas de revlver. Era cedo demais para uma tempestade em Minnesota, estavam em maro. No adiantava reclamar; era melhor chuva que neve. Ainda assim, era impossvel 
no tremer ao som do trovo invadindo a casa. As luzes piscavam a cada relmpago. Teriam sorte se no acabasse a luz.
   A falta de luz no o incomodava. Gabe sabia muito bem se virar. Passou anos nas Foras Especiais aperfeioando a habilidade em lidar com as mais imprevisveis 
situaes. O perigo nunca o impedia de nada. Nem a adversidade. No passado, nunca contou com a sorte ou com Deus para resolver qualquer problema.
   Entretanto, era possvel que algumas horas com Rebecca transformassem um ferrenho pago em um fervoroso fiel.
   ? Ei, veja s, voc teve aulas com Torquemada, o padre que liderou a expulso dos judeus da Espanha, no final do sculo XV? Deixe-me s.
   Deverax no interrompeu o que fazia nem olhou para cima. Agora, Rebecca estava apoiada no balco da cozinha, o rosto inclinado na direo da luz da pia.
   Gabe tinha uma viso clara do corte na testa da ruivinha, mas as chances de mant-la quieta e afastada por um bom tempo eram remotas.
   ? A culpa  sua se di. H pequenos gros no corte. Talvez partculas da pintura da armao da janela.  importante que eles saiam. Se parar de se retorcer, vou 
conseguir ser mais rpido. Acho que precisa levar alguns pontos.
   A resposta dela foi rpida. ? No.
   ? E s Deus sabe como conseguiu esses arranhes, provavelmente vai precisar tomar uma injeo antitetnica.
   A resposta dela foi ainda mais veloz.
   ? Tomei uma dose h algumas semanas.
   ? Claro que tomou. Assim como devo acreditar que os gatos agora gostam de gua. Voc realmente tem talento para a fico, o que  uma grande qualidade, desde 
que no tente enveredar pelo crime. No leva nenhum jeito para arrombar casas.
   ? No comece com isso novamente, Deverax. Fiz isso pelo meu irmo, e no me importaria se acabasse com as pernas e os braos engessados e imobilizados. Faria 
tudo novamente.
   Gabe acreditava nela. Era exatamente isso que o assustava.
   Muitas pessoas podiam ser atradas pela razo. Muitas mulheres tinham um conceito de segurana, limites pessoais, como se protegerem. No adiantava falar com 
Rebecca sobre isso. Ela ignorava. Os lindos olhos verdes vagavam. Era como se a mente parasse. Nenhum sinal de qualquer raciocnio.
   Deverax largou o pano e virou o rosto da moa em direo  luz da pia para poder observar melhor a ferida. O machucado parecia limpo, mas o feio corte naquela 
pele suave e branca, o deixou furioso com ela.
   A reao ao toque daquela pele o deixou ainda mais furioso consigo mesmo.
   Quando um homem ficava em p entre as coxas de uma mulher, era natural que surgisse uma certa excitao. Era uma reao biolgica inevitvel. Gabe compreendia 
perfeitamente bem por que era extremamente severo. Porm, em um nico dia durante todo o ano, tinha todo o direito de perder a razo por alguns minutos.
   Mas Deverax estava bastante chateado com a ruivinha por causa disso tambm.
   Quando se afastou, Rebecca achou, por engano, que estava livre. Imediatamente, se inclinou para se levantar.
   ? Se deixar esse balco, morre ? disse. ? Voc precisa colocar uma atadura a.
   ? Ei,  somente um pequeno ferimento. No precisa se preocupar tanto.
   ? Se no for tratado corretamente, vai ficar com uma cicatriz.
   ? Meu irmo est preso e  acusado de assassinato. Quem iria se incomodar com uma pequena cicatriz? J perdemos muito tempo com isso.
   ? S mais um minuto e vai ficar pronto. ? Gabe voltou a posicionar-se entre as coxas da ruivinha. Tinha que faz-lo. No acreditava que Rebecca ficasse no balco 
sem que comeasse a brincar de detetive. Encontrou ataduras na velha caixa de primeiros socorros. Encostando-se nela, seu sexo naturalmente ficou alerta, rgido 
como a lana de um soldado.
   Tanto Gabe quanto o seu sexo duro e quente deviam ter imaginado que um homem no pode ganhar sempre. Gabe ignorava completamente aquele problema. Queria poder 
ignor-la.
   Rebecca estava relativamente limpa agora. Tecnicamente, ningum podia mexer em nada at que tudo que fosse relacionado  morte de Mnica Malone estivesse esclarecido. 
Aquelas complicaes legais significavam que os armrios de cozinha, as gavetas, os guarda-vestidos da casa, tudo estava ainda abarrotado de coisas. Gabe no tivera 
dificuldade para encontrar uma toalha, um pano, a caixa de primeiros socorros e algumas roupas. Ele at viu uma garrafa de Scotch, trinta anos, em cima do armrio 
da cozinha.
   Deverax estava apreciando a garrafa.
   ? Terminou? ? perguntou, esperanosa.
   ? Sim, terminei.
   ? Gabe... Obrigada. ? Ela sozinha no conseguiria ver o local do corte, precisaria de ajuda. ? No queria dar trabalho. Obrigada pela ajuda.
   ? No foi nada. ? Que mentira, pensou Gabe. Tudo relacionado a ela era um trabalho.
   Rebecca no era ftil nem mimada, pensava Deverax, e ela, com certeza, podia ser as duas coisas devido  enorme riqueza e influncia da famlia Fortune. No era 
culpa da ruivinha se nunca estivera em um ambiente desprovido de proteo. Sua histria a tornava um problema inevitvel. Era uma idealista desesperada, extremamente 
inteligente, mas no tinha a esperteza do mundo, a experincia prtica de vida. Nunca se deparara com o lado mais desagradvel, mais real do cotidiano. Nunca sequer 
estivera perto dele. Acreditava no amor, em cavaleiros brancos e na honra, e, at onde Gabe sabia, ela no tinha a menor idia da existncia de predadores que podiam 
machuc-la.
   Ainda pior, ela se imaginava Nancy Drew ? personagem americana dos anos 30, que era detetive ? somente porque escrevera alguns romances policiais. As complicaes 
que podia causar, ajudando na investigao sobre o irmo, eram suficientes para que Gabe tivesse uma lcera.
   Assim era Rebecca Fortune.
   Enquanto a ruivinha descia do balco, os olhos de Gabe admiravam o suti rendado e a sombra do seio. Mais sombra do que seio. No conseguiu convenc-la a se livrar 
do moletom molhado e enlameado at encontrar algo para vestir ? ele puxou um suter preto, gola V, de uma das gavetas l de cima, e presumia que tivesse pertencido 
a Mnica Malone. A falecida Mnica, assim como tantas estrelas glamourosas de Hollywood da sua poca, tivera uma carreira slida.
   O decote em V deixou Rebecca boquiaberta como se fosse uma rf abandonada brincando de se vestir. Os jeans pretos finalmente secaram, e modelavam bem aquele 
corpo com pernas longas e finas e um bumbum quase inexistente. Uma vez que ela no conseguia se sentar sem se retorcer, Deverax suspeitou que ela machucara o bumbum, 
mas nunca iria admitir isso. Havia mais orgulho do que razo naqueles olhos verdes, e isso tambm resumia o resto da aparncia dela.
   O rosto era mimoso, a pele muito branca, os olhos bem escuros, a boca parecia manteiga derretida e o nariz tinha a ponta arrebitada. Deverax imaginava que a altura 
beirava um metro e sessenta e cinco. Uma altura respeitvel ? exceto se comparada  dele ? mas era difcil no cham-la de "baixinha" quando a menor provocao a 
tirava do srio.
   O cabelo era no tom escuro de canela e, naquele momento, os cachinhos emaranhados caam sobre os ombros. Obviamente, ela no tivera oportunidade nem tempo para 
escov-lo, mas Gabe j estivera com Rebecca antes e sabia que o cabelo dela era sempre assim, parecia que a ruivinha acabara de se levantar da cama aps uma longa 
e maravilhosa noite de amor. Como era uma Fortune, no havia dvida de que tinha dinheiro suficiente para um corte de cabelo decente, ento, aparentemente, era ela 
quem no ligava para isso. Talvez um corte de cabelo no ajudasse. Mesmo que vestisse roupas masculinas ? ainda assim iria continuar elegante, sexy, atraente e, 
vulnervel.
   Gabe nunca se sentira atrado por mulheres que pareciam vulnerveis, ento no compreendia o motivo de Rebecca deix-lo acelerado, e nem queria saber. Geralmente 
ele dizia que, quando um homem estava prestes a cometer um erro, deveria pegar o seu dinheiro e fazer a coisa certa. Mas, droga, no com ela. J se envolvera com 
esse tipo de mulher e, aos trinta e oito anos, certamente, sabia quando valia a pena arriscar. Gostava de desafios e era corajoso ? mas no era, em hiptese nenhuma, 
um camicase.
   ? Rebecca... ? Passou novamente a mo pelo rosto. Assim que saiu de cima do balco da pia da cozinha ? como Gabe previra ? logo se dirigiu  porta. ? Aonde vai?
   ? A qualquer lugar. Todos os lugares. Pensei primeiro em dar uma olhada na cena do crime. Foi na sala de estar, no foi? Depois, vou ver o que consigo vasculhar 
no quarto da senhora Malone.
   ? Se vai em direo  sala de estar, melhor virar  direita e no  esquerda. A no ser que queira dar uma olhadela na despensa e nos aposentos do mordomo. E 
escute, Nancy D. Deixe tudo como est. No leve nada daqui. Gostaria inclusive que nem tocasse em nada sem me falar.
   ? Ok, Gabe. J li dezenas de livros sobre procedimentos policiais. Se encontrar alguma evidncia, prometo que eu no vou bagunar nada.
   ? O fato de ter lido esses livros no me garante muita coisa.
   Para uma mulher que podia ser considerada vulnervel, ela tinha um sorriso incrvel.
   ? Eu sei, querido. No pode ajudar dando-se ao trabalho de ser dominador, protetor. Principalmente com mulheres. Deus, no d nem para imaginar voc sendo pai. 
Enlouqueceria a prpria filha, querido.
   ? Como no pretendo ser pai, no h o que discutir. Bebs so a ltima coisa que passa pela minha cabea.
   ? Mais uma grande diferena entre ns; sem surpresas. Se no fosse por causa desse problema com o meu irmo, bebs seriam a minha prioridade. Deveria dar uma 
olhada em todo o material de pesquisa que coletei sobre bancos de esperma.
   ? Bancos de esperma? Voc no pode estar falando srio.
   ? No que diz respeito a bebs, eu no poderia estar falando mais srio. ? Mas ela sorriu novamente. ? Entretanto, o nico motivo que me levou a mencionar bancos 
de esperma foi porque eu no poderia resistir ? sabia que faria essa cara de espanto, querido. Mas agora, perda de tempo... no h lugar para bebs na agenda dessa 
noite.
   ? No ? pensou Gabe, o crime era o que aparentemente figurava na agenda da moa agora. E somente Rebecca poderia passar de um assunto como bancos de esperma para 
outro, como assassinato, em um piscar de olhos.
   ? Bem, no ia segui-la. Tinha que fazer uma investigao e estava sendo pago para isso, e o salrio no inclua bebs nem ruivas teimosas, mesmo que fosse parente 
do chefe.
   Ele se dirigiu ao escritrio ? sabia que existia um porque j estivera l antes. O papel de parede tinha a textura de seda, as janelas eram adornadas com cortinas 
de pompons, e a escrivaninha vinha acompanhada de uma cadeira de brocado. Era o escritrio mais espalhafatoso em que j estivera, e duvidava que Mnica Malone alguma 
vez pagara uma conta ela mesma. At onde sabia, tanto os policiais quanto os advogados tinham sumido com os registros e os extratos que estavam nas gavetas das estantes. 
Assim mesmo, acendeu a luz e comeou a vasculhar o local.
   Algum poderia ter perdido alguma coisa ali. Sempre acontecia isso. Por mais evidncias que existissem, ainda havia grandes lacunas a serem preenchidas. Ele, 
ento, cautelosamente, revirou todo o lugar em busca de algo... por cerca de vinte minutos.
   Foi quando percebeu o quanto a casa estava em silncio. Um silncio profundo. Ideal para se concentrar, exceto pelo fato de que muito silncio o incomodava tanto 
quanto uma ferroada de abelha. No parava de pensar em Rebecca chamando-o de prepotente, e isso ainda doa. No era, de jeito nenhum, prepotente. Simplesmente, tinha 
uma experincia prvia com Rebecca ? suficiente para saber que ela era impulsiva e incapaz de resolver problemas. Quando um homem estava em uma casa com um reator 
nuclear, tinha todo o direito de estar preocupado.
   Ele a encontrou na sala de estar, aconchegada a uma cadeira, admirando a lareira de mrmore. Diabos de mulher. Ela o fitou. O olhar era triste.
   ? Estou somente tentando imaginar o que aconteceu. Sei que ela foi morta aqui...
   ? Sim.
   ? Sabemos que Jake esteve aqui. E que estava bbado. Sabemos que os dois discutiram, se agrediram fisicamente. Jake disse que Mnica o arranhou e veio na direo 
dele com um tipo de punhal, prprio para abrir cartas, e ele tinha um ferimento de uma punhalada no ombro para comprovar o que dissera. Admitiu que a empurrou e, 
a, ela caiu, batendo a cabea na lareira.
   ? As impresses digitais de Mnica e de seu irmo esto em todo o lugar. ? Gabe no acrescentou que no havia mais nenhuma outra impresso digital. Rebecca sabia 
que a evidncia contra o irmo era convincente.
   No conseguia parar de contorcer as mos brancas e magras.
   ? Mas ele disse que Mnica estava viva quando a deixou. Natalie, a filha, o viu mais tarde. Falamos com ele. No foi uma luta, no da parte dele. Jake s a empurrou 
porque ela o estava atacando com aquele punhal, e ele no tinha motivo para mentir dizendo que ela ainda estava viva. Poderia ter alegado autodefesa se ela tivesse 
morrido acidentalmente durante a briga. Estou lhe dizendo, outra pessoa estava na casa e veio depois que ele foi embora. Meu irmo no a matou, Gabe.
   Deverax atravessou a sala em direo ao bar. Nada ali era to bom quanto a garrafa de Scotch, de trinta e trs anos, que encontrara na cozinha mas, no momento, 
teria liquidado com o usque de Kentucky. No por ele. Estar perto de Rebecca lhe dava vontade de beber, mas o problema agora era aquele olhar profundamente deprimido.
   Gabe colocou um pouco de usque em um copo de cristal e levou a bebida at ela.
   Rebecca pegou o copo e cheirou-o.
   ? Argh ? disse.
   ? Fique quieta e beba, baixinha.
   ? Se me chamar de baixinha mais uma vez... ? comeou, mas a voz embargou. Era realmente uma ocasio memorvel. De fato, no ficou com raiva nem discutiu. Ao invs 
disso, ergueu o copo e tomou tudo em trs goles. Quando parou de tossir, esfregou os olhos, tremendo. ? Concordo com Mary Poppins. Se voc tem que tomar remdio, 
acrescente uma colher de acar.
   Gabe estremeceu s de imaginar o gosto de usque com acar, mas percebeu que o lquido encorajador fizera efeito. Rebecca voltou a ficar corada. Parou de tentar 
aquecer as mos colocando-as por debaixo do suter. Gabe presumiu que seria o momento de encarar uma dose de realismo.
   ? No h outros suspeitos, Rebecca. ? Nem um nome, muito menos impresses digitais. Todas as evidncias fsicas apontam para Jake... E ele tinha motivo.
   ? Mnica o estava chantageando. Sei disso. Ela o explorava por causa das aes da companhia Fortune, desde a poca em que descobriu que Jake era fruto de uma 
relao fora do casamento. Se o expusesse, ele receava perder tudo. Conheo todos os podres da famlia, Gabe, e conheo os erros de meu irmo. Sei que vinha bebendo 
muito e relaxando com o trabalho. Que a presso acabou com o casamento com Nate, e que se voltou contra a ex-esposa. Mesmo assim, isso no significa que a matou.
   Era raro que dois mais dois no dessem quatro, Gabe pensou, mas era difcil ir contra um sentimento de lealdade to forte.
   ? S pensei que precisasse reconhecer o quanto a situao est ruim ? disse, com jeitinho.
   De repente, ela deu um pulo da cadeira, estava to irrequieta quanto um gato molhado.
   ? Sabe o que percebo? Que, de alguma forma, Mnica Malone tentou atingir minha famlia durante duas geraes. ? Ela agora est morta e isso ainda no acabou. 
A velha bruxa foi acusada de seqestro, sabotagem, infidelidade, tocaia, roubo, chantagem. ? Voc deu esse nome. Ela fez tudo isso contra a famlia Fortune. E esse 
pesadelo comeou quando, no passado, Mnica teve um caso com meu pai. Prometo que nos machucou pela ltima vez. Isso tem que parar.
   ? Rebecca ? disse, com pacincia ? v para casa.
   ? No.
   ? Talvez esteja certa. Algum pode ter entrado nessa casa depois que o seu irmo foi embora, e a matou. Mas se houver algum indcio que possa provar isso, prometo 
que vou encontrar.
   ? Sei que vai tentar. E sei que  bom. Mas no tem o olhar de uma mulher, Gabe. Posso ver coisas que nunca iria ver.
   Deverax passou a mo pelo rosto novamente. No adiantava continuar naquela direo, ento, teria que tentar outra.
   ? H um pequeno detalhe que talvez no tenha considerado, ruivinha. Encontrar provas de que outra pessoa matou a Mnica no significa que voc vai ficar mais 
feliz. Conheo toda a histria de como ela importunava sua famlia. Essa  a questo. Se h outro suspeito, ele pode muito bem ser outro membro do cl. Todos da 
famlia tm motivos de sobra.
   ? No foi nenhum de ns ? disse Rebecca, com firmeza.
   ? Gostaria de no ter que lhe dizer isso, mas seria difcil provar essa situao no tribunal. Algum, mal orientado, poderia achar que voc no pensa de forma 
racional e objetiva e, sim, cegamente, movida por um forte sentimento de lealdade  sua famlia.
   ? Bem, estariam todos completamente errados. Aquela mulher durante toda sua vida foi gananciosa, egosta, uma verdadeira megera, Gabe. Deveria ter mil inimigos 
alm de ns. E, oh, Deus, no posso me sentar aqui... Tenho que comear a procurar.
   A ruivinha partiu em direo  porta antes mesmo que ele pudesse par-la. No que Gabe tivesse tentado. Era perda de tempo cham-la  razo; quando ela cismava 
com alguma coisa, ficava mais empacada do que uma mula. Ele deu uma longa olhada na garrafa de usque.
   Deverax no acreditava que Rebecca encontrasse alguma evidncia que inocentasse o irmo, mas havia uma chance remota de que isso pudesse acontecer. E por mais 
estranha que fosse a convico da ruivinha, ainda realmente havia um criminoso l. Um assassino sangue-frio no gostaria, de jeito nenhum, de ver algum vasculhando 
 procura da verdade. Gabe nunca mencionou aquela ameaa  Rebecca, mas aquele pensamento ruim, detestvel, atravessou sua mente. Era preciso que algum ficasse 
de olho nela.
   No era problema dele. Se as coisas piorassem, poderia acionar a me, a senhora Fortune. Kate controlaria um batalho de fuzileiros navais com um s olhar.
   Estava preso  ruivinha somente por essa noite. Quando chegasse em casa, teria tempo suficiente para mergulhar numa dose confortante de usque. Enquanto tivesse 
que estar perto de Rebecca, definitivamente, precisava de toda a perspiccia que pudesse implorar, pegar emprestado ou roubar.
   Rebecca colocou ambas as mos na cintura.
   O quarto de Mnica Malone era como ela imaginara ? um lugar propcio para se conhecer uma mulher ftil, gananciosa e tolerante consigo mesma. O mundo de Mnica 
girava somente ao redor dela. Tinha dois auto-retratos, pintados a leo, na parede. Closets lotados de vestidos e sapatos. A cama era em forma de corao ? no podia 
ser mais excntrica ? com lenis acetinados e cabeceira acolchoada tambm em cetim. Provavelmente, era preciso matar uma enorme baleia para colocar todos os ossos 
a fim de preencher os espartilhos da velha atriz; Mnica vinha se apertando para simular um aumento no tamanho dos seios que passaram a ficar um pouco mais  mostra. 
A vaidade era enorme, eram tantos os frascos de cosmticos, mais do que uma grande empresa podia produzir ? e Rebecca sabia disso, uma vez que a famlia Fortune 
fundara uma dinastia de cosmticos.
   J revirara as gavetas e os armrios. Enquanto estava no luxuoso banheiro de malaquita, tirou os jeans ? longe dos olhos de guia de Gabe ? para descobrir por 
que o bumbum doa tanto. Havia espelhos suficientes para mostrar um machucado grave, que refletia as cores do arco-ris. O galo na testa latejava, as costas a estavam 
matando, e o longo arranho no peito e nas costelas no parava de arder.
   Bem, poderia tomar um banho relaxante quando chegasse em casa. Agora no era hora. No queria admitir que estava bastante exausta, embora j fossem trs horas 
da manh. A trovoada continuava sem piedade. A mente estava escura e triste assim como a noite l fora, negra e assustadora como o breu.
   Rebecca sabia que Gabe no acreditava que pudessem encontrar alguma evidncia a favor de Jake. Ele no a queria por perto. Tambm sabia disso. O gole de usque, 
ranoso, finalmente, a tinha esquentado, entretanto, renovou sua determinao. Por alguma razo idiota, a ruivinha havia esperado que Gabe acreditasse na inocncia 
de Jake. Era bvio que no acreditava ? ele no era diferente dos outros.
   No era a primeira vez que se sentia totalmente sozinha. Enquanto o olhar percorria a sala em toda a sua largura, automaticamente esfregou a pulseira dourada 
que estava no pulso. O smbolo da famlia que sempre a mantinha firme. To diverso quanto o cl Fortune, Rebecca sempre se sentiu diferente, no se encaixava nem 
seguia padres e valores. No tinha importncia. Nunca teve. Famlia significava lealdade. Amor. Laos de sangue preciosos e inquebrveis. Encontraria um jeito de 
limpar o nome do irmo ou morreria tentando. No havia qualquer dvida quanto a isso.
   Olhando tudo ao redor, esfregou novamente a pulseira, e se perguntava se Gabe ao menos tinha uma famlia. Nunca falara de irmos ou outros familiares. Esposa 
e filhos pareciam no fazer parte da lista de suas prioridades. Imaginou-o solitrio e auto-suficiente, mas, em algum cantinho do pensamento, pressentia que ele 
era um homem muito sozinho.
   Deverax, certamente, teria um colapso nervoso se ela ousasse sugerir tal coisa. Ento, Rebecca o esqueceu. O olhar se voltou para a pulseira, depois, para a sala. 
Jias. Aquela mulher deveria ter uma tonelada de jias. Sem dvida, as mais caras estavam guardadas em cofres ? ou os advogados teriam sumido com elas enquanto corresse 
a homologao. Mas Mnica nunca tinha sido fotografada quando estava ostentando pingentes e bugigangas de todos os tipos. Com certeza, deveria haver caixas de jias 
por ali.
   E havia.
   Rebecca encontrou duas cestas de jias nos fundos de um armrio ? ambas completamente lotadas. Agachada, puxou uma das pequenas gavetas e comeou a vasculhar 
por entre pulseiras brilhantes e bugigangas baratas.
   Aumentou a sua expectativa. No, ela no sabia o que estava procurando, no sabia para onde olhar, nem sabia se ao menos tinha alguma coisa para procurar. Talvez 
um homem escondesse segredos no carro ou na escrivaninha do escritrio, mas uma mulher sempre guardava seus segredos em seu quarto. Era o esconderijo particular, 
a segurana, de forma que um homem nunca entenderia isso.
   Na quarta gaveta, os dedos tocaram em um ressalto. Checou o que era. Realmente, a gaveta tinha um ressalto. Com uma certa rapidez, virou a gaveta de bugigangas 
no carpete branco, balanou e, ento, esquadrinhou o fundo. O ressalto aparecia como uma pequena ondulao no forro de cetim.
   O forro de cetim se rasgou facilmente assim como se desembrulha um doce.
   Vrios pedaos de papel saram l de dentro. Um deles era um telegrama, to antigo, que o papel amarelado parecia um guardanapo amassado ? talvez algum bom moo 
declarando seu amor por Mnica. Rebecca largou aquele papel, depois, pegou o prximo ? uma carta de amor de um outro homem que assinara ? Seu fiel apaixonado. ? 
Desejava saber se aquele tinha sido um cafajeste como amante, mas depois analisou a carta com mais calma. A mensagem tinha sido escrita h dez anos, muito antiga 
para ter alguma importncia mas, de qualquer forma, ela a colocou perto dos joelhos. Se Mnica escondeu aquela carta era porque deveria significar alguma coisa.
   Grande parte dos papis eram simples lembranas pessoais, nada que levasse Rebecca a pensar que estivesse relacionado ao assassinato da mulher. A ruivinha ficava 
cada vez mais enojada ao encontrar evidncias que mostravam o jeito prfido de Mnica. Encontrou provas de que Malone estivera por trs da tentativa de roubo da 
frmula secreta de rejuvenescimento, encorajara a tocaia contra Allie, deixara algum entrar no laboratrio e estivera, inclusive, por trs das ameaas para deportar 
o cientista Nick Valkov ? uma ameaa que tinha ocasionado o casamento deles, o primeiro dos casamentos relmpagos na famlia Fortune. Mnica, ao menos, fizera alguma 
coisa certa. Mas nada disso servia para limpar o nome de Jake.
   At encontrar a carta. A adrenalina corria nas veias enquanto lia, relia, a ltima missiva.
   Era uma cpia em carbono de uma carta escrita, no para Mnica, mas por ela. Embora a mensagem contivesse somente algumas poucas linhas, estava datada de dez 
dias antes de sua morte, ameaava uma certa Tammy Diller para que "comparecesse ao encontro" ou arriscaria "mais problemas do que imagina".
   Pagamento sujo.
   Uma certa exaltao tomou conta de Rebecca. Aquele nome no lhe era estranho, mas no sabia de onde o conhecia... E aquilo no importava agora. A carta em si 
j bastava. Talvez a missiva no fosse uma prova de que o irmo era inocente. Talvez no fosse uma prova de que aquela mulher chamada Tammy tivesse feito alguma 
coisa tambm. Mas era uma prova clara de que outra pessoa tinha estado por perto na hora da morte de Mnica... E a relao delas dificilmente pareceria amigvel.
   Ignorando as dores, Rebecca se levantou. Segurando a carta como se fosse uma preciosa pea de porcelana, saiu do quarto e foi pelo corredor gritando por Gabe.
   Depois, pensou que sua gritaria o tivesse alarmado fazendo-o pensar que se machucara seriamente. Rebecca o vira subindo as escadas para espi-la umas trs vezes. 
Mas naquele momento, as nicas coisas que povoavam sua mente eram exaltao, alvio e a expectativa por ter encontrado algo real e concreto que pudesse ligar algum 
ao assassinato de Mnica, que no fosse Jake.
   Quando Gabe se dirigiu a ela, Rebecca fez a mesma coisa.
   Era perfeitamente lgico abra-lo. Qualquer mulher teria entendido esse impulso. Gabe, entretanto, no viu o abrao dessa forma: como algo natural, fruto da 
emoo.


   Captulo 3
   
   A forma desenfreada com que Rebecca atravessava o corredor fez com que Gabe naturalmente pensasse que uma legio de demnios estava atrs dela ? ou, ento, um 
assassino. Apesar de estar afastado das Foras Especiais h sete anos, certas reaes ainda lhe eram familiares, no perdera o traquejo.
   Estava decidido a proteg-la, a enfrentar o perigo. Estava decidido a qualquer coisa menos a ter aquela mulher abraada a ele. O exuberante abrao foi to repentino. 
Talvez a ruivinha quisesse dar um beijo no rosto dele mas, com o encontro, acabou batendo pertinho da boca como se fosse o impacto de uma bala de revlver.
   Gabe tinha sido baleado. Duas vezes. Era uma experincia que um homem nunca esqueceria, embora no tivesse sentido dor em nenhuma das ocasies ? nem no momento 
do impacto da bala entrando no corpo. A sensao tinha sido de algo queimando, uma exploso de calor.
   As balas nada tinham a ver com Rebecca.
   Deverax sabia que a ruivinha era um problema. No ntimo, sabia que, se mantivesse as mos longe da senhorita Fortune, poderia evitar uma grande confuso. Mas, 
inicialmente, Gabe a agarrou porque o crebro respondia  ameaa de perigo. A adrenalina corria nas veias sob a velocidade da luz. Um milsimo de segundo depois, 
aquela rajada de adrenalina foi sabotada por uma corrente de testosterona.
   O longo corredor estava escuro feito breu, to vazio que as batidas do corao de Gabe ecoavam alto, quebrando o silncio. Mas por que razo, diabos, o abraara? 
De repente, a ruivinha afastou a cabea para trs. Os olhos verdes de veludo se encontraram com os dele. O largo sorriso, que cobria os lbios, murchou, ficou mais 
suave. A senhorita Fortune no abaixou os braos. No fez nada que uma mulher sensata, normal, racional faria. Ficou na ponta dos ps, como se fosse uma gatinha 
curiosa, e o beijou.
   Rebecca tinha gosto de brisa e inocncia. No tinha gosto de nada semelhante  vida de Gabe nos ltimos tempos... Diabos, nada que tivesse perdido ou desejado 
at aquele momento. A boca da ruivinha era extremamente suave, a pele era to perfumada quanto um bom sabonete, mas havia alguma coisa em uma das mos que o arranhava 
no pescoo. Seria papel? De repente, a outra mo agarrou o cabelo preto, na nuca, e os seios pequenos roavam no seu peito. Ele perdeu a respirao.
   Gabe tentou dizer que tudo ia bem. Nada estava acontecendo a no ser uma pequena descarga de testosterona, hormnios. Estava sozinho h algum tempinho, e detestava 
estar s. E, mesmo que Rebecca o irritasse, era mulher, extremamente feminina. Nada mais natural que ele sentisse desejo. Uma questo biolgica simples.
   Entretanto, nada parecia simples naquele momento. Os dedos de Gabe encontraram caminho entre o emaranhado cabelo da ruivinha, to sedoso, suave, e a boca de Rebecca 
se abriu mediante a presso dos lbios dele. A lngua molhada era to pequena quanto um segredo, e no dava para saber se aquela mulher tinha algum instinto reprimido. 
Ela o beijou com vontade. O beijo era de uma emoo pura, intocvel. A impresso que dava era que nunca andara em uma montanha-russa e estava totalmente envolvida 
com essa experincia.
   Rebecca poderia, em trs segundos, fazer com que um homem desaparecesse num terreno de areia movedia ? se ele a deixasse.
   Depois do beijo, Gabe encheu os pulmes de oxignio. Ento, tentou um movimento mais inteligente. Xingou e retirou suas mos do corpo de Rebecca.
   O xingamento funcionou. A senhorita Fortune abriu os olhos e o mirou como se estivesse com a viso submersa em um nevoeiro mas, com calma, tirou as mos de cima 
dos ombros dele. Parecia que um ou dois anos tinham se passado antes que se afastasse.
   ? Bem ? murmurou.
   Deverax no gostou da forma como ela disse aquilo. Tambm no gostou do olhar malicioso.
   ? Se soubesse que beijava assim, querido, teria pedido uma amostra maior do que essa ? disse.
   Deus lhe deu foras.
   ? Foi um acidente.
   ? Sei.
   ? No vai acontecer de novo.
   ?  de espantar que tenha acontecido. Antes, toda vez que eu estava perto, podia jurar que voc estava mais tentado a me matar do que a me beijar.
   ? Estava. Estou. E se no tivesse vivido intocada, debruada sobre um teclado, saberia que a qumica estava l. De onde eu venho, no se acorda um leo adormecido. 
Agora eu pressuponho, voltando no tempo, que voc deve ter tido algum motivo para me abraar, certo?
   ? Motivo? ? Pronunciou essa palavra como se fosse um aliengena.
   Com Rebecca, aquilo era possvel. Por um longo e assustador minuto, os suaves olhos verdes ficaram colados ao rosto dele, observando, fazendo-o sentir-se desprotegido. 
Ento ela piscou e, rapidamente, ergueu a mo como se tivesse lembrado de que estava segurando um pedao de papel.
   ?  claro que eu tinha um motivo. Um timo motivo. Gabe! No vai acreditar no que encontrei!
   Bem, a senhorita Fortune estava se divertindo com todo aquele negcio complicado de qumica, mas era praticamente impossvel acalm-la.
   Gabe leu a carta e foi arrastado para dentro do armrio no quarto de Mnica onde Rebecca encontrou o papel. Mas, mesmo depois que voltaram para o andar trreo, 
a ruivinha continuava arrogante ? e tentando de todo modo humilh-lo.
   ? Disse que encontraria alguma coisa? No disse?
   ? Agora escute, baixinha, voc est muito esperanosa. Mas isso no prova nada.
   ?  uma prova de que poderia ter outro fator envolvido no assassinato de Mnica. Uma prova de que algum, alm do meu irmo, estava com problemas com Mnica na 
mesma poca da morte dela.
   Sim, ele tambm via as coisas da mesma forma. E a raiva o consumia s de pensar que uma escritora de romances policiais, sonhadora e idealista, conseguira achar 
a resposta e no ele ? principalmente, porque tinha revirado aquela maldita manso de cabea para baixo umas trs vezes, e no conseguira descobrir nada.
   Precavido, Gabe tirou a carta das mos de Rebecca, com cuidado, e a guardou no bolso. O endereo dessa Tammy Diller era em Los Angeles, um endereo que Rebecca 
certamente vira ? mas que ele esperava que a ruivinha no se lembrasse. A cabea fervilhava de idias. Assim que chegasse em casa, poderia investigar no banco de 
dados aquele nome e endereo. Se desse resultado, teria que arrumar os preparativos para uma viagem a Los Angeles.
   Entretanto, antes, tinha que se livrar de Rebecca. Como uma mulher podia estar ainda to acesa no meio da noite e no estar  merc dele? Principalmente, uma 
mulher que parecia ter se emaranhado com uma gangue inteira em uma viela. O rosto era branco como um vestido de noiva, e o corte na testa estava inchando.
   ? Nunca acreditou que eu fosse encontrar alguma coisa, no foi? Da mesma forma como no acreditou em mim, h alguns meses, quando falei sobre a minha me. Nem 
sempre a lgica tem mais valor do que a intuio. Mulher e homem simplesmente pensam de forma diferente. Mesmo que eu no tivesse lido muitos romances policiais, 
s vezes, uma mulher pode perceber as coisas.
   Quando parou para tomar flego, Gabe comentou.
   ? Admito. Voc fez um bom trabalho. Mas j so quatro da manh. Acho que podemos encerrar.
   ? Quer ir embora? ? Pelo olhar de Rebecca, a idia no era nem um pouco atraente.
   ? Estou exausto, pronto para encerrar por hoje e, certamente, no vou deixar voc aqui sozinha. Conseguiu uma boa pista ? se apressou a dizer antes que ela ficasse 
demoradamente se elogiando. ? E assim que descansar um pouco, vou continuar o trabalho.
   ? Bem, concordo, se est cansado, deve ir para casa. Mas posso ficar e continuar a procurar um pouco mais. Talvez Mnica tivesse outros esconderijos
   ? Talvez. Mas isso  como procurar uma agulha no palheiro, considerando todas as pessoas que estiveram aqui. E a carta  uma coisa concreta, podemos dar prosseguimento 
imediatamente. Alm disso, estamos aqui h horas.
   ? No estou cansada ? disse. Deverax percebeu o jeito rebelde.
   Irritado, Gabe a fitava. O olhar carrancudo tinha uma longa histria, j servira para intimidar soldados rebeldes.
   ?  claro que est. Parece arrasada e no vem me dizer que no est sentindo dores. S o machucado na testa deve doer horrores. Agora, onde est o seu carro?
   Rebecca no parecia intimidada, mas a pergunta a distraiu.
   ? Cerca de um quilmetro e meio do porto principal. Havia muitas amendoeiras antigas, grandes. Era o lugar perfeito para estacionar, bem escuro. E parando bem 
longe, imaginei que ningum iria me ver quando eu escalasse o porto.
   ? No quero mais ouvir nada sobre a faanha de como entrou aqui.
   Deus, ela ia deix-lo de cabelo branco. At encontr-la, Gabe se considerava um jovem de trinta e oito anos. Nada o estressara a no ser morte, destruio, e 
alguns poucos terroristas da poca em que trabalhava nas Foras Especiais.
   ? No importa onde estacionou, seu carro parece estar muito longe para uma caminhada. O meu est parado aqui em frente. Ento, vou lev-la at l. Agora, onde 
voc deixou o moletom molhado?
   ? Na cozinha. ? Rebecca deu uma olhada no suter preto, com decote em V e, imediatamente, cobriu o pescoo. Deus sabia o motivo. Gabe vira o suti dela, vira 
o decote, vira cada centmetro do longo pescoo branco mais de uma vez em uma nica noite. Seu sexo persistia em responder ao charme da ruivinha, apesar de todas 
as tcnicas usadas por Deverax para reprimi-lo.
   ? Seria melhor tornar a vestir o meu moletom, mas onde guardo o suter?
   ? Fique com ele. No consigo imaginar que algum v se importar se voc o pegou emprestado. Depois, eu o pego e o devolvo, mas no faz sentido vestir um moletom 
molhado numa noite fria. Pegue-o ? juntamente com sua mochila e ento poderemos ir.
   ? Acho que deixei uma luz acesa l em cima. E tenho que arrumar umas coisas no armrio. Seria melhor lavar aquela janela quebrada.
   Havia uma razo para Gabe sempre andar sozinho. Seus funcionrios eram bons para trabalhar em equipe e, freqentemente, atuavam em duplas, em projetos diferentes. 
No ele. Simplesmente, no gostava de depender dos outros. Gostava de poder se movimentar com facilidade e rapidez.
   O tempo que ela gastou arrumando tudo, ele poderia ter-se deliciado calmamente com um pirulito.
   Gabe a apressou para sair, trancou a porta da frente, e a conduziu at o carro, um Morgan, modelo grande e antigo.
   Quase to bom quanto um homem, foi o que Rebecca pensou.
   ? Que maravilha ? murmurou.
   ? Sim, . Ano 55. Mas foi paparicado como se fosse um bibel ao longo de todos esses anos, dessa forma, a quilometragem  baixa.
   ? Voc ainda consegue peas de reposio?
   ? No  fcil. No somente as peas so difceis de serem encontradas como tambm custam uma fortuna. So poucas as concessionrias que lidam com esse tipo de 
carro antigo.
   ? Mas voc no se importa com isso, no ? O carro vale a pena, apesar de todos os problemas.
   ? Sim. ? Gabe no esperava que Rebecca entendesse. Abriu a porta do carona e observou as pernas longas e finas desaparecerem embaixo do painel. Um pensamento 
irritante tomou conta dele: a ruivinha era perfeita para o carro.
   No conseguia pensar claramente porque no havia dormido. Fechou a porta do carona, e se dirigiu ao outro lado. O motor comeou a funcionar assim que ele virou 
a chave.
   ? Que beb lindo ? murmurou ela.
   O comentrio da senhorita Fortune a respeito dos bebs fez com que Deverax, inevitavelmente, se lembrasse de que Rebecca mencionara algo sobre bancos de esperma. 
Disse a si mesmo para ficar quieto, no tinha nada a ver com aquilo... Mas o comentrio ficou martelando na cabea dele a noite toda.
   Ficou em silncio por alguns minutos. A tempestade passara, mas uma garoa fina ainda caa. A grama e as rvores cintilavam na assombrosa noite,  medida que ele 
deixava a casa, parando para destrancar o porto com um molho de chaves. No havia sinal de vida por quilmetros. No havia luzes, nenhum tipo de som, a no ser 
o farfalhar das rvores e o som daquela mquina.
   Foi fcil achar o carro de Rebecca; no havia nenhum outro veculo na estrada. Ele parou atrs do Ciera vermelho-cereja e a observou. A ruivinha tinha se desmanchado 
em elogios ao carro dele, e, vindo da famlia Fortune, poderia ter comprado uma frota inteira de Morgans se quisesse. Ao invs disso, escolhera um modelo slido, 
confivel, de quatro portas. Um carro famlia com F maisculo ? para uma moa que no escondia o amor nem o desejo em ter um ? e, de alguma forma, ele no podia 
permitir que isso acontecesse.
   ? Voc no est falando srio quando diz que est  procura de bancos de espermas, est?
   ? Claro que sim. ? Enquanto o carro esquentava, ela se abaixou para pegar seus pertences.
   ? Antes, um marido era a forma mais comum para se ter um beb. Ou, ao menos, se escolhia algum para isso.
   ? Normalmente ? concordou, irritada. ? Acredite em mim, no desisti de procurar. Mas ser um membro da famlia Fortune tem algumas desvantagens. Muitos pretendentes 
estavam mais interessados no dinheiro da famlia do que em mim. E ficar em casa escrevendo livros tambm no me d a oportunidade de conhecer homens. No  assim 
to fcil encontrar um cavaleiro branco, ou talvez no seja para eu encontrar. Eu tenho um relgio biolgico que no pra de fazer tique-taque, cada vez mais alto 
e forte.
   ? Aposto que tem sido uma presa para muitos caadores de dotes... Mas voc  jovem.
   ? Tenho idade suficiente. Trinta e trs  uma idade boa, saudvel para se ter uma criana. E, graas a Deus, estamos nos anos noventa. Ningum vai se importar 
se eu decidir ser me solteira.  a hora certa para eu ter um beb. Estou pronta, saudvel, financeiramente preparada para ser me, e morrendo de vontade de ter 
um beb. Ou seis.
   Seis? Gabe no acreditou.
   ? No acha que apelar para bancos de esperma  uma atitude um pouco... drstica?
   ? Acho que casar com o homem errado porque estou morrendo de vontade de ter uma famlia seria uma atitude "drstica". Acredito no amor verdadeiro, querido, e 
no tenho nenhum interesse em casar sem amor. Mas tambm quero uma famlia. Crianas para amar e cuidar. Certamente, seria melhor se tivesse um pai amoroso na foto, 
mas se no h essa possibilidade, no h motivo para eu no tentar de outra forma.
   ? J conversou com sua me a respeito disso?
   ? Kate? ? Rebecca teve vontade de rir. ? Acha que minha me me convenceria a desistir?
   Gabe praguejou. Bancos de esperma, pelo amor de Deus!
   ? Bem, detesto desiludi-lo querido, mas minha me me daria apoio de qualquer forma. Sempre me d. Desde o dia em que nasci, Kate me encorajou a escolher os meus 
prprios caminhos. Sei que ningum acredita que somos parecidas. Ela  decidida, prtica, uma mulher de negcios, uma batalhadora de alto padro. No  por acaso 
que  a cabea do imprio financeiro. No sou assim, Gabe, nunca serei. Mas ela me encorajou a escrever, a viver a minha vida do meu jeito, e me ensinou a nunca 
desistir do que eu queria e acreditava. Confie em mim, minha me nunca me apresentaria nenhum argumento contra.
   Deverax pensava ao contrrio. De alguma forma, estava certo de que Kate gostaria que a filha mais nova casasse, de preferncia, com um rapaz que pudesse proteger 
o beb. Bancos de esperma no se encaixavam nesse cenrio de jeito nenhum.
   O olhar de Rebecca percorreu o rosto de Gabe. Alguma coisa na forma como a senhorita Fortune o observava provocava uma sensao desconfortvel.
   ? Voc no tem um relgio biolgico masculino fazendo tique-taque tambm? No tem vontade de ter um filho, uma filha, uma famlia para quem voltar  noite? Uma 
nova gerao dos Deverax?
   ? No vale a pena dar continuidade  ltima gerao dos Deverax ? disse, rapidamente. ? No tenho essa viso idealista sobre famlia. S funciona nos livros.
   ?  uma viso terrivelmente cnica, querido.
   ? Realista ? explicou, e se inclinou sobre ela para abrir-lhe a porta do carro. Toda essa conversa era uma loucura. J era hora de acabar com isso. ? V para 
casa, cuide desses machucados, durma um pouco. Nem pense naquela carta. Eu cuido de tudo. Fique fora disso a partir de agora, Rebecca.
   ? Qual , hein? Resolveu dar uma de chefe? Quatro horas da manh, e ela ainda tinha energia para distribuir ofensas. 
   ? Olhe, voc apareceu com uma pista. Realmente fez um bom trabalho. Fez mais para ajudar o seu irmo do que o bando de gente envolvido nesse caso fez at agora. 
Mas aquela carta tambm muda as coisas porque coloca outro suspeito em potencial na histria.
   ? Ento?
   ? Ento, se h outro suspeito em potencial, aquela pessoa  tambm um assassino em potencial. E, diabos, baixinha, isso no  brincadeira.
   ? Sim, Gabe.
   ? Mesmo que essa Tammy Diller no tenha nada a ver com o assassinato de Mnica, havia alguma coisa errada. No parece algum com quem voc possa se misturar. 
Fique longe dela. Est me ouvindo?
   ? Sim, querido.
   Rebecca empurrou a porta e se afastou mas, por um momento, colocou a cabea dentro do carro s escuras e o mirou. Sorriu. Um sorriso perturbador, malicioso, que 
no deu certeza a Deverax do quanto ela o estava enganando e do quanto estava sendo sincera.
   De repente, a senhorita Fortune no sorria mais. O olhar de Rebecca brilhava, um olhar estranho, quente, intenso, que acelerava a pulsao de Gabe. Por um momento, 
Deverax teve medo de que a ruivinha o abraasse novamente ? e diabos, o que pulsava era medo e no premonio.
   ? Sei que no acredita nisso ? murmurou ? mas sou bem grandinha e posso cuidar de mim. V voc dormir, Gabe. E, com certeza, no perca seu tempo se preocupando 
comigo.
   No se preocupar? Gabe observou como ela dirigiu-se ao Ciera vermelho ? largou a mochila, pegou-a, quase arrancou um dos dedos do p ao tropear e, finalmente, 
entrou no carro. Deverax no ficou surpreso ao notar que o carro no estava trancado. Rebecca no trancara a porta. Acreditava em amor e em cavaleiros brancos. Acreditava 
plenamente que o bem sempre iria prevalecer e que nada podia machuc-la. E ele no deveria se preocupar com a ruivinha?
   Rebecca estacionou o carro alugado, um Ford Taurus, na nica vaga que conseguiu encontrar em trs quarteires. Prendeu a respirao enquanto espiava pela janela. 
Fazia muito mais calor em Los Angeles do que em Minnesota, onde o vento ainda era frio e cortante naquela manh de maro. Ela ainda no conhecia aquela parte da 
cidade. O sol da tarde cintilava na placa de Randolph Street. Estava na rua certa. No dava para estacionar mais perto do nmero 12.970, mas podia andar algumas 
quadras.
   O bairro, entretanto, deixava a desejar. Jovens de cabeas raspadas e tatuados monopolizavam uma esquina. Crianas de todas as idades brincavam  porta de casa. 
As paredes eram pichadas com um mesmo tema, oferecendo educao sexual livre. Um homem se encontrava esparramado na calada, talvez morto ou totalmente bbado; o 
lixo caa de lates enferrujados e deixava um cheiro desagradvel, e se ela no estava enganada, aquela rua era dominada pela gangue Tigre... a julgar pelos desenhos 
de robustos filhotes de tigres nos bons dos jovens. .
   Deus, voc est muito longe de casa. Engolindo a respirao mais uma vez, Rebecca saiu do carro e o trancou, pensando que j havia escrito aquelas cenas milhes 
de vezes... Mas nunca experimentara uma antes. Passando por todos os inconvenientes da preparao da viagem, desde o vo para L.A. at conseguir mapas e alugar um 
carro, considerou que Gabe provavelmente teria um ataque fulminante se soubesse que ela estava ali.
   Mas Deverax no desconfiava de que ela memorizara o endereo de Tammy Diller antes de lhe entregar a carta...
   Ou que ela se levantaria com o raiar do sol, agilizando tudo para a viagem.
   Um garoto latino, talvez 12 anos?, assoviou quando ela passou. Daria um timo pai, pensou objetivamente. No se referia  criana e sim a Gabe. Era relativamente 
mais confortante se concentrar em Gabe do que ter um ataque cardaco na frente de um rapaz que se encaminhava rapidamente em sua direo,  sua esquerda com uma 
navalha.
   Gabe era paciente, tinha princpios, gostava de proteger. Qualidades importantes que um pai deve ter. Nenhum caador de dotes ? ou nenhum cabea-raspada jamais 
chegaria perto de sua filha. At onde sabia, Deverax no ligava a mnima para dinheiro, no era dominado por ningum com ou sem dinheiro. Ensinaria aos filhos os 
valores corretos. No podia imagin-lo perdendo a pacincia. A nica coisa que o perturbava era... bem... era ela.
   Aquele beijo continuava martelando em sua cabea. Tinha sido um nico beijo, com vontade, quente, sexy. Sempre gostara da idia de ser tragada pelos beijos de 
um homem, mas isso nunca acontecera antes. Claro que grande parte da sua experincia tinha sido beijar sapos ? homens com o pensamento voltado muito mais para o 
dinheiro da famlia Fortune do que para ela ? ou bons rapazes que preferiam um relacionamento tpido. Nada quente. Sem riscos. Sem perigo.
   A malcia deliciosa daquele beijo no tinha nada a ver com o fato de Gabe ter todo o potencial para ser um bom pai... Mas, infelizmente, a atitude dele tinha. 
Nunca dissera por que era contra a instituio da famlia. De fato, no o conhecia o suficiente para que pudessem ter a chance de conversar a respeito desse assunto. 
Mas os sentimentos dele sempre foram muito claros.
   Rebecca desejava saber se Deverax tambm era contra participar do jogo do amor com ela. A senhorita Fortune se perguntava se Gabe, embaixo dos lenis, seria 
to cuidadoso quanto era no trabalho. Queria saber se ele seria quente e a faria se sentir deliciosa, perigosa ? e imoral ? assim como as emoes to fortes que 
despertou nela com alguns poucos beijos.
   Desejava saber se perdera a cabea por estar pensando em sexo com Gabe quando seis sujeitos ? todos vestindo camisetas com o smbolo do Tigre ? vinham lado a 
lado na direo dela. Apesar de estar um pouco longe, Rebecca podia ver os olhares frios, a postura impertinente, as atitudes. Estava na mira do grupo. E todas as 
outras pessoas que, segundos atrs, estavam ali, sem terem nada o que fazer, se dispersavam como folhas levadas pelo vento.
   Provavelmente no foi uma boa idia ter ido ali usando um vestido de seda verde e sapatos de salto, mas no conhecia o bairro. Quem quer que fosse essa Tammy 
Diller, a mulher conhecia Mnica. Rebecca no poderia imaginar que uma pessoa ligada a Mnica, uma mulher que gostava tanto de ostentar, obcecada pela auto-imagem, 
pudesse morar em um bairro to decadente.
   Imaginara que seria uma boa idia vestir-se bem. Agora, desejava estar usando tnis em vez daqueles sapatos de salto alto. E um colete  prova de balas no lugar 
daquele vestido curto e fino. A pulseira destoava do pulso, refletindo o brilho do sol de L.A. e, provavelmente, o cordo de ouro tambm no passava despercebido.
   Os seis sujeitos se aproximavam. Um olhava para o pescoo de Rebecca. Outro olhava para as pernas. Todos os seis pareciam uma parede impenetrvel. Vomitar talvez 
fosse a soluo. No tinha certeza se havia alguma estatstica de que o vmito desencorajava ladres ou assassinos, mas quando ficava muito assustada, vomitava com 
a maior facilidade.
   O mais alto, com cabelo preto espetado, disse alguma coisa a um dos comparsas. O sussurro matreiro parecia ser a respeito dela, e desencadeou uma srie de risos 
em todo o grupo. O estmago de Rebecca ficou embrulhado. Estavam longe dela cerca de dez metros. Cinco. Agora, formavam um semicrculo e no somente uma parede.
   Rebecca engoliu blis. Ergueu a cabea, reuniu toda a coragem que podia e encarou o rapaz mais alto com um sorriso amigo.
   ? Oi ? disse, alegremente. ? Poderia me ajudar?
   Talvez o rapaz nunca tivesse escutado aquelas palavras antes. Talvez nenhum deles, pois todos pareceram, momentaneamente, muito assustados. No pareciam mais 
to perigosos. Ento, o rapaz alto e magro deu um passo  frente.
   ? Pode apostar que eu posso ajudar voc, belezura. ? A voz era baixa e spera, o que fez com que os outros voltassem a rir.
   Se tivesse colocado os sapatos vermelhos, talvez pudesse ter batido com os saltos trs vezes no cho, na esperana de ir embora, s e salva. No iria muito longe 
com aquele jeito de olhar intimidador, mas agora no tinha muito o que fazer.
   ? Bem, que bom. Isso  maravilhoso ? disse, cordialmente. ? Por acaso, conhece uma mulher chamada Tammy Diller? Ela mora aqui no bairro ? abaixando a cabea, 
procurou pelo pedao de papel com o endereo dentro da bolsa ? na rua Randolph, nmero 12.970.  na prxima quadra?
   ? No conheo nenhuma Tammy Diller. Mas certamente gostaria de conhecer voc, belezura. E gostaria de conhecer bem, muito bem. ? O rapaz esticou a mo cheia de 
anis em direo  Rebecca e, com a ponta dos dedos, delineou seu dorso.
   Bem, a coragem sumira. Estava prestes a vomitar em cima dele, e no havia nada que pudesse fazer para evitar.
   De repente, entretanto, ele tirou a mo. O sorriso malicioso desapareceu. Deu um passo para trs. Nenhum deles sorria mais. Todos recuaram.
   Instintivamente, Rebecca se virou. E l estava Gabe, em p, atrs dela, como se tivesse surgido do nada. A expresso, com as sobrancelhas franzidas, era mais 
sombria do que a nuvem de um tornado. De fato, parecia furioso o suficiente para quebrar uma barra de ao em pedacinhos com um simples golpe.
   
   
   Captulo 4
   
   ? Aqueles dois foram embora sem pagar o aluguel do ltimo ms. Devia saber que no podia confiar neles. O namorado ? Wayne, Dwayne, alguma coisa assim ?  boa-pinta, 
mas no  l grandes coisas. Agora, Tammy  do tipo que consegue at convencer um peixe a voar. Sempre muito bem-vestida, olhos bonitos. Gosto de quem tem pouca 
quilometragem. Mas nenhum homem que conheo se incomodaria de rodar um pouco mais com ela. A forma como os dois eram, o jeito de se vestirem, acreditei no que disse 
sobre estarem atravessando uma fase difcil. Esse bairro no parecia combinar com eles.
   Gabe interrompeu o longo monlogo. O proprietrio parecia um gamb ? nariz grande, olhos pequenos e brilhantes ? mas falava mais que um papagaio.
   ? Ento, essa Tammy Diller foi embora sem pagar. E o namorado dela, Dwayne ou Wayne?
   ? No posso lhe dizer o nome dele ao certo. Era ela quem me pagava, em dinheiro, ento, no prestei muita ateno na bagagem que carregava. Entretanto, no gostava 
muito do namorado dela, isso posso dizer. Sorria muito, mostrando os dentes brancos. Se me perguntar, digo para nunca confiar em um homem que sorri assim.
   ? Quando foi a ltima vez que os viu?
   ? Talvez duas semanas atrs. Tomo conta do prdio corretamente, no se preocupe, mas no posso dizer que estou aqui todos os dias. Os inquilinos reclamam de qualquer 
torneira que comece a pingar um pouquinho e do interruptor se voc no consert-los.
   ? Estou certo disso ? respondeu Gabe, consolando o proprietrio. ? Ento, no v os dois h duas semanas... E no acredito que tenha alguma idia para onde teriam 
ido, tem?
   ? Se soubesse para onde foram, iria atrs deles para cobrar o aluguel que me devem. Talvez os vizinhos soubessem de alguma coisa, mas perguntei e ningum sabe 
nada. Claro, o pessoal aqui do bairro no  muito de falar...
   O proprietrio era uma exceo  regra. Enquanto o homem falava o que sabia sobre Tammy Diller, Gabe controlava a impacincia, mas, de repente, isso mudou. Instintivamente, 
estendeu a mo para trs. Esperava encontrar algum. Mas no encontrou nada alm de ar.
   Desligando-se por completo do que o proprietrio dizia, girou a cabea. Um milsimo de segundo antes, Rebecca estivera a seu lado ? e, definitivamente, perto 
o suficiente para que a agarrasse. Agora, tinha indo embora.
   Planejava mat-la quando a encontrasse sozinha ? de preferncia, de uma forma emocionante como, por exemplo, estrangulando-a com as prprias mos. Ningum iria 
machuc-la, contudo, queria ser o primeiro. Isso significava proteg-la enquanto tivesse o privilgio. E, naquele bairro, isso significava manter os olhos nela, 
de preferncia, sob vigilncia constante.
   Gabe se livrou do proprietrio e se dirigiu imediatamente  porta cor de aafro. A porta se fechou atrs dele. Tinha certeza de que a ruivinha no ficaria ali 
dentro, onde estava relativamente segura. Diferentemente dos animais, a senhorita Fortune no tinha instintos de autoproteo.
   L fora estava quente, abafado e no ventava. Parou por dez rpidos segundos  procura de uma ruiva no meio do vaivm dos transeuntes. Era bvio que ela no estaria 
ali no meio daquela multido. Uma garota de programa, vestindo uma saia de couro preta justa, fazia ponto na outra esquina, onde h poucos metros se encontrava um 
traficante. Uma criana magricela passou correndo com uma revista pornogrfica agarrada no peito, quase atropelando Gabe, e um lojista, um senhor de bigode, cheio 
de rugas, corria, gritando atrs dela.
   Quando Gabe chegou de Minnesota naquela tarde ? aps um bom tempo de viagem ? sabia exatamente qual o tipo de rua em que Tammy Diller morava. J esperava encontrar 
tudo o que viu quando saltou do carro ? exceto Rebecca, assustada, cercada por meia dzia de marginais. A repetio da cena em sua mente fez sua presso subir novamente.
   Se a ruivinha voltasse a se meter em confuso, iria mat-la. Droga, seria melhor que no estivesse machucada. Que inferno, onde teria ido?
   Ali. Avistou uma cabea balanando, o cabelo exuberante cintilando fogo no sol que comeava a se pr. O corpo paralisara por alguns segundos... diante de um negro 
de um metro e noventa, musculoso, vestindo uma camiseta, cabelo raspado, uma inicial no couro cabeludo e ombros tatuados. Aparentemente, a ruivinha conversava com 
ele, de boa vontade ? como se estivesse batendo um papo agradvel com um bom garoto.
   Por trs, Gabe podia ver que o rapaz tinha uma faca escondida no bolso traseiro. Quando Rebecca andou, com a droga daqueles sapatos de salto alto, ele teve uma 
viso clara do cabelo desgrenhado, da atadura na testa, do vestido curto e justo e do ouro cintilando no pescoo e nos pulsos. O jovem virou a cabea tambm, e Gabe 
viu a cicatriz no rosto. O rapaz ergueu a mo na direo dela.
   Gabe no tinha tempo para fazer juramentos. E apressou o passo. Havia muitas pessoas perambulando pelas ruas de forma que no podia correr livremente, mas, quando 
desconhecidos viam sua expresso, imediatamente, lhe davam passagem. De vez em quando, perdia de vista a cabeleira avermelhada, mas o negro alto era um ponto de 
referncia fcil de encontrar.
   Deverax tinha a respirao acelerada e o corpo era pura adrenalina quando alcanou o rapaz por trs. A primeira reao foi agarr-lo pelo brao. O Senhor Msculo 
resmungou com um Ei!
   Quando Rebecca o viu, a resposta foi ? Gabe! O que  isso?, com uma voz mais ingnua e doce do que a da personagem Poliana.
   Em menos de trs segundos, Gabe compreendeu que o rapaz no tinha levantado a mo com a inteno de machucar Rebecca, mas de cumpriment-la. Deixou o rapaz ir 
embora e tentou se acalmar. Ela no daria o brao a torcer de que corria perigo mesmo que estivesse nele. Mas, por razes alm de toda a lgica da vida ? e, principalmente, 
nesse bairro ? ela no corria perigo. Explicou que aquele rapaz era Snark e, podia acreditar, ele conhecia Tammy. E mais, escutara que Tammy e o namorado tinham 
ido para Las Vegas para tratarem de "negcios" por l.
   Snark, desconfiado, mirou Gabe ? sabia muito bem o motivo do outro segur-lo pelo brao. Mas no fez nada. Snark ficou quieto. E Gabe ficou mais calmo.
   Logo, o novo amigo de Rebecca marchou, pomposo, rua abaixo, deixando Deverax sozinho com a Senhorita dos Olhos Verdes Cintilantes.
   ? Podemos no t-los alcanado, mas ao menos temos uma pista para onde Tammy foi agora. Conseguiu mais alguma informao?
   ? No ? disse Gabe, secamente.
   ? Bem ? Rebecca estava tentando ser simptica ? s vezes, uma mulher consegue fazer com que as pessoas falem. Foi uma boa idia eu ter vindo, no?
   A senhorita Fortune conseguira uma informao e ele no. Aquelas tcnicas investigativas usadas por Rebecca poderiam t-la matado ? ou pior ? ela nem pensou nisso.
Gabe enganchou o brao por debaixo do cotovelo dela. Da forma como estava vestida, atraa a ateno de qualquer olhar masculino, mesmo que estivesse a trs quarteires
de distncia ? e aquela mulher instigante no parecia perceber isso.
   ? Onde est o seu carro?
   ? A umas duas quadras daqui. ? Rebecca caminhava divagando com a mo esquerda. Gabe percebeu que ela no soltara o brao que continuava entrelaado ao dele, embora,
de repente, tenha ficado corada.
   ? Vou lev-la at l. ? O tom de voz dele a desafiava para uma discusso. ? E, ento, onde est hospedada?
   ? Ainda no me instalei. S deu tempo de arrumar as coisas para a viagem e pegar o vo essa manh. Quando chegasse aqui  que me preocuparia em procurar um motel,
um lugar para ficar.
   Gabe suspeitou que aquela "preocupao" era exagero da parte dela. Poderia coloc-la em um ninho de vboras e, provavelmente, Rebecca no iria se importar. Disse
a si mesmo, pela milsima vez, que ela no tinha culpa de vir de uma famlia intocvel, ser super protegida. Mas era difcil tentar manter aquela idealista raivosa
em segurana.
   ? Sabe andar pela cidade?
   ? Estive aqui em L.A. muitas vezes. ? Parou. ? Embora, no exatamente por aqui. Entretanto, tenho um mapa.
   ? Ok. Vou com voc at o meu carro. Depois, voc me segue, baixinha, at arranjarmos um lugar para passar a noite.
   O Shelton Arms no era um hotel de primeira, Rebecca pensou, mas tinha o conforto necessrio para um homem. O bife trazido pelo servio de quarto era, definitivamente,
enorme. A poltrona era grande o suficiente para uma mulher se enroscar ali e cochilar, e as cores do quarto eram todas em tons de azul.
   Rebecca terminou de comer o bife, a batata assada e a salada, ento, espreitou embaixo da tampa que cobria o prato de Gabe.
   ? Se no quiser a costela principal... ? avisou-o.
   ? Estou indo, estou indo.
   ? Antes mesmo de nos beijarmos?  surpreendente. Gabe deu um suspiro longo e profundo.
   ? Algum j lhe disse que o seu senso de humor  perigoso, ruivinha? E tire as mos da minha comida.
   ? Estava to concentrado que no pensei que percebesse. ? Antes da chegada da refeio, Gabe colocara o laptop em cima da escrivaninha. L se foi a poca dos
detetives, Rebecca pensava. Gabe no tinha que ir a lugar nenhum, at mesmo s pginas amarelas, para se conectar com milhares de sites  procura de informao.
? Bem, descobriu se a nossa querida Tammy usou algum carto de crdito em Las Vegas?
   ? Sim, est l. Todas as cobranas esto no nome dela, nenhuma no nome do namorado, ento, no posso dizer se esto juntos. Pode ser que tenha estourado o crdito
dele. Ou que Tammy tenha viajado sem ele. Tenho uma forte suspeita de que "Tammy Diller"  um nome fictcio, porque as informaes referentes ao crdito so bem
recentes. Um nome falso seria de grande utilidade para que ela se reestruturasse quando acabasse o crdito.
   ? E com um nome falso seria muito mais difcil rastre-la... Mas a partir das cobranas em Las Vegas, conseguiu descobrir onde ela est hospedada?
   ? Sim. ? Mas ele se negou a dizer-lhe onde, somente se levantou da cadeira, se esticou, balanou os ombros antes de se dirigir  bandeja. ? Voc realmente devorou
aquele prato inteiro de comida?
   ? Minha teoria sobre colesterol  que, se vai fazer alguma coisa ruim, deve aproveitar e fazer direito.
   ? No vai conseguir acabar com esse sundae com calda de chocolate quente ? Gabe previa.
   Os olhos de Rebecca danavam.
   ? Ah, Gabe. Realmente, voc no me conhece bem. Querido, nem tornados nem guerras mundiais, ou uma auditoria do Governo Federal, nada ficaria entre mim e o meu
chocolate. ? H tempos tirara os sapatos de salto alto, mas agora enroscou-se recostada na poltrona com o sundae e uma colher.
   Gabe atacou a comida, conquistando a costela principal com o mesmo jeito meticuloso e a mesma eficincia com que fazia todas as outras coisas. Sem tempo para
saborear. Sem tempo para sentir o aroma. A comida era requisito para o funcionamento do corpo. Um trabalho era um trabalho.
   Mesmo enquanto devorava o jantar, Gabe mantinha os olhos em Rebecca. A senhorita Fortune pensava que Deverax deveria estar um pouco receoso de que, a qualquer
momento, ela se pendurasse nos lustres caso ele no a observasse ? mesmo que no tivesse nenhum lustre ali.
   O quarto de Rebecca ficava no final do corredor. L tambm no havia lustres. Gabe a hospedou no mesmo hotel em que estava e no mesmo andar, e sugeriu que jantassem
juntos, pedindo o servio de quarto. Com qualquer outro homem, a ruivinha consideraria a possibilidade dele querer algo alm daquela situao.
   Gabe revirou os olhos enquanto ela colocava mais uma colherada de sundae na boca, e pensava. No. Mesmo que Deverax se lembrasse de que tinham compartilhado um
beijo quente o suficiente para causar combusto espontnea, no deixava transparecer nada. Tratava-a como se fosse uma irm mais nova, irritante ? com catapora.
   Quando terminou de comer, dirigiu-se ao mini-bar ao lado da cama, destrancou-o e retirou uma pequena garrafa de Scotch.
   ? Quer beber alguma coisa?
   ? Adoraria uma taa de vinho, se tiver ? admitiu.
   ? Vinho? Junto de um sundae com cobertura de chocolate quente? ? Ele estremeceu.
   ? Tenho um estmago de ferro. Tem mais, tenho medo de que se eu beber caf, vou ficar muito excitada e no vou conseguir dormir. Mas no tem problema, se no
tem vinho...
   ? Tem sim. ? Vasculhou as guloseimas extravagantes e puxou uma garrafa, grande o suficiente para duas taas de vinho. ? Entretanto, no tenho a menor idia se
 bom.
   ? No importa. Vindo da famlia Fortune, deve pensar que eu sei a diferena entre um vinho de boa safra e um vinho popular. Mas qualquer bebida alcolica me d
sono ? admitiu, irnica. ? Gabe... Voc sabe qual  a relao entre Mnica Malone e essa Tammy?
   ? At agora no encontrei nada. Mnica tinha uma longa histria de ir atrs do que queria, por meios justos ou ilcitos. Ento, ela pode ter qualquer ligao
com essa mulher. Mas tenho questionado se a relao delas no tem alguma coisa a ver com a sua famlia.
   Rebecca piscou.
   ? Voc acha provvel?
   ? Acho que a ameaa constante de Mnica era uma vingana pessoal contra a famlia Fortune. Ela foi obcecada pelo seu pai durante anos, a ponto de seqestrar-lhe
o filho quando viu que no podia ter um filho com ele. Estava por trs do roubo da frmula secreta da juventude. Sabemos que contratou algum para invadir o laboratrio;
sabemos que esteve envolvida na tocaia preparada para Allie. No havia limites para a obsesso neurtica de Mnica e o cime que tinha dos Fortune.
   ? Depois, seu irmo  acusado de assassinato e, de repente, surge o nome dessa mulher... Parece que so muitas coincidncias. Mas at agora no vi ainda nenhuma
ligao. Pelos dados que recolhi na pesquisa ao computador, acho que essa Tammy est acostumada a viver no limite. O nome dela aparece do nada, no h registro de
emprego, no h um endereo fixo e, de alguma forma, ela aparece com repentinos influxos de dinheiro e crdito. Parece que estou lendo o currculo de uma vigarista.
   ? Isso faria sentido. Principalmente, considerando o contedo daquela carta. Alguma coisa fez Mnica sair do srio. Talvez essa Tammy estivesse tentando chantage-la
por algum motivo. E, droga, alguma coisa relativa ao nome dela continua martelando na minha cabea, mas no consigo encaixar as peas.
   ? Bem, deixei uma equipe trabalhando no nome Tammy Diller. O passado dela vir  tona. Sempre vem. Os segredos nunca ficam enterrados, principalmente, se so
sujos. Deve levar somente mais um tempinho para termos outras informaes.
   ? E tempo era justamente o que eles no tinham, Rebecca pensou. Colocou a tigela de sundae vazia na bandeja e voltou a se recostar com a taa de vinho na mo.
   ? Ento... Quando vamos a Las Vegas?
   ? Ns no vamos a lugar nenhum, baixinha.
   ? Ei! No fui eu que encontrei a pista que nos levou at Tammy? No fui eu que descobri que ela agora est em Las Vegas? Oi! Algum notou que eu tenho sido til
at agora? Quanto a mim, amorzinho, posso viajar sozinha. Mas parece uma atitude idiota no nos unirmos quando ambos esto  procura da mesma informao.
   Gabe colocou o usque no copo e bebeu, mantendo o olhar fixo em Rebecca.
   ? Essa Tammy talvez no tenha ficha criminal, mas tudo o que descobri at agora indica que tem tido sorte de no ter sido capturada. Ela no  confivel, ruivinha.
   ? Ah,  isso. Ento, qual  a questo? Tecnicamente, isso  uma boa notcia, ou ao menos uma notcia til. Ela me parece muito mais a grande suspeita no assassinato
de Mnica, mesmo que ainda no tenhamos todas as evidncias.
   ? A questo ? disse Gabe, com a voz de um maestro paciente ?  que eu quero que voc v para casa. Acho que ela significa encrenca. Se houver alguma chance de
ela estar envolvida no assassinato de Mnica, Tammy no vai gostar nem um pouco de algum fazendo perguntas ou averiguando seu passado. O melhor que tem a fazer
 ir para casa e se concentrar no seu trabalho e nos bebs que voc quer ter.
   ? Eu iria... de fato, estaria tentada a fazer isso... se o meu irmo no estivesse preso. ? Calmamente, Rebecca baixou a taa de vinho. Esperara por esse sermo,
nunca imaginou que Gabe a convidasse para jantarem juntos, sozinhos no quarto dele, se ele no se visse obrigado a ter essa conversa em particular. Mais uma vez,
batalhou para tentar lhe explicar seus sentimentos. ? Gabe, fiquei petrificada essa tarde. Assustada com tudo o que vi na Randolph Street. Com medo de Snark e, sim,
estava indo bem, mas no pense que no gostei de quando apareceu. Estava chegando ao meu limite.
   ? Droga, ruivinha,  exatamente isso que venho tentando lhe dizer.
   Rebecca balanou a cabea... e, ento, gentilmente, mas com firmeza, continuou.
   ? Jake  meu irmo. Ele  minha famlia. E no me importo com o que tenho de fazer ou com o que tenho medo. At que o nome dele fique limpo, no h nada nem ningum
que me impea de ajud-lo.
   Gabe escutava, Rebecca pensava. Ele parecia no compreender. Um sentimento estranho tomou conta do corao da jovem Fortune enquanto o analisava. A ruivinha se
preocupava com Deverax, de uma forma que nada tinha a ver com o irmo, nada a ver com as "amizades" estranhas que fizeram ao longo do tempo em que trabalharam juntos.
Antes, claro, nunca tivera a chance de realmente conhec-lo.
   Gabe estava cansado, Rebecca pensou. Aqueles dramticos olhos escuros pareciam assustadoramente sombrios quando ele estava exausto. Era a primeira vez que o via
quase relaxado, esticado em uma cadeira, o cabelo despenteado, o queixo com uma sombra de bigodes. Mesmo extremamente cansado, no perdia o ar altivo. Sem dvida,
maquinava outro argumento para convenc-la a ir embora. A senhorita Fortune tentou outra ttica, desejava, de qualquer forma, saber mais sobre ele.
   ? Gabe, voc no tem irmo? Ou famlia? Algum com quem se preocupe?
   Deverax respondeu, sem problemas.
   ? Tenho famlia. S que cresci num mundo diferente do seu. Vim do lado barra pesada de Nova Orleans. Meus pais brigavam como dois pit bulls. O meu irmo mais
velho enveredou pelo caminho do crime. O outro sumiu de casa assim que pde, e nunca mais voltou. Escapei por causa do servio militar. De tudo que vi na infncia
e na adolescncia, pessoas reivindicando amor conseguem destruir muito mais do que qualquer uma das guerras das quais participei, e eu participei de algumas. Ento,
no. Eu no tenho famlia.  assim que me sinto.
   ? Sinto muito ? disse Rebecca com voz suave. Gabe parecia assustado com a resposta.
   ? No h nada que se lamentar.
   A senhorita Fortune achava que havia sim o que se lamentar. Sempre tocava no assunto sobre bebs, porque era uma forma de irrit-lo. Desde o incio, implicaram
e brigaram por causa do idealismo dela e da forma "mais realista" como Gabe encara a vida. Era engraado provoc-lo por ser to ferrenho... Mas ela no sabia nada
sobre a criao de Deverax. Deve ter sido criado sem amor, com dificuldade e abandonado.
   Rebecca sempre acreditou no amor, na famlia com crianas, e mesmo, at no bom corao da humanidade. Nunca considerou os prprios valores idealistas ou altrustas
mas, simplesmente, a essncia da vida. E no podia deixar de sofrer por Gabe, que tinha sido privado de tudo isso.
   ? Por que est me olhando dessa forma? ? perguntou, intrigado.
   ? Nenhum motivo especial. Estava s me perguntando se voc nunca se apaixonou antes.
   ? Conheci inmeras pessoas para amar, baixinha. S nunca vi a vida com culos cor-de-rosa e jamais fiquei esperando por algum tipo de amor "romntico" que dure
at a morte. A vida me castigou muito. Nunca precisei de iluses para achar que a vida  bela. ? De repente, Gabe ficou carrancudo, como se estivesse confuso com
o rumo que a conversa tinha tomado. ? Vamos voltar ao assunto relacionado  sua volta para casa no prximo vo.
   A senhorita Fortune se levantou. De repente, o longo dia ? e aquele jantar maravilhoso ? comeavam a fazer efeito e ela se sentia sedada. Nas ltimas 48 horas,
s cochilara um pouco, e os ferimentos e o cansao estavam fazendo com que se sentisse exausta.
   ? Agora, Gabe ? disse, suavemente. ? No fique nervoso, mas no vou pegar o primeiro vo amanh. No vou a lugar nenhum. Assim que recostar minha cabea em um
travesseiro, pretendo hibernar pelas prximas 12 horas.
   Deverax tambm se levantou, de forma to suave, que Rebecca suspeitou que ele estivesse assustado de como iria terminar aquela conversa.
   ?  uma boa idia ir dormir. Voc realmente parece exausta.
   ? Por favor, no agento mais tantos elogios. Vo direto para a minha cabea.
   O diabo sorriu, convencido.
   ? No estava insultando voc.
   Rebecca, seca, corrigiu Gabe.
   ? Voc est sempre me insultando.
   ? Bem, voc realmente parece cansada. E acho que a nica coisa que lhe subiu  cabea foi quela meia taa de vinho. Onde colocou os sapatos? Pegou a chave do
quarto?
   ? Esto por aqui em algum lugar. ? Passou os olhos ao redor do quarto, mas acabou procurando o rosto de Gabe em vez dos sapatos. De alguma forma, havia se enganado
ao considerar aqueles olhos negros profundos smbolo de frieza em vez de solido. Gabe acreditava em honra, responsabilidade, obrigao. At mesmo quando estava
cansado, a postura era contida, formal, e to rgida quanto a de um soldado, refletindo os valores que havia encontrado na vida para sustent-lo. Encontrara valores.
S que no sabia se ele havia encontrado o amor.
   Rebecca ia se abaixar para pegar os sapatos quando viu os prprios braos se levantando ao invs de arriarem. Gabe pegara a chave do quarto, que estava em cima
da mesa, para lhe dar. Ele estava perto naquele instante. Perto o suficiente para abraar. E, de repente, o impulso para abra-lo era irresistvel. O corao da
senhorita Fortune procurava mil desculpas. Detestava pensar na forma como Deverax fora criado, preso em um ambiente de tanta raiva, solido e violncia. E mesmo
que a tirasse do srio com a tendncia chauvinista que possua de proteger qualquer mulher, Gabe estivera l com ela nos ltimos dias. E...
   Bem, droga. Nenhuma daquelas pretensas desculpas fazia sentido. Precisava abra-lo. No havia nada mais complicado do que aquilo.
   Dois segundos depois de enroscar os braos ao redor do pescoo dele, o aparelho de ar-condicionado parou de funcionar. A temperatura subiu. No podia haver mais
calor nos trpicos do que a combusto espontnea que surgiu entre eles. No podia ter sido ela a responsvel. No tivera a inteno, tinha sido um abrao impulsivo,
mas inocente. Quando as duas bocas se tocaram, elas se fundiram em uma s, e todos os pensamentos inocentes se espalharam como o vento. Nada inocente podia ser mais
engraado. Ou ento, mais perigoso.
   Rebecca no sabia dizer com preciso como um abrao acabou se tornando um beijo. Definitivamente, no podia explicar o que aconteceu depois. Gabe tinha gosto
semelhante ao daquele usque quente ? no era bom, no era doce, mas concentrado, forte e estonteante. Ela experimentou a fome. Experimentou um homem tentando preveni-la,
a fundo e explicitamente, de que um homem experiente nunca jogava para ganhar nada to sem graa quanto somente um beijo... E ela sabia perfeitamente de que no
deveria provocar o tigre.
   Ela no estava provocando. Talvez devesse ter lembrado da sensao estonteante e perigosa do primeiro abrao, mas esse era diferente. Talvez ningum tivesse beijado
esse tigre h muito tempo ? ao menos no um beijo com carinho e emoo ? porque Gabe parecia explodir. No com rispidez. Mas com uma louca vontade.
   As mos dele percorriam o corpo de Rebecca, agarrando, acariciando, deslizando pelo vestido de seda como se pudesse traz-la para mais perto. Os seios da senhorita
Fortune ficaram imprensados contra o peito de Gabe, se amoldando ao contorno do peito dele. Deverax cheirava a sol quente, a um vento forte natural, e a sabonete,
que limpa qualquer iluso que a jovem tivesse a respeito dos homens. Gabe era diferente de qualquer homem que Rebecca conhecera. Nunca sentira nada igual antes.
   Nunca tinha se sentido submissa, ainda que essa sensao de estar se rendendo no fosse exatamente um ato de submisso. Era como se pertencesse a Gabe, como se
o seu corpo tivesse que se transformar, como se toda a fora que ela valorizava, como mulher, fosse importante... mas no com ele.
   Uma das mos dele subiu e se emaranhou em seu cabelo ruivo. Ela sentiu o gosto da lngua do investigador. O pescoo da jovem comeou a latejar com a presso dos
beijos dele, ainda que a lngua de Gabe fosse como um veludo molhado,  procura de tesouros, segredos, que pudesse encontrar na boca de Rebecca. Em algum lugar,
escutou uma torneira pingando. Em algum lugar, atravs da fenda da cortina, viu as luzes da cidade piscando. Em algum lugar, sentiu o desejo de Gabe despertar, pulsar,
viver, crescer contra o abdmen dela.
   Rebecca no conseguia respirar. Tambm no queria. Isso no estava errado. Por toda a vida, ela sempre deixou a intuio acima dos fatos. Por toda a vida, sempre
acreditou na intuio e nunca errou. Um calor percorria o seu corpo, e o desejo era mais forte do que ela estava preparada para sentir ou compreender, ainda que
o corao, batendo desvairadamente, fizesse a louca promessa de dizer que tudo estava bem, com Gabe, at admitir que no havia problemas em sentir medo.
   As mos de Deverax percorriam o corpo da senhorita Fortune, acariciando, pedindo mais, e conhecendo o corpo dela atravs do tecido de seda, escorregadio, percorrendo
corpo abaixo. Ele tocou seu bumbum, puxou-a para mais perto, a carcia foi mais ntima, mais sexual, sem rodeios, ento...
   Rebecca gemeu. Sem dvida, surpreendendo-se mais do que a ele. O gemido no era uma objeo  rapidez com que o logo se espalhava por essa floresta, deixando-a
sem controle. Mas tinha um machucado horrvel no bumbum devido  queda na casa de Mnica. E quando Deverax a apertou, no teve como se controlar, a resposta foi
automtica.
   Gabe se afastou.
   ? Eu machuquei voc?
   ? No. Quer dizer, sim. Mas no da forma como voc est pensando. ? Eram tantas as sensaes, um redemoinho de emoes, que sequer conseguia dizer alguma coisa
que fizesse sentido. ? Eu estou bem. Voc, sem querer, tocou em um dos meus machucados.
   ? Simplesmente brinquei com o fogo, no foi o machucado. ? E ele a largou com mais rapidez do que se estivesse segurando batatas quentes. A voz rouca, a respirao
forada, e o olhar, era puro fogo. ? Que droga, Rebecca!
   ? Que droga, Gabe ? repetiu ela, mas com a voz suave. Queria faz-lo sorrir. ? Voc  um beijoqueiro, amorzinho. No me culpe por gostar disso.
   ? No estou culpando voc por nada. Nenhum de ns pediu essa qumica. S acho que ns dois sabemos que no  uma boa idia deixar isso ir adiante ou permitir
que isso acontea de novo.
   ? No somos iguais ? murmurou ela.
   ? No temos nada em comum. ? Gabe procurou a chave do quarto novamente e a colocou na mo dela. Depois, forou-a a pegar os sapatos com a outra mo. ? Vou lev-la
para o quarto ? disse ele.
   Deverax a levou at o quarto e a deixou, sem conversa e com um brilho triste no olhar, um brilho de repreenso, avisando-a de que ela no deveria tentar nada
novamente. Uma vez dentro do quarto, ela atirou os sapatos e a chave na cama, depois, se encostou na porta, que j estava fechada, e suspirou profundamente.
   Gabe estava certo em dizer que no tinham nada em comum. As razes dele em ser anti-famlia eram claras agora, mas o fato de compreender o passado no mudava
nada. Ela queria ter bebs. Queria uma famlia. Queria um amor verdadeiro ? ou nada ? e no fazia sentido se envolver com um homem que no tinha os mesmos valores
que ela.
   Rebecca ainda sentia o corpo arrepiado, vivo, acordado, graas aos beijos selvagens, libertinos, de Gabe. A pulsao ainda estava descompassada; ela se sentia
perdida.
   Talvez fosse somente sexo. Talvez ela estivesse to atordoada pelo fato de que nunca tivera um homem que mexesse tanto com ela. E Gabe tinha sido extremamente
honesto. No era o homem certo para se envolver com ela.
   Mas isso no fazia com que esses sentimentos insensatos, cativantes, desaparecessem. E at que o nome do irmo dela fosse limpo, era inevitvel no passar mais
tempo com Gabe. Rebecca no se lembrava de ter se sentido to perdida e insegura. Estava com muito medo de que perdesse o controle com Gabe, a no ser que fosse
muito cuidadosa.


   Captulo 5
   
   Gabe pensava que alguns podiam achar a situao irnica. Queria Rebecca no primeiro vo de volta para casa, em Minnesota e, em vez disso, era ele quem estava 
naquele vo ? sozinho.
   O amanhecer despontava no horizonte quando deixou o aeroporto em Minneapolis-St. Paul, carregando o laptop e uma sacola de viagem, irritado e de mau humor. Nunca 
precisou dormir muito, e o cochilo durante o vo o revigorou. Pensou em acordar Rebecca quando foi arrumar os preparativos da viagem, mas ela estava to cansada 
que Deverax achava que a jovem no iria agentar. A senhorita Fortune estava segura naquele hotel em L.A. Gabe colocara um bilhete embaixo da porta. Ento, ela saberia 
que ele tinha ido embora. Mas no saberia para onde. Definitivamente, isso no era da conta daquela ruiva.
   Entretanto, a me dela tinha tudo a ver com isso.
   Menos de uma hora depois, recuperara o Lexus preto ? de jeito nenhum teria abandonado o antigo Morgan em qualquer estacionamento de aeroporto ? engoliu o caf 
da manh, e estava atravessando o saguo dos escritrios da Cosmticos Fortune. Um guarda da segurana checou a identidade antes de deix-lo ter acesso ao elevador 
privativo ? o que levava aos laboratrios de teste, e ao escritrio particular de Kate Fortune.
   Tecnicamente, Jake Fortune estava pagando os honorrios daquela investigao. E, enquanto estava preso, sem direito  fiana, por causa da acusao de assassinato, 
os cheques estavam sendo assinados por Sterling Foster, um funcionrio da empresa. Gabe esperava conversar com ambos para relatar o que havia apurado at agora. 
E foi o que fez. Mas nunca era simples trabalhar com os Fortune, e Deverax sempre soube quem realmente detinha o poder daquela famlia e dava as cartas.
   Kate Fortune esperava saber tudo que tivesse alguma relao com sua prole. Preferia conversar pessoalmente, com uma certa regularidade, no suportava telefones, 
e se aquilo fosse um aborrecimento inconveniente, pagava generosamente as despesas de forma que tudo fosse feito do jeito que lhe convinha. Gabe teria lhe dado satisfao, 
com ou sem despesas.
   Gostava da matriarca. O primeiro contato com a famlia Fortune tinha sido para investigar a morte de Kate ? o avio dela cara na selva quando um seqestrador 
tentou tomar posse da direo. Um corpo havia sido encontrado e todos achavam que era de Kate, mas ela havia sido jogada para fora dos restos do avio e resgatada 
por uma tribo sul-americana. Quando se recuperou, planejou com calma o retorno a Minneapolis ? a tempo da leitura do testamento. Tivera medo de que o seqestrador 
tentasse mat-la novamente, ou usasse a famlia dela, caso se revelasse a eles. Ento, contatou somente Sterling Foster, o advogado da famlia e um velho amigo. 
Passou os anos seguintes observando a famlia de longe e agindo como casamenteira. Mas de jeito nenhum deixaria o filho mais velho ser acusado de assassinato sem 
estar l para ajud-lo.
   Desde o primeiro encontro, ganhou tanto a admirao quanto o respeito de Gabe. E, apesar de alguns traos de personalidade semelhantes aos da filha, Kate Fortune 
era uma mulher sensata, racional, fcil de lidar, porque um homem sabia exatamente onde era o lugar dele.
   Sem ser uma completa surpresa para Gabe, Kate estava mergulhada em uma fumaceira s sete da manh, e colocou caf em uma xcara antes mesmo de ele se sentar. 
Considerando que era a dona de um imprio de cosmticos, o novo escritrio ? ela no quis que ningum mudasse de sala depois de seu retorno ? era totalmente voltado 
para os negcios, sem nenhum tipo de enfeite. As paredes eram de madeira e o cho coberto por um luxuoso tapete oriental, mas a escrivaninha e os mveis eram um 
disparate. Kate vestia um jaleco igual ao da equipe do laboratrio.
   ? H quanto tempo est acordada e trabalhando? ? perguntou.
   Ela riu.
   ? Isso aqui  brincadeira e no trabalho, Gabe... E estou aqui desde as cinco. Adoro as primeiras horas do dia. Sem telefonemas, sem interrupes. Voc no consegue 
fazer nada de bom durante o horrio comercial. ? Ela apoiou um par de culos de aros dourados no nariz. No perdia tempo nunca. ? Ento, o que tem para mim?
   Gabe a deixou a par de tudo o que fizera ? tanto dos fracassos quanto dos sucessos. Quando lhe entregou a cpia da carta de Mnica a Tammy Diller, viu Kate ficar 
sria. A matriarca no levou muito tempo para ler a carta, mas ele levou bastante tempo para analis-la.
   Rebecca se parecia muito com a me em um ponto. Kate tivera a caula j com idade avanada. Ambas eram geis e magras, com o mesmo porte elegante. Tinham os mesmos 
olhos inesquecveis e o mesmo cabelo avermelhado, brilhoso e suntuoso ? mas Kate tinha traos de personalidade forte, uma mistura de frieza e coragem, e demonstrava 
isso claramente, assim como era uma mulher de negcios sensata.
   Kate certamente usava alguns dos cosmticos famosos da empresa, mas no se maquiava. Mesmo de manh, o rosto tinha algumas linhas ? e ela no as escondia. Kate 
no era sentimental, era forte. Tinha um ar soberbo, autoritrio, mas foi justamente isso que atraiu Gabe desde o incio. Era uma mulher perspicaz e de princpios. 
No desistia de nada por ningum. At onde Gabe sabia, conquistara o direito de ser mandona, e era extremamente irnica, o que particularmente o encantava.
   Gabe no podia ver a me ? o porte, a elegncia, o humor refinado, o temperamento obstinado ? e no pensar em Rebecca. Mas um homem podia conversar com Kate. 
A me era realista, objetiva, no fazia rodeios. Gabe no tinha certeza se a filha podia fazer igual, mesmo que usasse uma lente de aumento.
   Kate terminou de ler a carta, e a devolveu a ele.
   ? Isso no ajuda muito para livrar meu filho da acusao de assassinato. Esperava por mais, Gabe.
   ? Esperava ter mais para a senhora, mas deve haver sujeira para descobrir. ? Nunca tentou enganar Kate. Nunca teve que fazer isso.
   ? Eu sei. ? Ela se encostou na escrivaninha, encarando-o. ? No posso jurar que meu filho  inocente. Disse-lhe isso no incio. Mas quero a verdade. Qualquer 
pista que leve  verdade. No importa o que seja. E diante da iminncia do julgamento, o problema mais assustador  o tempo. Precisamos de respostas agora. A cada 
dia que passa, meu filho corre mais perigo. ? Kate hesitou, olhando para fora da janela por um bom tempo antes de se voltar para Gabe. ? O nome daquela Tammy Diller 
realmente me incomoda.
   ? Sim. Percebi a sua expresso ao ler a carta. Esperava que tivesse reconhecido o nome.
   ? De fato, nunca ouvi falar em Tammy Diller. S me espantei com o fato das iniciais do nome serem as mesmas de Tracey Ducet. ? Kate ergueu a mo em um gesto indefeso. 
Provavelmente, a semelhana  somente casual, uma coincidncia. Sabe-se l. Estou to preocupada como meu filho que me agarro a qualquer coisa. Mas o nome surgiu 
logo em minha mente porque a senhora Ducet comoveu a famlia com um bando de problemas. Depois, desapareceu sem que antes pudssemos faz-la falar claramente. Voc 
conhece a histria?
   ? Sim. Investiguei um pouco a vida de Tracey Ducet quando ela chegou aqui pela primeira vez e afirmou ser a herdeira desaparecida. Mas, uma vez que Tracey no 
conseguiu levar a farsa adiante e no tinha nenhuma prova concreta do que reivindicava, no havia motivo para prestar muita ateno e nunca investiguei a fundo. 
Por que a senhora, ento, no me conta tudo?
   To irrequieta quanto a filha, Kate comeou a andar de um lado para o outro, era muita energia para ficar sentada.
   ? Como voc sabe, constru um imprio, e h sempre sanguessugas e parasitas esperando para viver  custa de dinheiro fcil. Qualquer um que chegue aonde eu cheguei 
tem esse tipo de problema. Tracey Ducet era somente um desses animais peonhentos. Era uma prostituta, uma vigarista. ? Kate hesitou novamente. ? Detesto fazer voc 
perder tempo com isso. No faz sentido eu pensar que poderia haver alguma conexo entre Tammy Diller e Tracey...
   ? E talvez no exista. Mas que tal se contar toda a histria, e ns dois, ento, decidiremos se seria relevante ou no?
   Kate riu.
   ? Voc sabe que eu tive bebs gmeos h alguns anos, e que um deles foi seqestrado. A imprensa noticiou tanto o seqestro que, anos mais tarde, de vez em quando, 
algumas pessoas apareciam dizendo serem as herdeiras. E foi assim que Tracey apareceu. Ela acreditou que podia se fazer passar pela Fortune desaparecida. Sem dvida, 
o que a fez acreditar que poderia ser a gmea desaparecida foi sua aparncia. Ela se parece muito com minha filha Lindsay. Quero dizer, desarme-a e a faa vestir 
roupas decentes, e ela poderia ser a imagem de Lindsay refletida no espelho.
   ? Mas sabia que isso no era possvel? ? perguntou Gabe.
   ? Sem dvida. A questo era que o FBI tinha guardado a informao durante a investigao do seqestro, na esperana de que consegussemos capturar o seqestrador. 
Um dos detalhes que a mdia nunca revelou foi que a criana desaparecida era um menino, Brandon. No havia como ela me enganar. No a mim. O resto da famlia teria 
acreditado nela. Tentamos no falar sobre isso com eles, e sabiam que eu tinha trazido Lindsay para casa, mas at mesmo eles no sabiam sobre ser um menino. Eu no 
conseguia falar nada a respeito. Mas ento Tracey desapareceu antes que qualquer coisa acontecesse. Nunca cobrou nada. No chegou nem a burlar nenhuma lei. Quero 
dizer, ela poderia ter sido uma rf que, inocentemente, viu a foto de Lindsay e realmente pensou que poderia ser a herdeira desaparecida.
   ? Da forma como a descreve, no parece que a senhorita Ducet seja inocente ? disse Gabe, secamente.
   ? Acho que Tracey  uma vigarista ? disse Kate, sem rodeios.
   ? Vou colocar o nome dela no computador e fazer uma busca, mas no quero que tenha esperanas. O que posso dizer, informalmente,  que no me parece que as duas 
mulheres tenham alguma relao com o assassinato de Mnica Malone.
   ? No, tambm no vejo como poderiam.
   Gabe coou o queixo.
   ? Bem, obviamente, se as duas se falavam, ela sabia de alguma coisa. E se descobriu que Mnica estava envolvida naquele seqestro, a senhorita Ducet deve ter 
conseguido arranjar dinheiro fcil de outra forma, por meio de chantagem.
   Kate pareceu animada, mas isso foi s por um momento.
   ? Isso tudo no passa de simples suposio, mas no sei como voc poderia provar. E gostaria de acreditar que isso faz diferena, mas no estou to certa, Gabe. 
Mesmo que a pequena vagabunda estivesse envolvida em chantagem, a menos que consigamos evidncias de que ela teve oportunidade e um motivo para assassinar, no vai 
ajudar a livrar o meu filho da acusao de assassinato. Voc sabe, achei que havia alguma coisa suspeita sobre o desaparecimento dela no ano passado. Lembra quando 
eu "apareci" naquela sesso esprita ano passado? E eu sabia que a polcia tinha uma testemunha que tinha visto algum parecido com Lindsay, mas na excitao de 
ter minha vida de volta e sem uma prova ou conhecimento do paradeiro dela, deixei isso de lado.
   Gabe a encarou.
   ? Por favor, escute. Sei que est preocupada, mas no se esquea de que no temos que provar quem matou Mnica. Temos somente que provar que h outro suspeito 
e que seu filho no  o culpado. E essa Tammy Diller ainda me parece a suspeita mais indicada no momento. Ela encobriu muito bem seu passado, mas ainda temos a carta, 
a conexo com Mnica, e sabemos onde ela est nesse exato momento. De fato, estou de partida para Las Vegas assim que sair daqui. ? Ele hesitou. ? H um outro problema 
que preciso discutir com a senhora.
   Kate balanou a cabea como se estivesse prevendo o que ele ia dizer.
   ? Transporte, claro. Voc vai chegar l mais rpido com o jato da companhia. Deveria ter sugerido isso imediatamente.
   ? No, no  isso. J comprei as passagens. Posso dar conta do meu prprio transporte. Rebecca  o problema sobre o qual quero conversar.
   ? Rebecca? ? Kate fitou-o por cima do aro da armao dourada dos culos. ? Como foi que minha filha veio parar nessa conversa?
   Gabe nunca tivera tato. Uma das melhores partes em lidar com Kate era que ele no precisava ter.
   ? Sua filha mais nova se envolveu com arrombamento, invaso, roubo, conversas com membros de gangues de rua. Dessa forma. ? Ele franziu as sobrancelhas. ? Ela 
se preocupa com o irmo, est sendo leal a ele.
   Kate se aquietou. A senhora Fortune se debruou sobre a escrivaninha e analisou o rosto de Gabe. Alguma coisa naquela fisionomia sisuda e naqueles olhos negros 
despertaram todos os seus instintos maternos. Nesse exato momento, o filho mais velho estava desesperado, com um grande problema, mas isso no significava que ela 
amava menos os outros filhos. Havia muito espao em seu corao. E a filha mais nova, embora ningum nunca tivesse realmente visto isso, era exatamente como ela.
   ? Lealdade  um daqueles traos desagradveis da famlia Fortune, sei disso. E Rebecca sempre levou isso muito a srio.
   ? Levar isso muito a srio no adianta nada. Ela pensa que tem capacidade para conduzir uma investigao. Vamos ao ponto, ela acha que precisa estar envolvida. 
No sei se notou, mas Rebecca  imprudente. E imprevisvel. Gabe deu um pulo da cadeira como se uma abelha o tivesse picado nas costas. ? Imagino que s a senhora 
possa control-la. Diga para ela se afastar do caso.
   ? Oh, querido ? Kate murmurou. Os olhos astutos no deixaram de observar o rosto de Gabe. ? Lamento dizer que nunca tive nenhum controle sobre Rebecca. Alis, 
acho que ningum.
   ? Bem, algum tem que ter. ? Gabe procurou as chaves do carro. Ia embora em um minuto, e as chaves do carro foram um pretexto para cerrar o punho. ? No lhe diria 
onde essa Tammy Diller estava em Las Vegas. Mas tenho medo de que ela pegue um avio e v at l para tentar descobrir. No quero ofender, mas sua filha no tem 
o menor bom senso.
   ? Posso ver que a minha caula tem lhe causado problemas. ? Kate tentou ser solidria. No iria adiantar mostrar que achava graa naquilo tudo. Vinha observando 
Gabe h vrios anos e o vira em diversas situaes crticas antes: como reagia ao perigo, ao estresse,  presso. Nunca nada o irritara tanto. Era muito mais interessante 
reconhecer que a filha mais nova, a mais doce, a mais bondosa de toda a famlia, conseguira provoc-lo.
   ? No h nenhum rapaz legal no momento? Algum que tenha influncia sobre ela? Algum que pudesse, com doura, ser ouvido por ela?
   ? Bem, sinceramente, diversos homens interessantes tm aparecido. Mas ela nunca deixa que se aproximem muito. Tenho me preocupado com isso.  a nica da minha 
prole que ainda no casou. Acredite em mim, adoraria v-la estabelecida, mas ela parece ser...
   Quando Kate ia parar  procura das palavras corretas, Gabe preencheu, com amabilidade, algumas das opes mais bvias.
   ? Exigente? Impossvel? Cabea-dura? Obstinada?
   ? Hum... Posso ver que voc passou algum tempo com ela. Gabe? ? Ela pde v-lo apertando e largando aquelas chaves, e caminhando em direo  porta.
   ? O qu?
   No havia mais nenhum sorriso na voz de Kate ? ou no corao.
   ? No me importa o que tenha que fazer. Proteja-a. No deixe que nada lhe acontea. Conto com voc.
   Excelente, Gabe pensava enquanto o estmago remexia-se durante o passeio de elevador, um ou dois minutos depois. Havia, claro, toda chance de Rebecca no ser 
to tola e medrosa e ir para Las Vegas. Mas ele contava com Kate como aliada e, de alguma forma, ganhou mais uma responsabilidade.
   At agora havia somente uma confuso no quebra-cabea do assassinato de Mnica, mas nada parecia se encaixar. O que a matriarca contou sobre a velha histria 
de Tracey Ducet definira outro inimigo dos Fortune, mas uma famlia com tanto dinheiro, invariavelmente, colecionava inimigos. O problema no qual precisava se concentrar 
era encontrar uma ligao direta entre Tammy Diller e o assassinato de Mnica. A carta, desde o incio, dava a entender que se tratava de uma ameaa, e a dificuldade 
em traar a histria de Tammy s aumentava a suspeita de que a moa tinha alguma coisa a esconder. Tudo parecia problema para Gabe. E onde estava o problema, estava 
o perigo em potencial.
   Manter Rebecca em segurana, longe do perigo, s ia dificultar ainda mais um trabalho que, por si s, j era complicado. Entretanto, com ou sem a ordem da me 
dela, Gabe teria feito isso.
   Fazer com que aquela ruiva ficasse longe dele j era outra coisa totalmente distinta. Quando estavam abraados, a baixinha causou-lhe algo que o deixou sem ao.
   Hormnios eram somente hormnios, mas havia alguma coisa sobre aquela mulher que o fascinava.
   Por outro lado, Gabe no era do tipo que pegava emprestado ou imaginava problemas. A ruivinha podia ser uma idealista enraivecida, mas tinha um pouco de bom senso 
guardado em algum lugar. Se tivesse algum juzo, estaria indo para casa agora, e no permanecido em algum lugar perto de Las Vegas.
   Rebecca mal tinha acabado de sair do avio em Las Vegas quando ouviu o tinir de mquinas de jogos. Passageiros cansados se dirigiam s mquinas, recarregavam 
as energias ao primeiro som do jogo.
   Ela estava tentada a esvaziar a bolsinha de nqueis, cheia de moedas de vinte e cinco centavos, e tentar tambm a sorte naquelas mquinas. O jogo, certamente, 
estava no sangue. Os Fortune sempre apostaram alto nos negcios. A me acreditava que toda a grande recompensa era resultado dos riscos que se corria na vida, e 
que os covardes nunca tinham a chance de vitria.
   De alguma forma, entretanto, quando pensou em jogar, as mquinas e as roletas pareciam perder a importncia se comparadas a Gabe. Aquele homem era um risco terrvel, 
Rebecca refletia. Uma mulher teria que apostar alto s para comear a jogar, e aquelas apostas eram uma incgnita, no dava para saber se haveria recompensa.
   O pensamento ficou confuso. O estmago resmungava, e a cabea latejava de dor. No se penteava havia horas, e vestia um moletom com estampa de urso de pelcia, 
que parecia to amarrotado quanto ela.
   O irmo devia ter prioridade, no Gabe, ningum mais. De uma forma ou de outra, ela planejava encontrar essa Tammy Diler. Mas no antes de comer alguma coisa 
? de preferncia um Big Mac e batatas fritas ? e encontrar algum lugar para se hospedar. Estava de p desde que Gabe deixara o bilhete embaixo da porta no meio da 
noite. Estava bastante chateada para voltar a dormir.
   Deverax foi embora. No era surpresa, e tinha sido muito gentil da parte dele avis-la de que tinha ido embora. Mas, no bilhete, o Neanderthal ordenava que ela 
fosse para casa. Havia um garrancho indecifrvel que dizia alguma coisa sobre estar em segurana. No iria admitir que aquele homem das cavernas, machista, metido 
a protetor, imbecil, colocasse a me contra ela.
   Se Gabe deixasse Kate preocupada, Rebecca teria que mat-lo.
   Enredos baseados em violenta raiva a fizeram reviver alguns momentos. Assim como o taxista que atravessava a cidade. Estudara em Paris, na Frana, na Sua, rodara 
os Estados Unidos com a famlia em diversas viagens de negcios e de frias. Las Vegas, definitivamente, tinha uma personalidade nica ? luzes de non que no paravam 
de piscar, mulheres caminhando nas caladas trajando todo o tipo de roupa, desde vestidos de cetim vermelho at jeans rasgados. Cartazes nos postes de luz faziam 
propaganda de bordis legalizados. Rebecca estava boquiaberta e feliz como qualquer turista.
   ? No tem reservas? ? perguntou o taxista.
   ? No. ? Ela ainda no tinha pensado nisso. ? Tem algum problema?
   ? Para quem quer jogar, gatinha, nada  problema nessa cidade. O taxista tinha parado para comprar um Big Mac para ela. Ora, o dinheiro era dela; ela queria pagar 
para sentar no restaurante. ? Mas seria bom que voc me desse uma dica de um lugar aqui. Quer ficar no centro da cidade, ou em algum lugar perto do comrcio?
   Quando a deixou em Circus Circus, a senhorita Fortune j ficara sabendo que ele era divorciado, tinha dois filhos, o menino mais velho estava com problemas. A 
companheira no era legalizada e estava grvida. O melhor shopping ficava perto, dava para ir andando. No, nunca ouvira falar em Tammy Diller? nem as pessoas gostavam 
de responder perguntas naquela cidade ? mas o primo dele, Harry, a trataria muito bem em seu restaurante. Os dois dividiram tantos problemas durante o tempo em que 
estiveram juntos, que Rebecca lhe deu um abrao, assim como os vinte dlares da corrida.
   Felizmente, Circus Circus tinha um quarto disponvel. Tambm parecia o nico lugar na cidade que aceitava crianas. Possivelmente, no era o melhor lugar para 
encontrar Tammy Diller, mas um lugar com crianas parecia o menos estranho de tudo o que vira at ento. Tirar uma soneca, tomar uma chuveirada e trocar de roupa 
eram as prximas prioridades. Segundo o taxista, a agitao no comeava antes do pr-do-sol. Prostitutas e jogadores raramente saam antes do horrio.
   Rebecca abriu a porta e entrou em um quarto cor-de-rosa, largou a bagagem, se jogou no colcho para testar a cama e dormiu por quatro horas. A soneca a deixou 
revigorada. Pediu ao servio de quarto um copo de leite e um sanduche de creme de amendoim, ento, ela abriu as malas e em seguida, a torneira do chuveiro.
   Hora de se preparar. Na primeira anlise que fez durante o percurso de txi pela cidade, a jovem percebeu que no importava o que as pessoas vestiam; o moletom 
de urso de pelcia cairia bem. Mas pensava em procurar uma vigarista ? chamada senhorita Diller ? o que requisitava um traje mais adequado a esse objetivo.
   No trouxera nenhum vestido de lam dourado. Tambm ela no tinha nenhum. Mas, sendo uma Fortune, poderia colocar alguns diamantes, se quisesse. Lavou, secou, 
passou um creme para no deixar o cabelo to alvoroado, pintou os olhos com o que h de melhor da Cosmticos Fortune, vestiu a meia-cala preta, passou perfume, 
e, depois, terminou o leite e o sanduche de creme de amendoim, observando o vestido que ia usar.
   O vestido era mais preto do que pecado e era a roupa mais imoral que tinha. Ela se vestiu. O vestido de crepe era longo, respeitvel na frente, mas livre nas 
costas. Colocou sapatos de salto alto, jias com um certo brilho, e estava pronta ? exceto pela ltima olhadela crtica no espelho.
   No parecia maquiada como uma mulher da vida, mas era o melhor que ela podia fazer.
   Dois rapazes tentaram lhe fazer uma proposta no elevador, o que confirmou que a aparncia estava de acordo com os objetivos. Mas ela os esqueceu assim que a porta 
do elevador se abriu no primeiro andar.
   Mesmo antes de tentar procurar Tammy, ela imaginou que talvez fosse melhor reconhecer o ambiente. Ento, caminhou, meio sem rumo, durante um tempinho. Havia agitao, 
barulho, ao em todos os cantos, cores vibrantes, luzes enevoando a uma velocidade estonteante. Garonetes circulavam com bebidas grtis. As mquinas de jogo no 
paravam de tilintar e de anunciar vencedores. As mesas de vinte-e-um e de roleta eram um pouco mais elegantes e discretas, mas havia um grande desejo no ar, um desejo 
de vencer, um desejo de arriscar brilhava nos olhos daquelas pessoas ? e, s vezes, desespero tambm. Analisar os jogadores despertava os instintos da escritora 
? quando ela teria outra chance, to  mo, de pesquisar a natureza humana, sempre to fascinante?
   Por acaso, ela se viu no segundo andar. Ao ouvir o barulho de crianas rindo, sem perceber, acabou rumando para l. No pretendia demorar. Mas era to diferente 
da confuso dos adultos no andar de baixo, havia espetculos de circo, ao vivo, para entreter a garotada e brincadeiras carnavalescas.
   Dez minutos mais tarde, a jovem Fortune ganhou um bichinho de pelcia, e o deu a uma garotinha loura que chorava por causa do joelho machucado. Devido  boa pontaria, 
e  palavra dita cada vez que "ganhava", Rebecca atraiu uma pequena audincia. O funcionrio responsvel pelo estande do tiro-ao-pato, provavelmente no deveria 
t-la deixado jogar ? no dava para confundir, ela tinha mais de 18 anos ? mas seu trabalho era manter as crianas entretidas e alegres. Ele no se importou em burlar 
as regras.
   Rebecca acabara de se virar para entregar um unicrnio branco a uma criana de rua, com as roupas sujas e rasgadas, quando percebeu os sapatos. Mocassins. E masculinos, 
grandes, seguidos de calas... Os olhos percorreram rapidamente o pequeno relevo existente na altura do zper... Rastrearam um trax musculoso debaixo de uma camisa 
de linho branco, com os longos braos pacientemente cruzados. Ela engoliu em seco.
   Ento, os olhos da ruivinha e do investigador se encontraram. O corao de Rebecca batia mais acelerado do que quando era criana e tinha medo de encontrar um
jacar embaixo da cama. De fato, Deverax parecia surpreendentemente encantador naquelas roupas, pura vitalidade, uma fora viril, masculina, e muito mais sexy do
que o que seria recomendvel para uma mulher sentir-se em segurana. Mas no havia muito o que perguntar diante da fisionomia dele. Estava irritado.
   As crianas se dispersaram. Se ela fosse baixa o suficiente, poderia ter tentado se misturar  sumir no meio delas. Gabe no disse nada por um minuto, s a observou
da cabea aos ps, desde os cachinhos domados at a bainha do vestido, de onde se podiam ver as pernas finas na meia-cala arrasto. O olhar queimava. Calor. No
dava para disfarar, calor. Mas parecia que o motivo era muito mais fria do que desejo.
   ? Ol ? ela tentou falar, amigavelmente. ? Por acaso, voc estava me procurando?
   ? Deus, no. Sabia que teria o bom senso de pegar um vo para casa, em Minnesota. Sabia que escutaria a razo e entenderia que isso era muito perigoso ? e certo
de que seria contraproducente ? para fingir ser a detetive Nancy Drew. Disse a mim mesmo que no precisava me preocupar com voc. Disse a mim mesmo, sei que aquela
mulher tem juzo e posso contar que ir us-lo.
   ? Agora, Gabe, relaxe. Se gritar comigo em pblico, queridinho, terei que lhe dar um murro no nariz, e isso vai aborrecer as crianas. E eu escutei a razo. A
questo  que voc no racionaliza as coisas da mesma forma que eu. E voc sabe que eu j descobri muitas pistas, coisa que voc no foi capaz de conseguir sozinho.
Ento, j provei que eu posso realmente ser til e ajudar.
   Escolheu a ttica errada, pensou. A fisionomia ficou ainda mais sisuda. Os olhos brilhavam como se fossem carvo quente. Talvez fosse melhor diverti-lo do que
pensar em outra coisa.
   ? Como voc conseguiu me encontrar aqui?
   ? Foi fcil. A maior parte dessa cidade  destinada a adultos. H poucos lugares para algum que , irremediavelmente, apaixonada por crianas. Se voc estivesse
na cidade, teria que estar aqui. Onde esto os sapatos, baixinha?
   ? Sapatos? ? Ela olhou rapidamente para baixo. Os ps inquietos. No se lembrava de ter tirado os sapatos mas, com certeza, aqueles saltos altos acabavam com
a coluna dela. ? Eu... eu no sei. Mas tm que estar por aqui, em algum lugar.
   ? Bem, vamos procurar os sapatos, ruivinha. E depois vamos ter uma boa conversinha.


   Captulo 6

   Gabe queria conversar, pensava Rebecca, mas notou que ele no sugeriu a privacidade de nenhum dos quartos para isso. De forma nenhuma iria arriscar qualquer abrao
essa noite. Com alguma satisfao ? e fascnio ? notou que a evitava assim como faria com qualquer pantera que estivesse solta.
   Tirou os sapatos novamente. No havia motivo para que ela no os tirasse. Duvidava se algum naquela cidade se importaria se ela andava completamente nua ? exceto,
talvez, Gabe ? e os ps doam de andar se balanando em saltos altos.
   No faltavam aglomeraes dentro e ao redor dos cassinos, mas Deverax escolhera um lugar particularmente calmo, e a conduziu a uma mesa escondida no canto. Alguns
nmeros brilhavam no bar mas, por outro lado, tinham sado do meio das incessantes fascas e do brilho. As cadeiras eram ricamente adornadas com recostos aveludados
vermelhos e assentos almofadados. Uma toalha de mesa de linho na cor azul-marinho escondia os ps descalos de Rebecca, e uma vela cintilava no meio da mesa.
   Gabe escolheu uma cerveja, no muito conhecida, e revirou os olhos, surpreso, quando a ruivinha pediu um copo de leite. O senso de humor dele comeava a revigorar.
Falando com franqueza, uma dose de brandy provavelmente iria ajud-la a dormir melhor, mas o leite tambm faria isso. Desde que a afastou das crianas, Deverax estava
com uma expresso taciturna. Depois que o garom os serviu, e ele tomou alguns goles da estranha cerveja escura, parecia inclinado a ser sensato novamente.
   Talvez estivesse sendo um pouco otimista. O investigador comeou a conversa, gentil e meticulosamente, traando um quadro de toda a informao que conseguira
reunir sobre Tammy Diller. Rebecca estava surpresa por Gabe demonstrar estar to aberto e prestativo. Ao menos com ela. Pouco a pouco, entretanto, ela compreendeu
o bvio. Astuto, no queria que a jovem soubesse de nada, listava somente espalhando informao suficiente para convenc-la de que essa Tammy era um problema e que
ela, acostumada a beber leitinho, devia evitar.
   Rebecca balanava uma das pernas, na verdade mais interessada na informao do que na mais nova estratgia de Gabe em convenc-la a ir para casa.
   ? Ento, sabemos, com certeza, de que essa Tammy est usando uma identidade falsa, e j a usou antes. Sabemos que est viajando com um namorado, que tem cerca
de 35 anos, boa aparncia. Sabemos que gosta de ser ntima de grupos que fazem apostas altas, a julgar pelo gosto em acumular contas no carto de crdito nas melhores
lojas e hotis, e podemos convenc-la a assumir que estava em Minneapolis na poca da morte de Mnica, a partir de uma conta de hotel. O que pode no ser um motivo.
Mas, com certeza, demonstra uma oportunidade, se consegussemos descobrir uma evidncia direta. Tambm sabemos que ela no tem nenhum registro de emprego ou de qualquer
fonte de renda para custear o estilo de vida que tanto aprecia. Esqueci de alguma coisa?
   ? Nada.  uma viso geral de tudo.
   ? Droga, Gabe. Estamos to perto. Sei que ela  a assassina da Mnica, sinto isso. E se pudssemos v-la pessoalmente, se tivssemos a chance de conversar, sei
que iramos conseguir encontrar a ligao que ela tem com Mnica... Falando nisso, qual  mesmo o nome do hotel que voc disse que ela est?
   ? No perca tempo me olhando com esse jeito inocente, baixinha. Eu no disse onde ela est, nem vou dizer. S tem um motivo para t-la colocado a par de tudo
isso.
   ? Acredite em mim. Posso imaginar a razo. Queria me convencer a ficar fora de tudo isso novamente. ? Baixou a voz trs oitavos para imitar o tom bartono, resmungo,
de Gabe. ? As cartas no esto todas na senhorita Diller, mas, cada vez mais, minhas desconfianas sobre ela aumentam. E se h a mais remota chance de Tammy estar
envolvida no assassinato de Mnica, no deve gostar de gente estranha fazendo perguntas sobre a vida dela. Isso pode irrit-la. E no  uma boa idia irritar algum
capaz de cometer um assassinato. Eu estaria muito mais segura se voc fosse para casa e preparasse uns biscoitinhos. Aveia com passas, pedacinhos de chocolate...
   ? Pelo jeito, sabe o meu discurso de cor. Exceto pelos biscoitos. Eu no iria me arriscar a fazer um comentrio machista.
   ? Ei, voc estaria em segurana. Eu adoro fazer biscoitos. De fato, vou para casa e fazer exatamente isso, assim que meu irmo estiver fora da priso e livre
da acusao de assassinato. ? Rebecca ficou calada. Desistira de acreditar que Gabe pudesse entend-la. Mas ainda esperava que o investigador aceitasse que ela no
podia ficar de braos cruzados.
   De repente, Gabe limpou a garganta.
   ? Voc tambm pode acabar na priso se continuar se despindo em pblico.
   Ela piscou, sem saber o motivo da mudana de rumo da conversa e, ento, riu.
   ? Agora, no tirei nenhuma roupa, s os sapatos. Ainda. Mas todas essas jias esto me deixando louca. So muito pesadas. E os fechos me incomodam. ? Tirou o
colar e o colocou em cima da pilha de acessrios que estava sobre a mesa ? pulseira, anel, e os brincos. A nica jia que sempre gostara de usar era a pulseira de
pingentes da me.
   As jias cintilavam fogo,  luz de vela, e captaram o brilho da chama nos olhos de Gabe. Ao tirar as jias, ficar sem sapatos, sentar-se sobre uma das pernas...
De repente Rebecca teve conscincia de que, raramente, se comportava como se estivesse acompanhada quando Deverax estava por perto. Desde o comeo, acreditou nele
o suficiente para se sentir  vontade quando ele estivesse perto. J ele reagia de forma contrria. Pobre menino, alisava o rosto novamente como se no soubesse
o que fazer.
   ? Poderia colocar essa tralha dentro da bolsa? Antes que atraia todos os ladres e espertalhes da redondeza?
   ? Eu no trouxe bolsa. E no so os diamantes da famlia, Gabe, somente boas imitaes. Mas pode guard-las no seu bolso, se estiver preocupado.
   Ele, imediatamente, guardou as jias.
   ? Se no tem uma bolsa, onde voc colocou a chave do quarto?
   ? No meu sapato. ? A jovem se esticou para pegar o copo de leite. ? Junto com um pouco de dinheiro. Acho que eu vou manter esse hbito at os noventa anos. Aprendi
a fazer isso quando tinha apenas quatro, sempre guardei dinheiro para poder ligar para casa. Amanh, vou a um daqueles prostbulos.
   O ultimo comentrio de Rebecca fez com que Gabe se engasgasse com o gole da cerveja.
   ? O que foi que voc disse?
   ? No viu todos os cartazes espalhados pela cidade? A prostituio  legalizada aqui.
   ? Eu sei que a prostituio  legalizada aqui. Mas acho que estou com um zumbido nos ouvidos de tanto ouvir essas mquinas de jogos, porque eu acredito que voc
no disse nenhum disparate como ir a um prostbulo.
   ? Sua audio est perfeita, querido. ? Gabe parecia reagir melhor quando ela no lhe dava a chance de pensar sobre nada durante muito tempo. ? Aqui, o que existe
 somente um incrvel potencial de pesquisa para uma escritora de romances policiais. Nunca tive chances de colocar os olhos em um jogador compulsivo, ou em um vigarista.
E, com certeza, nunca tive a oportunidade de ver um prostbulo.
   ? A senhorita est tentando fazer com que eu tenha um ataque do corao ? disse.
   ? S de curiosidade, voc j teve?
   ? Se j tive um ataque do corao?
   ? No, bobinho. J esteve com uma prostituta? ? Ela acenou com uma das mos. ? No me diga que no tem dinheiro para isso. Obviamente, sei disso. Voc  adorvel,
querido. E j  bem crescidinho, no pode imaginar o quanto acharia interessante fazer sexo sem emoo... Est com dor de cabea?
   De repente, parou de alisar a testa.
   ? Estou comeando a ficar. Essa conversa  capaz de deixar qualquer um com enxaqueca. No esperava que essas perguntas viessem de uma pessoa como voc, acostumada
a beber leite. Costuma fazer perguntas aos rapazes sobre a vida sexual deles?
   Sria como uma freira, ergueu as sobrancelhas.
   ? Voc deve ter estudado na mesma escola que o meu pai. Ele sempre disse que uma moa nunca deveria falar sobre sexo, religio ou poltica, mas acho que essa
lio entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Gosto dos trs temas. E sou uma escritora. Como posso aprender alguma coisa se no conversar com as pessoas e fazer
perguntas?  o meu trabalho.
   ? Uma desculpa para ser abelhuda, quer dizer.
   ? Tambm. ? Ela deu um largo sorriso. ? O seu trabalho tambm lhe d uma desculpa para ser abelhudo. Da mesma forma, ento, no atire pedras, pois saiba que o
seu telhado  de vidro. Enquanto isso, voc est fugindo da pergunta. Sei que alguns garotos so persuadidos a passarem a noite com essas moas para perderem a virgindade,
um rito de iniciao, ento, fale.
   ? Um carrapato no seria to implacvel com um co de caa. O que  preciso fazer para que voc mude de assunto?
   ? S uma resposta ? disse, de forma recatada.
   ? Bom. No, nunca estive com uma prostituta, nem para o "rito de iniciao" nem por outro motivo qualquer.
   ? Bem, ento, com quem voc perdeu a virgindade?
   ? Com uma mulher de trinta e trs anos, casada, que me seduziu quando eu tinha apenas quatorze. Agora, est feliz por ter arrancado essa informao de mim?
   ? Deus. Um caso real. ? Rebecca colocou o copo de leite em cima da mesa. ? Isso  abuso infantil.
   ? Isso  assunto morto e enterrado ? corrigiu-a.
   ? Claro que no , Deverax. Ningum nunca esquece a primeira experincia. Se ela for boa ou ruim, ir implicar como mais tarde nos sentiremos em relao ao sexo
opsto, o que pensamos sobre o ato de fazer amor, o que pensamos sobre os nossos relacionamentos.
   ? Ah, Rebecca? No sei qual foi o livro de psicologia que voc leu, mas aquela "relao" que tive no vale nenhum tipo de anlise mais profunda. Ela era fogosa.
No tinha nenhum valor moral. Imaginou que um adolescente teria resistncia. E eu tinha. Quando eu descobri que era casada, terminei. Fim da histria. No acha que
voc j terminou com aquele copo de leite e est pronta para ir para a cama agora?
   ? Em breve. ? A voz dele cheirava a falso desespero, tpico do humor seco de Gabe, pensava Rebecca. Tambm notou que o investigador afrouxara o boto superior
da camisa e esticara as longas pernas. Quando entraram, ele estava a fim de conversar. No importava o quanto estava desgostoso com o bate-papo, aos poucos foi relaxando.
Estava se divertindo. A ruivinha se perguntava se ele tinha conscincia disso. ? Eu s estava fazendo perguntas sem importncia, acredite. A histria sobre essa
mulher e as prostitutas era relevante para nos ajudar a localizar Tammy Diller.
   ? No posso esperar para ouvir qual foi a lgica que usou para chegar a essa concluso ? disse Gabe, irritado.
   Rebecca segurou o queixo com as mos. Nesse assunto, no podia ser mais sria.
   ? Bem... No importa como ou por que Tammy acabou daquela forma, parecia uma vigarista. Algum que vive a custa da prpria esperteza, seno do prprio corpo.
tica e lei no fazem parte da lista de preocupaes. Gosta de correr riscos. Possivelmente, ganhar dinheiro de forma honesta no lhe parece atraente.  mais divertido
e mais desafiador fazer intrigas. E est  procura de um "grande negcio" que lhe d acesso  mina de ouro.
   Gabe balanou a cabea.
   ? Droga, mas como eu poderia saber que iria vir com tudo isso a partir do pouco que lhe contei? Voc ganhou dez pontos por causa da sua bela intuio. E assim
que a vejo, tambm, mas ainda no sei onde voc quer chegar com isso...
   ? S estou tentando imagin-la. Se Tammy est na cidade, como vamos encontr-la? Com quem ela vai sair? Aposto que tentaria encontrar algum homem mulherengo,
rico, para explorar, quer dizer, para conversar. E estou decidida a ir a um prostbulo.
   ? No ? interveio Gabe. ? Voc no vai.
   ? Eu no tenho motivo para pensar que a encontraramos em um lugar como esse, e nada do que voc me diz me faz pensar que ela  prostituta. Mas acho que h um
denominador comum nesse tipo de personalidade, Gabe. No h diferena entre uma mulher que usa o corpo para ganhar o sustento. Tammy tem uma histria semelhante,
ela usa a aparncia como isca. E, droga, isso fica martelando na minha cabea, mas no sei como desvendar por qu...
   ?  provvel que se lembre de algum personagem que criou para algum dos seus livros. Por uma razo ou outra, no acho que, na vida real, ela esteja envolvida
com muitos vigaristas, ruivinha.
   Adorava arras-la dizendo que ela vivia em uma redoma de vidro. Ela no ia brigar com Deverax por causa daquela prostituta agora.
   ? A questo  que encontrar Tammy  um problema, mas saber como lidar com ela  outro. Acredito que se eu tiver a chance de conversar com algumas damas da noite,
vou conseguir compreender isso melhor.
   ? Rebecca, leia meus lbios. Para comear, ningum vai deixar voc ir a um lugar de clientela masculina. Voc  mulher. No  o cliente que procuram. E segundo,
se aproxime de algum desses lugares e vou estrangul-la com as minhas prprias mos.
   ? Gabe?
   ? O que foi?
   ? Sei que  genioso. Tambm tenho certeza de que voc se garantiria no caso de uma briga. Mas, mesmo que fosse louco o suficiente para ficar irritadssimo comigo,
voc nunca encostaria um dedo em mim. ? Ele no gostou de escutar aquela verdade bvia e a encarou com um olhar severo. A ruivinha sorriu... Depois, abaixou a cabea,
procurou os sapatos embaixo da mesa e voltou com os sapatos em uma das mos. ? Um dia desses, vou perguntar de onde vem esse seu jeito protetor, querido. Mas agora
tenho que ir imediatamente para a cama. Estou to cansada que mal posso manter os olhos abertos.
   ? No terminamos nossa conversa.
   ? Eu sei. Quer se encontrar por volta do meio-dia amanh? Aqui mesmo no saguo?
   ? Sim. Pode ser.
   Ela se levantou, incapaz de parar de bocejar. Havia muitas emoes naqueles olhos negros: frustrao ? era isso que provocara em Gabe; alvio ? como se ficasse
exausto por ter de lidar com ela, e o fato da ruivinha estar indo dormir o deixava feliz. Mas tambm havia outra emoo nos olhos dele.
   Foi somente por um instante que o olhar de Gabe percorreu todo o corpo de Rebecca,  luz de velas, os cachos domados, a figura no vestido preto macio, a pele
sedosa brilhando. Nunca vira desejo nos olhos dele como agora. Por bem menos, o investigador mantivera a mesma distncia respeitosa que daria a uma Uzi carregada.
Mas, agora, havia desejo... seguido rapidamente por uma expresso de pavor, enquanto a jovem se levantava da mesa e se inclinava sobre ele.
   ? Boa noite, querido. ? Gabe congelou, ficou mais slido do que uma pedra de gelo, quando ela se abaixou e, num impulso, beijou-lhe a testa. O beijo foi meigo,
rpido, o contato foi mais suave do que a carcia de uma pena, ou at mais rpido do que o estalar de dedos. Ainda assim, o corao dela estava acelerado, batendo
forte. Debaixo daquela pedra de gelo havia um caldeiro fervendo.
   A senhorita Fortune se endireitou, evitando os olhos dele como se pudessem mord-la e, com certa casualidade, balanou os sapatos por cima de um dos ombros.
   ? Tente no se preocupar. Vamos formar uma grande dupla para resolver esse probleminha, querido.
   Rebecca escapou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Em cinco minutos, ela desaparecera dentro do elevador e caminhou pelo corredor abaixo, e s se sentiu
segura quando estava no quarto, de porta trancada.
   Tirou os sapatos, jogou-se na cama e ficou pensativa olhando o teto, um olhar vazio. O rosto do irmo apareceu em sua mente. Jake, aos cinqenta e quatro anos,
era consideravelmente mais velho do que ela, e, a ltima vez que o viu, ele estava atrs das grades. Jake era naturalmente bonito e distinto ? mas no naquele lugar.
Ali, parecia desolado, toda a energia e coragem estavam paralisadas pelo fato de estar preso naquela cela horrvel. Adam, o filho de Jake, confidenciou que no sabia
se o pai sobreviveria se fosse condenado.
   Rebecca tambm no acreditava que o irmo pudesse sobreviver.
   Gabe pensava que ela estava brincando com aquela investigao. Mas no estava. Fazia piadas quando estava com medo. Era somente a forma que ela conhecia de lidar
melhor com toda a situao. A famlia sempre implicou com ela com o rtulo "a intrpida Rebecca", porque ela encarava os problemas de frente, do jeito dela e ningum
nunca a viu com medo de nada.
   Entretanto, ela estava com medo de falhar e no poder ajudar o irmo.
   E, cada vez mais, tinha medo dos sentimentos que aumentavam, confusos, por Gabe. Um simples beijo, no mais do que um gesto de afeto, fizera com que a pulsao
dela ficasse a mil. Ela sempre seguira a intuio. Sempre ouviu o corao, mas at uma intrpida otimista podia reconhecer o perigo quando surgia  sua frente.
   Gabe atraa Rebecca como se fosse uma tempestade em uma noite quente e seca de vero. Ele a tocava, e ela no sentia mais aquela solido rida. Quando estava
com ele, mesmo que fosse s conversando, havia uma certa excitao, uma conexo eltrica. De alguma forma, alm da atrao sexual, ele a fazia lembrar de Jake. Era
um lorde. O que sentia no era carinho fraterno. Mas Deverax parecia que tinha sido capturado em uma armadilha, no muito diferente do irmo. Havia prises e prises,
e o investigador colocara grades entre ele e qualquer esperana de amor.
   Que estupidez, entretanto, pensar que ela podia passar por essas grades. Gabe no queria beijos. Demonstrara isso claramente da ltima vez. Ele era anti-famlia,
anti-bebs, e se o passado era a causa de todos esses sentimentos, isso no significava que Rebecca tivesse o poder de mud-los, ou ento, de mud-lo.
   A ruivinha se sentia to perdida ao tentar ajudar o irmo quanto ao tentar entender o investigador. Os dois, entretanto, podiam ser machucados se ela errasse.
No podia falhar com o irmo.
   Estava morrendo de medo de perder o prprio corao a no ser que guardasse e escondesse, com muito cuidado, os sentimentos por Gabe.

   Gabe caminhava pelo saguo; as moedas, que estavam no bolso, tilintavam. Ento, puxou o brao e viu o relgio novamente. Trs horas. Bem, duas horas e cinqenta
e seis minutos para ser mais preciso. Mas os quatro minutos de diferena eram insignificantes.
   Gabe nunca se apavorava. Podia estar em meio a uma crise, mas sempre mantinha-se tranqilo. Ganhou algumas medalhas nas Foras Especiais porque ele sempre conseguia
manter a calma em qualquer situao.
   No momento, adrenalina suficiente jorrava nas veias a ponto de gerar uma combusto espontnea. Onde estava aquela ruiva terrvel?
   No deveria ter confiado nela para marcar o encontro ao meio-dia. Que inferno, Rebecca poderia j ter se levantado, sado e causado alguma confuso antes do meio-dia.
Ligou para o quarto dela s nove da manh. Ningum atendeu. Ligou de novo s dez, s onze, caminhou pelo saguo ao meio-dia, saiu, voltou  uma da tarde, s duas.
   Impaciente, bateu a porta da frente de novo, e tentou olhar a rua nas duas direes. O sol quente o deixava vesgo. Txis buzinavam, e dezenas de pedestres abarrotavam
as caladas, mas no havia nenhum sinal de uma ruiva de um metro e sessenta e cinco.
   Voltou para o hotel, passou a mo pelo cabelo, depois conferiu as horas novamente. Duas e cinqenta e nove. Trs minutos desde que viu as horas pela ltima vez.
Iria mat-la quando a encontrasse. Se ela estivesse machucada ou com problemas, seria ainda mais cruel.
   A nica coisa que no deixava a presso dele explodir como se fosse um vulco era a certeza de que a ruivinha no poderia ter se envolvido em confuso ? porque
ele fizera isso. Manter Rebecca em segurana era seu trabalho o dia inteiro mas, droga, ele tinha um trabalho srio pelo qual estava sendo pago e que precisava ser
feito. A baixinha no poderia ter localizado Tammy Diller e o namorado ? porque Gabe encontrara o casal.
   Circus Circus teria sido o local ideal para aqueles dois palhaos se hospedarem. Depois de muito procurar, Gabe descobrira o endereo do apartamento miservel
que o casal alugara fora da cidade. Uma vez que localizou o endereo, dirigiu at l, deu uma caminhada pelo bairro, bateu em algumas portas, conversou com os vizinhos.
Sem dvida, a dupla fracassara, morando naquela velha choupana caindo aos pedaos, mas os dois estavam fora temporariamente.
   Podiam esperar, agora que Gabe os encontrara. Rebecca no podia. A ruivinha no podia, ele prometera a si mesmo, a baixinha pensara em ir a qualquer um daqueles
prostbulos. Gostava de provocar. Costumava cham-lo de "queridinho" e "amorzinho" para irrit-lo, sempre tivera enorme prazer em tir-lo do srio.
   S precisava Rebecca chegar para tir-lo do srio, e Gabe no estava pensando em termos metafricos. O vestido que usara a noite passada tentaria at um monge.
Aquelas pernas longas, aquela pele macia, o cabelo com um jeito sexy e selvagem, o olhar travesso e malicioso... A senhorita Fortune era uma prova pela qual ele
tinha que passar, pensou. Era possvel existir alguma mulher que pudesse deix-lo maluco? Que conseguisse destruir toda a imagem de homem controlado que ele construra
ao longo de toda sua vida adulta?
   Deverax observava cada pessoa que passava pelo saguo, passou a mo pelo cabelo novamente, e foi em direo s cabines telefnicas. Ligaria para o quarto dela
de novo. Se no atendesse dessa vez, ele no saberia o que fazer. Comearia a ligar para os hospitais, para a polcia, para os fuzileiros navais ? ou para a me
dela ? e como nenhum deles seria capaz de controlar aquela mulher impossvel...
   Acabara de tirar o fone do gancho quando viu um borro colorido passar por ele.
   Primeiro, reconheceu o bumbum. No havia muitas mulheres por ali com um daqueles. Somente ela. Mesmo de olhos vendados, Gabe seria capaz de reconhecer aquele
bumbum minsculo, vigoroso. Desligou o telefone. O medo que sentira comeou a diminuir aos poucos.
   Rebecca caminhava pelo saguo, com tanta rapidez, que teria sido mais fcil deter uma bala a toda velocidade. Mesmo assim, ele conseguiu perceber a camiseta com
a estampa do Mickey Mouse, tamanho grande, as calas jeans justas, os tnis com cadaros na cor verde fluorescente, e tiras douradas brilhando nos pulsos. O cabelo
era um emaranhado s, com toda certeza no havia sido penteado hoje. Como a ruivinha passou por ele como um foguete, se no a tivesse reconhecido, poderia confundi-la
com uma garota de doze anos.
   Gabe no somente a conhecia. Ele j tinha tido a chance de toc-la. Rebecca significava tanto problema, que ela conseguia ser pior do que a personagem Lorelei
tinha sido para os marinheiros, naquela velha lenda. No dava para dizer o motivo de estar vestida assim, mas trazia, definitivamente, um pouco de vida quele saguo,
que parecia to plido at sua chegada. Uma sensao de alvio percorreu todo o corpo, ele estava feliz.
   Graas a Deus, a baixinha estava viva... Agora, ento, podia mat-la.
   ? Gabe! ? Finalmente, Rebecca o viu. Passando entre os hspedes e as malas, foi na direo dele. O sorriso brilhava mais do que a luz do sol. ? Adivinhe!
   A jovem no percebeu que ele queria? mal podia esperar ? esfregar-lhe o rosto no cho. A terrvel ruiva estava to feliz, que o abraou.

   Captulo 7

   - Voc est atrasada. ? Gabe certamente queria gritar de raiva, mas alguma coisa aconteceu com sua voz. Naquele instante, abraado a Rebecca, ele podia senti-la
bem perto. O cabelo dela cheirava a morangos frescos, os lbios estavam semi-abertos, e a pele macia como a de um beb e, de repente, o investigador ficou com a
garganta totalmente seca.
   Sabia que aquele abrao era simplesmente um gesto de afeto, um impulso. Isso era tpico de Rebecca. Ela nunca controlava as emoes. Acreditava plenamente na
vida ? talvez por ser de uma famlia abastada, criada sempre no conforto ? ainda assim aquele abrao de alguma forma mexera com ele, mais do que o beijo ardente
e apimentado. Ele no estava acostumado a demonstraes de carinho. No esperava, no pedia isso a ningum. E droga, ele nunca imaginara que sentia falta dessa coisa
boba, estpida e inconseqente que era o afeto. At conhec-la.
   ? Sei que estou atrasada. E realmente sinto muito. No pude evitar. ? Os olhos deles se encontraram e o corao batia forte, no mais do que um segundo. Devagar,
os braos dela comearam a se desprender do pescoo de Gabe e, de repente, a baixinha comeou a contar-lhe. ? Estava em uma das salas de pquer, l atrs, Gabe.
Grandes jogadas, muito dinheiro, uau, gente impiedosa, mas no era assim to fcil pagar e ir embora. Sabia o quanto estava ficando atrasada, mas  falta de educao
ir embora quando se est ganhando. Podia ter dado um jeito nisso descartando algumas partidas. Mas a questo era que eu estava aprendendo tantas coisas.
   ? Voc estava l atrs em uma das salas de pquer? ? perguntou novamente porque poderia ter ouvido mal. Esperava que tivesse se enganado.
   ? Sim. De fato, foi por isso que usei minha camiseta do Mickey Mouse. ? Mostrou, sorrindo, as grandes orelhas estampadas no peito. ? Achei que eles fossem me
dar um pirulito, sabe? Vamos ao que interessa, algum com quem eles no tivessem que se preocupar, e pudessem confiar e conversar. De qualquer modo... Sabe o que
descobri?! Esperava que Tammy pudesse estar perambulando por alguma das mesas, e ela esteve, Gabe! Um dos homens a conheceu, me disse vrias coisas sobre ela, e
sobre o namorado dela tambm. Estou sentindo falta de acar no organismo. Ser que tem algum lugar nessa cidade onde possamos tomar um sorvete de casquinha?
   No queria sorvete. Queria iogurte, o mais saudvel, o mais sofisticado. De preferncia, com sabor de framboesa. Custou um pouco para achar. Como estava cansada
de estar sentada, preferiu comer o iogurte andando. Estava muito quente l fora, o sol brilhava a ponto de cegar, e o iogurte estava quase pingando e derretendo
em cima dela. Andava em zigue-zague por entre os pedestres, saboreando a casquinha de framboesa, excitada com todas as novidades que tinha descoberto.
   ? Tammy tem andado pelo Caesar's Palace, e tambm por um lugar chamado O'Henry's. Especialmente esse O'Henry's. No estou falando das mesas da frente, com jogos
a dois dlares, mas das altas jogadas nas mesas dos fundos. E, Gabe... No acredito nisso, o homem provavelmente s estava falando, mas agia como se tivesse dormido
com ela.
   ? Ih, baixinha, no acho que Tammy tenha lido algum livro sobre moral e bons costumes. ? Ele pegou um outro guardanapo do bolso das calas. A ruivinha levantou
o queixo de forma que ele pudesse limp-la. Ainda bem que trouxera muitos guardanapos.
   ? Voc no entende. Ela estava com o namorado. E esse homem. Quero dizer... os dois. Ao menos era isso que ele estava querendo dizer.
   Talvez, Gabe pensou, o fascnio que sentia por ela era logicamente compreensvel. Ele nunca havia encontrado uma mulher que usasse diamantes e bebesse leite.
Ou falasse sobre uma relao amorosa a trs, enquanto saboreava um sorvete de casquinha.
   ? Como foi ? disse, com cuidado ? que esse cara comeou a falar sobre a vida sexual dele com voc?
   ? Ele no comeou a falar sobre sexo. Estvamos jogando pquer, pelo amor de Deus. A, eu comentei que procurava uma velha amiga de escola chamada Tammy Diller...
E, imediatamente, ele ergueu os olhos e, de repente, estava contando vantagens diante dos outros homens da mesa, relatando a histria dele. De fato, no disse as
palavras; era tudo dito por meio de insinuaes nojentas. Um verdadeiro idiota, Gabe. Como disse, eu no acredito naquela parte que ele contou; mas tambm ele a
descreveu. Cabelo castanho-escuro, olhos castanhos, altura mediana, magra... Quase ri, parece com quase metade das mulheres de minha famlia. Ele estava indo mais
adiante, descrevendo alguns atributos fsicos constrangedores.
   No d para acreditar, ela o encontrou! E eu no posso acreditar que uma mulher pudesse faz-lo.
   Gabe pressentia que ela pretendia se estender sobre a cena do namoro a trs. Pior, parecia querer dividir com ele cada detalhe. Disposto a mudar o rumo da conversa,
a interrompeu com a informao que conseguira a respeito do casal de namorados que vinham procurando ? desde o nome do namorado de Tammy, Dwayne, at o local em
que estavam e onde a senhorita Diller fazia compras com carto de crdito.
   A informao desviava o pensamento de Rebecca, que deixava de pensar em sexo. Mas isso no exatamente o salvou da perseguio dela com mais assuntos problemticos.
   ? Droga, podia jurar que j ouvi o nome Dwayne antes. Alguma coisa fica martelando na minha cabea. De alguma forma, eu acho que conheo essa mulher.
   ? Ah.  essa sua infame intuio feminina que voltou a atacar?
   Ela terminou de comer a casquinha e lambeu os dedos com um enorme sorriso.
   ? Voc fica fazendo pouco caso da minha intuio,  um ctico, mas no tem sido somente a sua lgica que nos tem feito ir adiante. Eu no lhe disse que iria funcionar?
Conseguimos a informao de duas formas, por dois ngulos inteiramente diferentes. Pode dizer, somos uma dupla imbatvel, no ?! E o que voc acha? Devemos dar
uma passada nesse O'Henry's hoje  noite?
   Gabe escutou o ensaio de Rebecca, menos a filosofia de que "somos uma boa dupla". Se no tivesse escapado antes de lhe dar uma chance, teria ouvido a filosofia
dele "s por cima do meu cadver". Agora, entretanto, hesitava.
   Era muito difcil negar ? apesar de irritante ? que Rebecca estava dando o mximo de si para que a investigao fosse adiante.  claro que ela teve sorte de encontrar
a carta de Tammy/Mnica. E sorte de conhecer um homem que sabia muito bem quem era Tammy. Ela era intuitiva e perceptiva, Gabe estava disposto a admitir, mas quanto
a ele, trabalhar em equipe estava fora de cogitao. Trabalhava sozinho. Sempre tinha sido assim. Era mais seguro, mais rpido, mais eficiente. E devido ao seu carter,
nada justificaria deixar a ruivinha correr qualquer tipo de perigo.
   Infelizmente, chegava  dolorosa e irritante concluso de que a idealista senhorita Rebecca Fortune era uma ameaa a si mesma. Quase se matou ao invadir a casa
de Mnica. Atravessou, cegamente, o pas ? por duas vezes, incluindo essa ? sem pensar nas conseqncias. E as pessoas que escolhia para conversar ? o brutamontes
da gangue em Los Angeles; o cretino contando vantagens sobre a relao a trs que encontrou na sala do jogo de pquer ? eram suficientes para dar a Gabe uma boa
amostra do que podia acontecer se mexesse em uma casa de marimbondos.
   Nunca esteve predisposto a aturar marimbondos. Tambm nunca encontrara antes uma mulher que beijasse o Pimentinha, j adulto, como se fosse algum da famlia.
   ? Gabe, voc me ouviu? Voc no acha que seria uma boa idia irmos ao O'Henry's hoje  noite? ? perguntou novamente.
   Obviamente, ela estava muito impaciente para uma resposta e no podia lhe dar cinco segundos para pensar a respeito. De qualquer forma, pensar no ia ajudar a
evitar esse problema. No havia boas respostas em se tratando de Rebecca ? exceto de que ela estava mais segura se estivesse sendo vigiada por ele do que se estivesse
longe.
   ? Por mim est bem ? disse. ? Vamos dar um pulo no Caesar's. Vamos dar um pulo no O'Henry's. Vamos percorrer todos os lugares tradicionalmente associados a grandes
jogadas. Entretanto, antes, quero estabelecer algumas regras bsicas com voc, baixinha.
   ? Claro.
   ? Voc fica perto de mim. Nada de andar por a sozinha.
   ? Ok ? concordou.
   ? Nosso objetivo  localiz-la. Ver o que ela est tentando planejar. A, ento, decidiremos como chegar at ela, no antes.
   ? Faz sentido ? concordou Rebecca.
   ? E, digamos que ns a encontremos, no quero que ela saiba que voc  da famlia Fortune. No quero que saiba de seu envolvimento com Jake, ou com Mnica. Vai
ficar quietinha, no vai puxar conversa com ela nem qualquer outro desconhecido. E se a encontrarmos,  isso: quero voc fora.
   Rebecca o olhou de modo furioso. Gabe se preparou para ouvir uma contra-argumentao. Ficou nervoso quando a baixinha ergueu a mo e, como se tivesse obrigao,
ajeitou delicadamente o colarinho da camisa dele.
   ? Voc tem que parar de se preocupar comigo ? disse ela, gentilmente. ? Vivo por minha conta h um bom tempo. Posso cuidar de mim, Gabe.
   Ela achava que podia. Gabe pensou que qualquer comentrio que ele fizesse iria parecer machista e ganharia um discurso feminista. Mas no era sua fora como mulher,
sua inteligncia, que o preocupava, ou que o chateava. Mas sim o fato de ela confiar plenamente no amor. Acreditava em cavaleiros brancos, em que o correto sempre
prevalece, em que nada poderia machuc-la. Como sempre ela estivera protegida pelo imprio da famlia Fortune, o investigador no a culpava por tanta inocncia.
Ela simplesmente nunca tinha sido exposta ao lado cruel da vida.
   Mas tanto idealismo a deixava completamente vulnervel.
   Um estranho pensamento povoou sua mente. Ele no queria mud-la. Queria que ela ficasse livre para acreditar em todas aquelas "baboseiras", para ser exatamente
quem ela era. Mas proteg-la era algo difcil.
   Sentia uma faca cortando a garganta s em pensar que alguma coisa poderia acontecer  ruivinha. Uma faca afiada, com uma lmina pontiaguda.
   At aquele momento, pensara que quaisquer sentimentos incontrolveis que ele tivesse por Rebecca eram causados por hormnios.
   Deveriam ser assim.
   Se havia uma mulher na face da terra por quem ele no tinha o direito de sentir algum tipo de carinho, essa mulher era ela.

   ? Bem, mas que droga! Estou com vontade de chutar uma parede, de arremessar uma pea de porcelana de valor incalculvel, de dar um murro no nariz de algum.
   ? Longe de mim interromper o chilique de uma moa, mas acha que pode parar e pegar a chave do quarto?
   Ignorando o irreprimvel humor nos olhos de Gabe, Rebecca colocou a chave do quarto nas mos dele.
   ? Estou frustrada, Deverax.
   ? Est falando srio?
   ? Entre e tome um drinque comigo, e no fique to irritado. Prometo, logo vai ficar bem. Voc nunca perde? Deixe a emoo extravasar, solte tudo o que est preso
a dentro. No me diga que est pronto para dormir. Voc est to acordado quanto eu. E no precisa ter medo, no ia lhe servir leite. Viajo com uma garrafa trmica.
No me lembro se coloquei Scotch ou outra coisa, mas posso garantir que  algo mais letal do que lactose.
   Algo ainda fazia com que hesitasse, mas, droga, j passara da soleira da porta e estava prestes a tirar a chave da fechadura. Rebecca fechou a porta e o conduziu
 mesa e s cadeiras empilhadas em um canto e, depois disso, Deverax teve o bom senso de ficar fora do caminho dela.
   A ruivinha tirou os sapatos, atirou a bolsa em cima da cama, buscou dois copos no banheiro e vasculhou a mala. Achou, ento, a garrafa trmica. Depois, um pacote
grande de balas, uma lata de cereais, e um quilo de chocolate M&M's. Todos os itens voaram na direo do investigador.
   Gabe pegou as guloseimas, mas a baixinha percebeu a risada quando ele sentou na cadeira e esticou as pernas.
   ? Voc sempre carrega um suprimento particular de comida?
   ? Sempre. Uma mulher precisa de sustncia de vez em quando. No d para ficar s com comida de restaurante... Droga, estvamos somente a um passo daqueles piadistas.
Se tivssemos chegado cinco segundos antes, poderamos t-los encontrado. Pelo amor de Deus, tinha que ser um milagre no darmos de cara com eles.
   ? Ao menos temos a certeza de que esto aqui. E que no fazem questo de se esconder, esto agindo s claras.
   ? Mas estar to perto e continuar sem eles... Como consegue no ficar to irritado?
   ? Porque acho melhor que a senhorita Diller no a veja, baixinha. Aprendemos muito hoje  noite. Mais do que o suficiente para fazer com que as coisas aconteam,
e vamos aprender mais ainda amanh.
   Bem, eles tinham aprendido um bocado. Rebecca se jogou na outra cadeira, ficando completamente sem postura, colocando os ps, com meias, em cima da cama cruzando-os.
No ajudou. Podia sentar-se direito, mas no dava para deixar de pensar, a cabea estava a mil por hora. Jias brilhavam no bolso das calas de Gabe ? as jias que
ele no lembrara de devolver na noite anterior. A senhorita Fortune tambm as tinha esquecido.
   Olhou para baixo, pensando que o curto vestido preto que estava usando poderia t-la deixado mais atraente. Mais cedo, Gabe olhara e tivera um pequeno ataque
do corao ao v-la, no saguo, usando nada mais do que uma combinao.
   Claro que no era uma combinao. Era um tipo de tecido fino, caro, que cobria at a metade das coxas. No dava para usar suti, mas tambm no dava para escolher.
S tivera alguns minutos para ir a uma loja naquela tarde ? quem iria imaginar que precisaria de tantas roupas chiques para aquela viagem? Teve sorte de encontrar
alguma coisa que lhe servisse.
   A pulseira de pingentes, seu talism, tilintava enquanto ela espalhava alguns chocolates M&M's e, automaticamente, comeou a escolh-los de acordo com as cores.
Tammy Diller, conforme o que ouviram, tambm andara por l sem suti. E era famosa pela cor que usava. Vestido vermelho. Fendas na frente e atrs. Exibindo tudo
o que era permitido e algumas amostras do que no era ? aos homens certos. Todo o programa consistia em um sotaque de Nova Orleans, uma boca pintada de vermelho,
um cabelo louro sedutor.
   Rebecca achava que Tammy deveria parecer uma enguia. E o escudeiro, o companheiro Dwayne, fora visto trajando um smoking. Era louro, magro, com um charme de menino
? especialmente quando se aproximava, sorrateiramente, para dar o golpe em ricas senhoras. Os dois vigaristas se vestiram para arrasar, e foravam a venda de um
esquema imobilirio a quem lhes dava ateno.
   Tinham dinheiro suficiente para participar de algumas partidas de vinte-e-um, mas no jogavam muito tempo em nenhum lugar. Os dois eram espertos demais para apostarem
o capital que tinham. Isso era s o oramento para propaganda. Mas aqueles danados estiveram nos mesmos lugares pelos quais ela e Gabe passaram. Todos os lugares.
Nunca se encontraram por questo de minutos, Tammy e Dwayne saam sempre um pouco antes.
   ? Voc no ajudou muito ficando sempre ao meu lado ? Gabe mencionou.
   ? Bem, claro que no ajudei. Nunca seria bom ficarmos juntos como se estivssemos ligados por um cordo umbilical. Desconhecidos iam sempre lhe dizer coisas totalmente
diferentes do que me diriam. ? Ela encheu a mo com chocolates M&M's, na cor verde, antes que Gabe fizesse alguma coisa. ? Achei que aquela loura no Caesar's fosse
derrub-lo no cho. Voc demonstrou uma sobriedade notvel, Deverax. Ela era adorvel.
   Mas ningum, Rebecca pensava, tinha sido adorvel tanto quanto Gabe, em todos os lugares que foram. Ele dominava todas as salas em que entravam. Tinha se livrado
do palet do smoking, afrouxado os botes da camisa de linho com pregas, e o queixo agora refletia a sombra da barba de um pirata. No importava. O tecido branco
contrastava com a pele corada, o corpo esguio era um grito de virilidade tanto dentro quanto fora das roupas elegantes, e aqueles olhos escuros, profundos, melanclicos
tinham malcia suficiente para enlouquecer qualquer mulher. Uma loucura saudvel. Uma loucura deliciosa.
   Aqueles olhos negros pareciam estar cravados nela agora.
   ? Finalmente, voc comeou a se acalmar um pouco?
   ? S porque so duas da manh? No. ? Esfregou as tmporas com dois dedos. ? Preciso ajudar meu irmo, Gabe. A data do julgamento est se aproximando mais rpido
do que um tornado. No vai adiantar nada achar respostas em julho. Eu preciso delas agora. Eu o quero fora daquele lugar, e com o nome limpo.
   ? Agora, relaxe e me escute. ? Gabe abriu a garrafa, cheirou, colocou trs dedos da bebida no copo dela e um dedo no prprio copo. ? Tenho uma equipe no escritrio,
procurando pistas, correndo atrs de dezenas de fontes de informao. Outros fatos podem surgir a qualquer momento para ajudar o seu irmo. Kate me deu outro nome
para investigar, e Deus sabe que Mnica colecionou muitos inimigos ao longo da vida. Me dediquei a Tammy porque, no momento, ela parece ser a nossa melhor aposta.
No temos que saber se ela matou Mnica, baixinha, e tambm no precisamos provar isso. Tudo o que precisamos  de evidncias que apontem para ela como um segundo
suspeito. Se conseguirmos relacionar Tammy a algum problema com Mnica na poca do assassinato, qualquer relao que parea um motivo, isso vai levantar suspeitas
na mente dos jurados. E vai ser o suficiente para tirar Jake de l.
   ? Bem, isso no  suficiente. No para mim. Ele no a matou, Gabe. Quero ver quem fez isso pendurado em uma grande corda. Meu irmo precisa ser capaz de erguer
a cabea. Odeio me sentir incapaz, no poder fazer nada.
   ? Rebecca, voc o est ajudando. ? Gabe diminuiu o tom de voz. ? Aprendemos essa noite tudo o que precisvamos saber sobre aquela dupla. Teria sido bom v-los
de relance, mas no ia adiantar muito.O nosso objetivo era descobrir as intenes deles, e ns conseguimos isso. Saber sobre o esquema imobilirio me deu a informao
que precisava para planejar como me aproximar, como conduzir a conversa. Ento, no julgue mal o progresso que fizemos essa noite.
   Ela tomou um gole do Scotch, um gosto ruim, se  que aquilo tinha gosto, ainda sentia a lngua tremendo, o lquido descendo e esquentando a garganta. O nervosismo
se dissipava. O desespero tambm desaparecia. A ansiedade e a necessidade de ajudar o irmo no tinham sequer diminudo... Mas, de alguma forma, estar com Gabe lhe
dava alguma perspectiva. Gabe podia no acreditar na inocncia de Jake, mas nenhum tornado ou terremoto o impediria de fazer seu trabalho. Ele era meticuloso, implacvel
e, graas a Deus, mais teimoso do que uma mula.
   ? Quer saber do que mais? ? murmurou ela. ? N realmente fizemos juntos um bom trabalho essa noite.
   ? Sim. ? Concordou. Mas a ruivinha podia ver o olhar cauteloso de Gabe. Obviamente, na tentativa de mudar assunto, ele deu uma olhada pelo quarto do hotel, passando
pela colcha rosa, pelo smbolo impresso sobre a cama. ? Voc no est em um quarto ruim, mas acredito que o seu quarto em casa seja muito diferente deste aqui.
   ? Vou lhe contar. ? Uma vez que parecia disposto a escutar, ela despejou uma descrio fortuita do prprio quarto. -Meu escritrio  uma confuso de livros. Tenho
um urso de pelcia Abe Lincoln perto do computador. Sempre amei Abe... O ex-presidente Abraham Lincoln perdia sempre, mas nada o impedia de continuar tentando. Vasculhei
o sto da casa de minha me  procura de mveis; antiguidades e outras coisas que ningum mais queria. Nada combina com nada. Mas eu gosto assim mesmo. Voc passaria
mal no banheiro. Tem tudo a ver com a famlia Fortune, eu pego as primeiras amostras de todos os cosmticos ou fragrncias que estamos experimentando. Aposto que
voc iria achar tudo repugnante; provavelmente, voc ficaria louco com toda a baguna ? disse ela com uma certa ironia. ? Embora eu tenha um quarto extra, que daria
um belo quarto de criana.
   Gabe evitava qualquer assunto relacionado a bebs como se fosse uma doena que se pega com facilidade.
   ? Deveria ter imaginado que Kate a pressionou para que morasse l com ela.
   Rebecca balanou a cabea.
   ? Mame sabia mais. Ns duas sabamos.  muito difcil para duas mulheres adultas conviverem debaixo do mesmo teto. Ela me explicou sobre segurana, e eu cresci
sabendo o quanto isso era importante. No importava se eu estava diretamente ligada aos negcios ou no. O fato de ter o nome Fortune sempre iria me perseguir. Mas
at a independncia... Eu sempre amei meus pais, e depois que meu pai morreu, minha me e eu ficamos mais unidas. Ainda assim, eu tenho meu prprio trabalho, minha
prpria vida. No d para me imaginar ainda morando na casa de meus pais com a minha idade. Mas, e voc? Como  o seu apartamento?
   ?  s um apartamento. Quatro paredes. Todos os eletrodomsticos que facilitam a vida, mas nada relativo a decorao. Estou quase sempre trabalhando. De fato,
comprei um sof-cama para o escritrio h uns quatro anos. s vezes,  mais fcil ficar por l algumas noites do que ter que dirigir de volta para casa.
   Deverax s estava jogando conversa fora, mas Rebecca podia imaginar o lugar que descrevera. Parecia desocupado, impessoal e frio. No era um lar confortvel para
o qual um homem no podia esperar a hora de voltar, aps um longo dia de trabalho, mas um lugar solitrio. Assim como ele, a jovem pensou.
   ? Voc sabe ? disse ela devagar e num tom implicante ? quando o vi pela primeira vez, pensei que voc fosse um irremediavelmente porco chauvinista, arrogante,
dominador. Mas vejo que isso no  verdade.
   ? Uh... Obrigado. Eu acho.
   ? Voc leva jeito ? continuou ela, com a voz suave, ? mas no  realmente mando. Nenhuma daquelas caractersticas desprezveis aparece, a no ser quando est
preocupado com algum. Mas , basicamente, protecionismo.
   ? Essa anlise de personalidade ainda vai demorar muito?
   Ela sorriu.
   ? No. Mas eu fico me perguntando de onde vem esse seu jeito protetor.
   ? Quem sabe? Quem se importa?
   ? Ei, se me fizer a vontade e responder  pergunta, vou parar de irrit-lo.
   ? No tente me enganar, baixinha. Voc vai ser abelhuda at a morte. ? Talvez Gabe no atendesse ao suborno que Rebecca lhe oferecera, ainda assim continuava
com o olhar fixo no rosto dela, como se estivesse pensando se seria uma boa idia lhe responder imediatamente. ? Talvez tenha necessidade de proteger. Cresci me
sentindo desprotegido. Meus pais brigavam o tempo todo, e nada que eu fazia ou dizia podia melhorar aquela situao. Crianas eram mortas na rua, os colegas da escola
se meteram com drogas, brigas, gangues. No podia mudar aqueles que eu amava. Tambm no podia proteger aqueles com quem me preocupava.
   Rebecca escutava o que ele dizia. Mas tambm escutava a mensagem que estava nas entrelinhas. A nica vez que Gabe se abriu com ela foi quando lhe disse, de forma
meticulosa, mais uma vez, que os dois no eram um para o outro e que vinham de mundos completamente diferentes.
   ? Ento... foi por se sentir desprotegido que decidiu ser militar?
   ? A carreira militar era o meu passaporte de sada do inferno. As Foras Especiais eram o melhor passaporte. No s aprendi a proteger os homens que estavam sob
o meu comando, como eu tive a chance de fazer isso. Responsabilidade, obrigao, honra, tudo contava l. No fiquei muito tempo, mas eu queria ter ficado. As Foras
Especiais necessitam de um homem jovem, cheio de reflexos e histamina. Trabalhar como detetive era uma coisa natural a fazer quando sa de l.
   ? Regras, ordens, fatos. Coisas que voc pode controlar. Coisas com as quais pode fazer a diferena ? disse ela.
   ? No acho que goste de escolher o que  previsvel, ruivinha. Minhas "regras" parecem muito chatas para voc.
   ? De fato, parece uma escolha natural para um homem que comeou frustrado devido a erros e problemas que no podia controlar. Nunca passei por nada semelhante
a isso, Gabe. ? Era o mximo que ele tinha confidenciado a Rebecca, ainda assim ela suspeitava de que os comentrios dele no tinham sido voluntrios. Os olhos de
Gabe deslizaram pelas pernas dela, seguindo pela fenda do corpete e, muito mais revelador, ele fugiu rapidamente de qualquer expresso de carinho que pudesse ver
no rosto dela. Rebecca nunca duvidou de que Deverax estivesse lhe dizendo a verdade com relao ao passado. Ele era muito honesto. Tambm percebeu outra verdade:
sempre que ela demonstrava que se preocupava com ele, o senhor Gabe Deverax a advertia para ficar longe, lembrando-a das inmeras diferenas que existiam entre eles.
   A senhorita Fortune conhecia as diferenas. Tambm sabia que se apaixonar por um homem que no acreditava em famlia, bebs, s poderia terminar lhe causando
tristeza. No podia evitar. No podia controlar.
   Ela no conseguia controlar o sentimento, cada vez maior e mais profundo, que tinha por Gabe.
   ? Cada um tem que carregar a prpria cruz ? disse Gabe. ? Minha verso de infncia difcil  diferente da sua. Tambm no deve ter sido fcil crescer em pleno
cl dos Fortune.
   ? Fazer parte da dinastia dos Fortune trazia alguns desafios que podem ser considerados nicos. Mas sempre fui amada. E sempre soube disso.
   ? Sim, bem, muitas pessoas usam a palavra amor. s vezes, essa palavra acaba sendo mais usada do que o dinheiro ? disse Gabe, secamente.
   Em outra oportunidade, a ruivinha teria dado o troco na hora. Gabe sempre implicara com ela, criticara o jeito idealista. Os dois gostavam de briga. Rebecca nunca
se preocupara com isso. De repente, quis saber o que seria preciso para faz-lo voltar atrs.
   ? No ? ordenou.
   Gabe ficou estressado sem motivo. Tudo o que fizera foi abaixar os ps e se levantar. Pelo pnico que brilhava em seus olhos, daria para pensar que ela ficara
nua no meio de um cassino.
   ? Ns dois precisvamos de um drinque para relaxar. Mas agora est na hora de ir embora para o meu quarto.
   ? Boa idia ? concordou. Mas percebeu que Deverax no a interrompeu quando ela teve outra boa idia, completamente diferente, e se sentou no colo dele.
   ? Isso no  sensato, baixinha.
   ? Eu sei.
   ? Estvamos indo bem.
   ? Eu sei.
   ? Basta ignorar a qumica, mais cedo ou mais tarde ela vai embora. No d para se meter em confuso se voc fica fora do caminho.
   ?  uma boa teoria, mas acho que nem sempre funciona, Gabe. Essa qumica ferve cada vez que estamos juntos. Posso sentir o cheiro das especiarias. O calor bem
aqui. No entendo. Como posso sentir essas coisas com voc? Como no senti nada disso antes? O que h conosco? Perguntas ou problemas que no entendo me deixam louca.
Pode ser um defeito, mas no consigo descansar enquanto no tiver algumas respostas.
   ? Isso no  motivo para sentar no meu colo.
   ? Ento, me tire daqui.
   Mas ele no fez isso.

   Captulo 8
   
   De repente, ele a acariciou com vontade. A imagem que veio  mente dela era a de um marinheiro naufragado se segurando em uma bia salva-vidas, a nica coisa 
capaz de salv-lo da forte tempestade. Um dos braos de Gabe estava nas costas dela, e o outro estava totalmente livre.
   Tenso, os dedos cheios de calos mergulhavam nos cabelos da ruivinha e l ficavam enterrados, mantendo-a quieta, paralisada. E, certamente, ela no estava tentando 
ir embora. A boca de Gabe pressionava a de Rebecca com um calor forte e uma energia inebriante.
   Deverax experimentou uma sensao... intensa. Como uma exploso de isolamento. Como necessidades escondidas por tanto tempo, que agora vinham  tona. Era o beijo 
mais selvagem que j experimentara. Definitivamente o mais perigoso, e o corao batia cada vez mais rpido. Somente um louco se atreveria a caminhar em um terreno 
de areia movedia. Sabia que Gabe gostava de controlar; sabia que o investigador tinha sido um bom rapaz ao manter as mos longe dela. No pedira nada. E talvez 
ela fosse louca por induzi-lo a fazer isso.
   Nada ainda tinha dado to certo. Todos os motivos lgicos, de que isso estava errado, era arriscado e no passava de uma loucura, parecia no ter a menor importncia.
   Um beijo, que ainda no tinha dado em nada, acabou sendo o estopim para um outro. Um rudo a perturbava; nada naquele momento era mais importante do que Gabe. 
Ao menos para ela. Nenhum outro homem tivera esse direito. No para ela.
   A mo dele deslizou, queimando o longo pescoo branco, rolou at o ombro, empurrando para baixo a ala do vestido. Ela reclinou a cabea. A boca de Gabe queimava 
o pescoo de Rebecca com beijos perigosamente molhados e quentes. Os beijos espalhavam um calor por todo o corpo, um seio ficou descoberto quando ele empurrou a 
ala para baixo. Nu. E vulnervel.
   Gabe era um bom homem. Fora as diferenas, fora os inmeros obstculos, fora qualquer outra coisa idiota, o corao de Rebecca intura h um bom tempo que ele 
no era somente um bom homem, mas talvez o melhor que conhecera. Agora, entretanto, no parecia muito motivado a dar uma de bonzinho.
   Os plos da barba roavam o seio. A boca de Gabe descobriu-o e explorou toda a regio at encontrar o mamilo. Ele beijou, acariciou at a ponta ficar enrugada 
e firme. A respirao dela comeou a ficar espaada. A pulsao acelerava como se fosse um jatinho pronto para decolar. No importava, de alguma forma, a ruivinha 
se virou ainda no colo dele, e pde senti-lo crescendo, pulsando. Um aviso, caso houvesse algum disposto a diminuir a velocidade, esfriar a cabea e pensar.
   A senhorita Fortune no queria se acalmar. J sentira desejo, mas no essa dor de pertencer a algum. J sentira vontade, mas no essa febre de desejo. As mos 
dela passavam por cima da camisa de Gabe, pressionando o tecido de linho contra a pele quente, quase fervendo e contra os tufos de plos no peito. A pele exalava 
um perfume quente, masculino. A um simples toque de Rebecca, o corao dele bateu forte, como o estrondo de um trovo, e o corpo respondeu de uma forma to real 
e bruta, to honesta. Assim como Gabe. To voltil, assim como Deverax.
   Assim como um homem confinado em uma solitria durante muito tempo, ele parecia faminto pela luz do sol. Sabores e texturas atacavam os sentidos de Rebecca. Todos 
os sentidos pareciam ter o nome de Gabe. Todos os sentidos pareciam demonstrar necessidade. O desejo dele de tocar, unir, de realmente acreditar que havia um ser 
humano do outro lado daquele abismo escuro e solitrio. A escurido selvagem no olhar, os sons que emitia, a forma como tocava e acariciava a pele dela... Gabe fez 
com que a ruivinha se sentisse a luz do sol que ele tanto procurava. Como se ela fosse a nica a ter a chave da cela da priso. Como se ele precisasse dela.
   A resposta dela era natural. Nunca se sentira dessa forma com outro homem. Nem queria sentir. No muito diferente de Gabe, jamais expusera essa necessidade de 
forma to crua e vulnervel com ningum. Mas com ele, podia ser honesta.
   Talvez muito honesta. Quase lhe deu uma cotovelada nos olhos, tentando faz-lo abaixar a cabea para um outro beijo. Nem os cotovelos nem os joelhos dela pareciam 
estar no lugar certo, nem para toc-lo da forma como queria. Percebeu um brilho de satisfao no olhar de Gabe, mas tambm havia tenso e um desejo frustrado.
   A respirao de ambos estava ficando acelerada e descompassada. Cruzara as pernas ? da forma que podia, tentando envolv-lo, naquela cadeira desconfortvel ? 
e a mo de Gabe comeou a acariciar-lhe a perna. A palma da mo deslizava pela meia-cala de seda desde a barriga da perna at a coxa, provocando calafrios, uma 
sensao como se ela estivesse afundando em um poo ntimo, aveludado. Levantou-lhe o vestido e acariciou-lhe o quadril, fazendo um rudo rouco, a voz dura, seca, 
havia muito mais desejo naquele som do que frustrao.
   ? Becca... ? sussurrou.
   O telefonou tocou. O som estridente da campainha telefnica assustou a ambos.
   Rebecca encarou Gabe, por um milsimo de segundo, tentando colocar a cabea para funcionar. Levou alguns segundos antes de voltar  realidade: estava em um quarto 
de hotel, obviamente havia um telefone que estaria longe, do outro lado da cama.
   O telefone tocou novamente, at que Gabe a convenceu a se levantar.
   ? Em outra ocasio, baixinha, iria sugerir para deslig-lo. Mas tenho medo de que um telefonema no meio da noite possa significar algo srio.  melhor atender.
   A lgica estava comeando a fazer sentido para ela, s que mais devagar em relao a Gabe. Tropeou ao correr para atend-lo antes que parasse de tocar.
   ? Al?
   ? Rebecca Fortune?
   ? Sim, sou Rebecca. ? No reconheceu a voz da mulher, mas tambm no reconheceria nem a voz da prpria me naquele momento. Todo o corpo ainda estava sintonizado 
em Gabe, cantando um blues. cantarolando baixinho e entusiasmada com o fato de terem chegado to perto ? terem ficado to perto ? de fazer amor. No conseguia se 
concentrar em mais nada.
   ? Sou Tammy. Tammy Diller.
   Se tivesse precisado de uma bala de revlver para apagar qualquer desejo e for-la a se concentrar, o nome anunciado pela pessoa do outro lado da linha tinha 
funcionado melhor do que uma rajada. Respirou fundo e sentou na cama.
   
   ? No ? disse Gabe, com firmeza. ? No, no, no. Voc no vai se encontrar com aquela mulher, Rebecca. Esquea. Est fora de cogitao.
   ? Agora voc s tem que se acalmar, Deverax. Tambm no gosto da idia, mas no tenho outra opo. Tenho que fazer isso.
   ? Nada disso, e voc no vai a lugar nenhum. No vai se encontrar com a senhorita Diller; s se passar por cima do meu cadver.
   ? No sei como Tammy me encontrou.
   ? Mas eu sei como. Voc andou fazendo perguntas por toda a cidade. No s em uma cidade, mas em duas. Perguntas perigosas sobre uma mulher que poderia muito bem 
ser uma assassina. No lhe disse para no fazer isso? No pedi? Droga, s o fato de ela ter rastreado seu nome e descoberto onde est, j  o suficiente para me 
dar lceras. Voc vai sair de circulao e vai embora para casa, baixinha. E agora no  uma sugesto.  uma ordem.
   ? Voc pode parar de gritar. No vou a lugar nenhum.
   ? Ah, sim, voc vai.
   ? Gabe, imagino que esteja preocupado. Tambm estou. Mas essa  a primeira chance concreta e importante que tenho para ajudar meu irmo. Confie em mim, querido. 
No h nada nem ningum que v me impedir.
   Disse a ltima frase num tom de voz to gentil, calmo e confiante, que Gabe ficou irritadssimo.
   Como o quarto dela era apertado, Gabe comeou num vaivm ao lado da cama. Do outro lado, Rebecca fazia o mesmo. Os olhos se encontravam a cada vez que os passos 
se cruzavam.
   Nunca brigara com uma mulher. Jamais. Nunca gritara com uma mulher. Ia contra toda a tica de como um homem deveria se comportar e tratar uma mulher.
   Um sentimento de culpa o atormentava. A culpa por ter gritado com ela no era to ruim ? que inferno, a baixinha era cabea-dura e estava to obstinada quanto 
um co de caa. Se para mant-la viva e segura, tinha que ficar irritado, ento, estava perdendo tempo. Intimidava homens sob o seu comando com a metade do esforo 
que estava fazendo para convencer Rebecca. At agora, nada intimidara ou amedrontara aquela ruiva teimosa ? o que fez com que Gabe tivesse a certeza de que ela era 
imprudente e afoita. No tinha noo de perigo.
   At aqui, tentar intimid-la no funcionara ? mas ainda no se dava por vencido. Poderia viver tentando impedi-la de fazer loucuras. Nesse caso, o fim justificava 
os meios.
   Mas havia outro tipo de culpa martelando na conscincia. Uma culpa pelo simples fato de olhar para ela, e esse era o tipo de culpa que o esbofeteava como uma 
tempestade, com ventos misteriosos e bruscos, rasgando o cu repleto de raios.
   Uma das alas do vestido soltou. O corpete estava pendurado na curva do seio direito, ameaando ficar exposto cada vez que ela inspirava. A boca de Rebecca estava 
vermelha devido  presso dos beijos de Gabe. A pele ainda jorrava desejo.
   A luz do teto iluminava Rebecca por inteiro. O cabelo era como o pr-do-sol, brilhando em tons dourado e vermelho num emaranhado de luz cada vez que se mexia.
   A cama entre os dois era como uma faca afiada, uma advertncia do quanto estiveram perto a ponto de carem nela. Do quanto Gabe ainda queria am-la. Do quanto 
ainda a desejava.
   No havia nada de errado em desejar uma mulher. Nada errado em dormir com uma mulher que tambm o desejava. Mas, droga, essa mulher era Rebecca. Ela queria ter 
filhos. Uma famlia. No tinha sequer um nico objetivo de vida que no fosse saudvel.
   Gabe no podia se transformar em um homem "saudvel". Ficar nu junto de uma mulher era completamente diferente de ter intimidade. Nunca machucara, deliberadamente, 
uma mulher. Nunca se aproximou de uma mulher que no pensasse como ele.
   Tambm nunca deixara uma mulher ? ou qualquer outra coisa ? interferir em seu trabalho.
   ? No acredito que deixei isso ir to longe ? resmungava, irritado. ? Tammy no deve ter a menor idia de quem voc , ruivinha.
   ? Se no soubesse quem eu era, nunca teria entrado em contato comigo ? disse Rebecca, coberta de razo. -Pelo amor de Deus, no havia sinal de perigo na conversa. 
De fato, ela parecia... uma pessoa legal. Pediu desculpas por ter ligado to tarde. E tudo o que disse foi que ouvira de alguns amigos que eu estava tentando ach-la 
? no sabia o motivo, mas se eu quisesse marcar um encontro, no havia problemas, e ela tinha um tempo livre amanh.
   Gabe fixou o olhar em Rebecca, tentando imitar uma voz soprano.
   ? Nunca deveria levar isso adiante, baixinha.
   ? No posso esperar para "levar isso adiante", como voc mesmo disse. Meu Deus, ns queremos falar com essa mulher. E ela est me dando essa chance.
   ? Sim. E, por um milagre, sugeriu um lugar legal, calmo para um encontro, justamente na rea do Red Rock Canyon. Senhorita Poliana, Tammy no  uma naturalista. 
Se escolheu um lugar deserto como esse,  bvio que no quer meditar com voc.
   ? Voc est fazendo julgamentos precipitados ? disse Rebecca, com firmeza. ? No sabemos se Tammy tem algo perigoso em mente. No h como saber se ela tem segundas 
intenes a no ser que eu v ao encontro.
   ? A, ento, nunca saberemos, porque no h uma orao para voc se encontrar sozinha com aquela mulher.
   ? Gabe, ela convidou a mim. No voc. Agora, por um minuto, pare de pensar como um superprotetor e pense nisso. Tenho que ir sozinha. Quero ir. Uma mulher sempre 
pode dar um jeito de conversar com outra. Ela j se ofereceu para fazer isso e, qualquer coisa que faa ou diga, posso ler nas entrelinhas. Voc s iria atrapalhar, 
amorzinho. No que o senhor no seja adorvel, mas sempre tende, como se fosse um adolescente, a querer intimidar os outros, e no sabe ser nem um pouco sutil.
   ? Estou falando em segurana. No me importo nem um pouco com sutilezas.
   A baixinha teve o descaramento de o fuzilar com um sorriso malicioso.
   ? No h mais nada a dizer.
   ? Rebecca, no gosto disso.
   ? Eu sei.
   ? No gosto nada disso.
   ? Eu sei.
   No final, ele acabou concordando ? em parte, mas no muito satisfeito. Se pudesse ter escolhido, teria telefonado  me dela e feito Kate tranc-la em um convento. 
Embora Kate Fortune fosse uma poderosa mulher de negcios,  Deverax no acreditava mais que a me tivesse alguma influncia sobre a filha. Ningum tinha qualquer 
poder sobre Rebecca ? a mulher era um pesadelo ambulante.
   Infelizmente, a ruivinha era o pesadelo dele. No dava para acreditar nela, deixando-a sozinha. Sempre arrumava um jeito de driblar as regras. Ele podia coloc-la 
em um avio, mas no tinha como garantir que a baixinha no o seqestraria e, de alguma forma, acharia uma maneira de se encontrar com a senhorita Diller. Gabe tinha 
a desconfortvel sensao de que mesmo presa, amarrada, Rebecca encontraria um jeito de ir quele encontro.
   Ento, estipulou algumas regras bsicas. A senhorita Fortune iria ao encontro ? mas ele chegaria ao local antes, em um outro carro. Rebecca no o veria, mas Gabe 
estaria l. Ela tinha que escutar, investigar qualquer coisa que Tammy mencionasse na conversa, mas, nunca, de jeito algum, podia mencionar o assassinato de Mnica. 
Poderia inventar qualquer historinha que quisesse para satisfazer a curiosidade de Tammy sobre o motivo de ter feito perguntas a seu respeito. Mas tinha que evitar 
qualquer tpico que pudesse levantar suspeita e causar algum tipo de perigo.
   A ruivinha concordou com todos os termos sem hesitar. Gabe no mencionou que planejava ir armado... Ou que iria decidir se ficaria escondido, dependendo da situao. 
Ela no perguntou.
   De repente, Rebecca bocejou. Um bocejo largo, barulhento, seguido por uma piscadela e um sorriso.
   ? Brigar com voc  cansativo ? disse, secamente. ? Meu Deus! Tem alguma idia de que horas so?
   Realmente, Gabe no sabia, mas quando olhou o relgio, logo procurou pelo palet do smoking.
   ? Voltaremos a esse assunto amanh, antes de voc ir. Se vai encontr-la s duas da tarde, vamos planejar tudo no almoo, por volta das onze da manh. Venho busc-la 
aqui no quarto.
   ? Pode ser almoo para voc, mas, provavelmente, vai ser meu caf da manh. Acho que vou dormir at l.
   ? Boa idia ? disse Gabe. Entretanto, ele no pretendia dormir tanto. Tinha que arrumar as coisas antes, desde alugar um segundo carro at checar o lugar do encontro, 
Red Rock Canyon, antes do horrio marcado. Caminhou a passos largos at a porta, ento, de repente, parou. ? Baixinha...
   Realmente no sabia o que dizer, somente que precisava dizer alguma coisa. O telefonema de Tammy quebrara o clima entre os dois, havia sido um jato de gua fria. 
Mesmo assim, a lembrana daquela intimidade estava entre eles agora, e poderia inflamar at virar uma ferida, se no fizessem alguma coisa.
   A voz de Rebecca estava mais macia do que manteiga.
   ? Voc est pretendendo pedir desculpas por quase termos feito amor?
   ? No... no se trata de pedir desculpas. ? Esfregou o rosto com a mo. ? Sim. Quero pedir desculpas.
   ? Tive a impresso de que voc se sentia atrado por mim. No outra coisa. ? Esfregou o rosto com a mo tambm, imitando o gesto dele. ? Deveria estar com o pensamento 
voltado para o meu irmo, Gabe. Ele  a razo pela qual estou aqui. No estava com a cabea em ordem quando Tammy ligou, e no posso parar de me sentir culpada por 
isso.
   ? Bem, desculpada, ento, ruivinha. Seu irmo  minha responsabilidade, meu trabalho. No importa quanto amor e lealdade esto motivando voc... No est habituada 
a isso. Voc no est acostumada a lidar com a ral, a ficar fugindo pelo pas, a conviver com pessoas que vivem nas sombras. ? Gabe colocou as mos nos bolsos. 
? Voc tambm est preocupada com ele. Toda essa situao contribui para emoes fortes e sensaes imprevisveis. Quando a adrenalina toma conta, ningum consegue 
pensar normalmente.
   ? Estou pensando direito. ? Ela o encarou. ? S no escolhi uma boa hora. Me desculpe por isso... Mas no me arrependo do que sinto por voc, ou pelo que vivenciamos 
juntos.
   ? Sim, bem, quando chegar em casa, vai voltar a querer ter uma casa no campo com um balano no quintal. Bebs. E um homem que lhe d esses bebs.
   Rebecca abriu a boca para dizer alguma coisa, depois fechou. Gabe viu a fragilidade estampada no rosto da jovem Fortune, a dor naqueles lindos olhos verdes meigos. 
Dor que ele causara, esperana que ele estraalhara. Deverax a olhou mais uma vez, depois foi embora.
   O corredor estava deserto e silencioso. To silencioso que ele podia jurar que estava ouvindo as prprias batidas do corao.
   Deverax tinha sido honesto com Rebecca. No foi rude de propsito. Ela acreditava em sonhos e cavaleiros brancos. S iria se machucar mais ainda se acreditasse 
nessas coisas com ele. A nica forma de Gabe fazer a ruivinha entender isso era sendo franco, direto, honesto, mesmo que isso fizesse com que ficasse com um n na 
garganta.
   Rebecca era o raio de lua e o raio de sol nos quais ele quisera acreditar ? uma vez, h muito tempo. Gabe sempre ficara inquieto com qualquer palavra que fosse 
de um conto de fadas como, por exemplo, amor. Mas no tentava negar que havia coisas das quais gostava nela. Queria que ela tivesse o direito de ser exatamente como 
era ? boba, idealista, altrusta, que acreditava em sonhos.
   A nica forma disto acontecer era se Deverax a protegesse. No do perigo externo. Mas dele.
   No havia a menor chance de Gabe ser o homem de que Rebecca precisava. O homem que ela queria em sua vida. E o ex-agente das Foras Especiais sabia disso.
   
   O mtodo favorito utilizado por Rebecca para assassinatos era o esfaqueamento. Matara algumas pessoas com veneno, uma vez usou uma velha arma inglesa, um casal 
foi cruelmente afogado, outros foram lanados de precipcios. No computador de casa, entretanto, havia um livro de suspense, quase terminado, no qual o vilo usava 
um punhal de prata. Um esfaqueamento era uma forma muito mais cruel, violenta, de encarar a maldade. Um esfaqueamento era muito mais pessoal. Um esfaqueamento era 
muito mais divertido.
   Um revisor da editora, Rebecca lembrou, lhe cumprimentara certa vez por ter uma mente to deliciosamente pervertida. Ela esperava ter mesmo. Mas aquilo era fico. 
Na vida real, ela se sentia culpada quando matava um mosquito, e nunca desejou encontrar algum que pudesse ser um assassino ? ou assassina.
   Abotoou a blusa creme, de linha, vestiu as calas cor de caqui, ento, calou os tnis. A cabea latejava e o estmago estava embrulhado. Era o terceiro conjunto 
que ela experimentava ? chegando ao limite de escolhas disponveis na mala. Levando em conta a quantidade de horas que gastava para criar assassinos avarentos, cruis, 
no tinha a menor idia de que roupa era apropriada para um encontro com uma assassina em potencial.
   Tmidos raios de sol, de uma alegre manh, invadiam o quarto enquanto Rebecca pegava uma escova. O cabelo queria encaracolar de qualquer forma, o que a deixava 
extremamente surpresa. Ela nunca tivera problemas para se pentear, mas no dava para jogar o cabelo para trs com alguns grampos, parecia uma louca. Teve que prend-lo.
   Lembrou a si mesma ? de novo ? de que no era pelo fato de Mnica Malone ter sido morta com uma faca de cortar papel que ela podia presumir que Tammy havia sido 
a responsvel pelo assassinato. No havia nenhuma prova de que a senhorita Diller estivera na casa, no momento do assassinato de Mnica. Nenhuma evidncia de que 
tocara naquela faca. Mesmo assim, Rebecca tivera a vaga impresso de que havia alguma relao entre essa Tammy e a sua famlia. Mas, como Gabe a lembrava incessantemente, 
ela tinha uma imaginao muito frtil. Aquele pressentimento nunca surgira com um nico fato.
   Por esse motivo, se Gabe realmente acreditava que a senhorita Diller era culpada, Rebecca tinha uma forte suspeita de que ele encontraria uma forma desagradvel, 
imoral, de acabar com esse encontro. Deverax pensava que Diller no era confivel, como a maioria dos criminosos ? pertencia  escria, no era uma companhia segura 
-, mas tinha uma forte ligao com Mnica, o que poderia salvar Jake. A ruivinha sabia que o investigador no acreditava na inocncia do irmo. E, embora o restante 
da famlia pensasse que Jake era inocente, todos queriam que os advogados cuidassem do caso, livrando-o da priso. Rebecca, porm, no queria arriscar a liberdade 
de Jake.
   O irmo no era capaz, em termos emocionais, mentais, ticos e quaisquer outros, de esfaquear aquela mulher. Rebecca sabia disso. Mas se Jake no a matara, algum 
tinha feito isso. E, naquele momento, o nico suspeito alternativo que aparecera era Tammy.
   A moa com quem Rebecca iria se encontrar ? olhou o relgio ? precisamente daqui a trs horas.
   Deverax bateu  porta antes de ela conseguir ajustar o fecho da pulseira. No momento em que o deixou entrar, o investigador a observou da cabea aos ps, como 
um co que examina o filhote, inquieto,  procura de pulgas.
   ? Voc se sente bem? Dormiu direito? Est pronta?
   ? Eu no poderia me sentir melhor, no vejo a hora de ir. ? Queria demonstrar confiana, mas, de repente, descobriu que no precisava mentir. Ao ver Gabe, o estmago 
se acalmou, mesmo estando com a pulsao a mil por hora.
   Deverax estava bem casual ? camisa, calas jeans, uma jaqueta de aviador. No importava se estava vestido casual ou formalmente, ele sempre parecia mais bem arrumado 
do que ela. As camisas de Deverax estavam sempre bem passadas, o cabelo sempre penteado. Notou que ele acabara de se barbear, mas o corao ficou descompassado ao 
perceber o olhar aveludado. Gabe no esquecera a noite anterior.
   Nem ela.
   Talvez, antes da noite passada, ela suspeitasse que estivesse se apaixonando por ele. Agora, Rebecca sabia. Tirando aquele forte desejo desconcertante; estava 
sem graa por ter se mostrado to vulnervel na noite anterior. A qumica era forte e poderosa, mas era apenas um sintoma, em particular, dessa doena. A ruivinha 
se derretia toda pelo simples fato de estar perto dele. Aquele homem terrvel conquistara um cantinho no corao dela, e a mantinha presa.
   ? Ainda no estou tranqilo em deixar voc fazer isso ? disse.
   ? Eu vou lhe dar um conselho, querido. No use, hoje em dia, as palavras deixe ou permita perto de uma mulher e, assim, voc vai conseguir livrar sua pele.
   Gabe encostou um ombro no umbral da porta.
   ? Eu no falaria com outras mulheres da forma como falo com voc. Isso no  questo de ser homem ou mulher. Algumas pessoas so gorilas, outras so cordeiros. 
Voc ser um cordeirinho at o dia em que morrer.
   ? Bem, isso  verdade, mas se pensar por um minuto, vai perceber que o meu jeito de cordeirinho  uma vantagem poderosa. ? Ela pegou a bolsa, e o pedao de papel 
com as instrues que Tammy lhe dera na noite anterior, e seguiu corredor abaixo, em direo ao elevador. ? No h nada com o que se preocupar. Acredite em mim ? 
sou a criatura mais covarde que j conheceu. No pense que eu v fazer qualquer coisa para provocar a querida senhorita Diller, isso est fora de cogitao.
   Deverax fechou a porta e foi atrs dela. Os dois apertaram o boto do elevador ao mesmo tempo.
   ? Acredito nisso da mesma forma que aceito as promessas dos polticos. Alm de no ser covarde, voc tem sido irresponsvel e se arriscado constantemente, desde 
o dia em que a encontrei. E, nessa tarde, no quero que corra nenhum risco. Lembra de tudo o que conversamos na noite passada? Voc d o fora se perceber algum problema. 
Se pressentir alguma coisa. Se no se sentir bem.
   As portas do elevador se abriram rapidamente. Assim que entrou, o olhar tinha um brilho de travessura.
   ? Gabe, Gabe, Gabe... No me diga que est comeando a acreditar em instintos e intuies? No est pedindo que eu siga os meus pressentimentos, est?
   Gabe deu um suspiro, pesado e alto.
   ? Quando a senhorita comea com essa falta de respeito, Deus sabe o quanto vou ser capaz de lidar com voc no fim do dia.
   Eficiente como um sargento da Marinha, Deverax a fez relembrar os planos que juntos haviam traado ontem: onde ele estaria, onde e quando se encontrariam, todo 
o esquema. Ele lhe deu tambm um mapa com marcaes em amarelo. Ao invs de dormir na noite anterior, dirigiu at o local estabelecido por Tammy e checou toda a 
regio.
   Quando terminou com a lista de ordens, os dois j tinham sado do elevador e atravessado o saguo, e estavam perto de um restaurante. Entretanto, antes de entrarem, 
ele lhe deu uma chave.
   ? O que  isso?
   ? Aluguei um carro para voc. Um Mazda RX-7 preto.
   Ela piscou.
   ? Bastaria um simples Chevy pequeno.
   ? Talvez. Mas se decidir dar o fora, basta pisar no acelerador, e o carro vai se mexer.
   Rebecca no tentara dizer nada at ento. Teria sido como interromper um cirurgio com o bisturi na mo. Gabe estava organizando e planejando e, sinceramente, 
o homem era maravilhoso nisso. Entretanto, no podia deixar passar o ltimo comentrio.
   Segurou-o pelo cotovelo para chamar-lhe a ateno. Depois, disse calmamente e com doura:
   ? No fujo dos problemas, Gabe. Eu posso ficar assustada, vomitar, falhar e no saber conduzir a situao direito. Mas no dou o fora quando h um problema. Guarde 
isso.
   
   
   Captulo 9

   Embora o trajeto de Las Vegas at as terras do Red Rock Canyon fosse de apenas vinte e cinco quilmetros, essa distncia parecia interminvel. O brilho e a cafonice
da cidade, ambas se transformaram em deserto e depois numa regio montanhosa, selvagem, inspita.
   Para um turista cansado de perder dinheiro no jogo de vinte-e-um, era fcil para Gabe ver como uma caminhada at os desfiladeiros poderia ser bastante relaxante. 
De alguma forma, entretanto, suspeitava que Tammy Diller escolhera aquele lugar por razes completamente diferentes.
   Coou o queixo... com muita, muita calma. Tammy j havia chegado ? num Cadillac amarelo-claro alugado. Ele a observara por um bom tempo, e no gostou do que viu.
   Embora a senhorita Diller no soubesse disso, Gabe estava a menos de oito metros acima dela, deitado em uma laje de pedra empoeirada e que lhe provocava coceira. 
Era um ponto de vantagem invencvel, perto o suficiente para at escutar a conversa, se tivesse sorte. Mas, ele estava predeterminado a no fritar sob aquela pedra.
   Tammy sugeriu que Rebecca a encontrasse na rea de piquenique do parque de recreao. Tecnicamente, era um lugar lgico, incuo, tranqilo para uma conversa em 
particular ? e, a princpio, seguro porque era um local pblico. O nico problema era que, numa tarde no meio da semana, com um sol forte refletindo nas rochas nuas, 
o calor tomava-se insuportvel. No havia uma alma viva nas redondezas ? nenhum pssaro, nenhum animal e, com certeza, ningum mais.
   Gabe trouxera um cantil, mas no arriscava a beber nada com medo de fazer barulho. E tinha certeza de que um gelogo acharia aquele lugar um paraso ? alguns 
choupos norte-americanos, com galhos bem salientes, lanavam sombras abenoadas na rea de piquenique. Alm disso, as formaes rochosas nas tonalidades salmo e 
damasco se erguiam em misteriosas flechas e formatos, tendo atrs um cenrio de penhascos de arenito multicolorido. Gabe imaginava que havia muito xisto nas paredes 
dos desfiladeiros, porque estavam cobertas de granada, minerais, ferro e todos os tipos de cores atraentes.
   Deverax no dava a mnima para a geologia ou para a beleza da regio. Quando deixou o carro alguns metros atrs e caminhou at o local do encontro, ele ficou 
irritado por perceber o quanto isolado era aquele lugar. No havia nenhum povoado. No se via nenhum prdio. O lugar perfeito para se fazer qualquer coisa e no 
correr o risco de ser preso.
   E a moa abaixo o deixava em sentido de alerta. Tammy chegara vinte minutos antes do combinado, ento, ele tinha tempo suficiente para analis-la. Cabelos castanhos, 
longos, na altura do ombro. Supunha que outra mulher diria que o estilo era ardiloso. Ele diria que era de pouco valor.
   A maquiagem tambm era, e parecia que gostava de pintar os olhos. Pernas longas ? nada mal. Uma blusa espalhafatosa, com muitas rendas na parte superior. Gabe 
pensou que, provavelmente, ela estava tentando parecer inocente e confivel com aquelas rendas. E as roupas eram caras, mas era o jeito como ela as usava, o jeito 
como andava. Era ral. Gabe suspeitava que Rebecca iria desencadear um longo discurso feminista se usasse aquele termo machista perto dela. Mas Tammy fazia parte 
da ral. No dava para negar. Dezesseis quilmetros de estrada irregular  frente daqueles olhos insensveis. Nada de errado com o rosto ? a mulher era realmente 
bonita -, mas a expresso era extremamente dura. Estava se assustando  toa, no havia nada l ? e ele no estava fazendo nenhum barulho.
   Os dois escutaram o chiado do motor de um carro -deveria ser Rebecca chegando. Gabe se contraiu todo, mas no tirou os olhos de cima de Tammy. Ela apagou o cigarro, 
jogou o chiclete fora, colocou um leno na cabea, culos escuros grandes e se transformou em um modelo de calma, frieza e serenidade.
   Rebecca estacionou o Mazda preto ao lado do carro de Tammy e saiu. Ok, ruivinha, Gabe pensou. Seja boazinha comigo, ao menos dessa vez. Faa o que combinamos. 
Somente conversa fiada, nada alm disso. No mencione nada sobre Mnica, seu irmo e, pelo amor de Deus, no comente nada sobre assassinato. Pode arriscar seu pescoo 
amanh, baixinha, eu prometo, mas tenha cuidado dessa vez, ok? Somente dessa vez...
   ? Senhorita Diller? ? Rebecca, obviamente, logo avistou a outra mulher, porque caminhou em direo a ela. Deus, Tammy era um raio de sol em meio a tudo aquilo.
   Mas havia alguma coisa errada. Gabe no sabia o que era, no conseguia imaginar. Mas conhecia o corpo de Rebecca ? intimamente. Qualquer outra pessoa poderia 
no notar mas, de repente, os ombros dela ficaram tensos ? at os msculos do bumbum se contraram ? e o sorriso era artificial.
   Gabe ficou de sentinela como se dispositivos de alarme comeassem a tocar por todo o seu corpo. Havia se conectado ao sistema algumas horas antes na esperana 
de que alguma informao sobre o passado de Tammy viesse  tona ? ou que o computador acusasse um outro suspeito. No faltavam inimigos a Mnica. Ele mantinha a 
equipe investigando todos os nomes que Kate e Jake Fortune mencionavam. Pginas e pginas de informao ainda surgiam com o decorrer da investigao ? algumas mais 
fceis de serem apuradas do que outras. Mas nenhuma delas era valiosa. Nada que, com certeza, Deverax poderia ter usado para cancelar esse encontro louco.
   Agora, entretanto, desejava ter mandado a lgica e os fatos para o inferno e ter cancelado o encontro. Se Rebecca estava surpresa com a aparncia da mulher, obviamente, 
havia alguma coisa que ele no sabia. Gabe gostava de surpresas. Desde que no envolvesse Rebecca e, droga, no envolvesse a segurana dela.
   Ainda assim, ela parecia se recuperar rapidamente daquela rigidez assustadora. Estendeu a mo a Tammy e, como era tpico da senhorita Poliana, com a voz amigvel 
e entusiasmada, cumprimentou-a.
   ? Ol! Que lugar incrivelmente belo. E obrigada por dispor de tempo para me encontrar.
   Tammy apertou a mo de Rebecca com um sorriso mais brilhante que ouro. O sotaque sulista parecia autntico, mas a voz continha uma doura que Gabe nunca ouvira 
em Nova Orleans. ? Eu sempre gostei muito daqui, e me parece o lugar ideal para relaxar.  quase impossvel encontrar um lugar calmo em Las Vegas.
   ?  verdade.
   Gabe perdeu parte do incio da conversa. Tammy estava de costas para ele, o que facilitava a espionagem. Era justamente o que pensara ser capaz de fazer ? ficar 
bem perto para observ-la, perto o suficiente para se movimentar com rapidez caso Rebecca fosse ameaada. Era um presente inesperado que parecia estar dando certo 
naquela quietude, naquele lugar mgico, mas no dava para distinguir as vozes caso elas se mexessem. Mulheres no costumam ficar paradas. Deverax tentava no respirar, 
ignorar a coceira na nuca, esquecer o calor e a pedra, arenosa e pontiaguda, espetando o peito.
   Pareciam estar apenas conversando, nenhuma tenso, nada preocupante, a julgar pela fisionomia de Rebecca, que ele via de relance. A senhorita Fortune estava conversando
de forma bastante amistosa, socivel, e Gabe pensou: boa menina, voc est fazendo tudo certo, baixinha.
   Ento, caminharam de forma a ficarem mais perto dele e, do nada, Tammy ergueu a cabea e foi direto ao assunto. ? Em todos os lugares que fui ontem, algum parecia
dizer que voc estava  minha procura. Se no nos conhecemos, gostaria de saber por qu.
   ? Bem, se posso ser franca...
   Gabe sentiu um frio na espinha. Era aquele tom de sinceridade na voz de Rebecca. A ltima vez que ele ouvira sua franqueza foi quando ela o informou, tranqila
e gentilmente, que nunca fugira de um problema. E, droga, ele sabia disso. J tinha mais do que provado que no havia nada que no fizesse para salvar o irmo. Nunca
recuou diante de um problema por medo de correr risco. E, intimamente, lhe ensinara essa lio na noite anterior ? com os riscos que correra com ele.
   A todo o momento, cada toque e cada carcia da noite anterior ecoavam em sua mente. E o frio na espinha aumentava cada vez mais.
   ? Claro que voc pode ser franca comigo, querida ? Tammy confirmou.
   ? Bem... no sei se voc leu nos jornais sobre o assassinato de Mnica Malone, mas o meu irmo Jake foi acusado do crime. Encontrei uma cpia de uma carta que
Mnica escreveu a voc, na poca da morte. Eu no tenho a menor idia de qual era a sua ligao com ela, mas esperava que voc pudesse me ajudar. Estou procurando
alguma coisa, qualquer coisa, que possa ajudar a inocentar o meu irmo Jack.
   O corao de Gabe parou. A garganta ficou mais seca que o Saara em pleno meio-dia. Ele a advertira uma dzia de vezes, a baixinha concordara, entendera que o
nico assunto que no podia comentar com Tammy era o assassinato de Mnica. Era o mesmo que convidar a mulher para ver Rebecca como uma ameaa perigosa. Ele pensou:
droga, ruivinha, no ouse dizer nem mais uma palavra.
   A partir daquele instante, ele no conseguiu mais ver o rosto de Tammy, mas ela ergueu as mos num gesto de inocncia.
   ? Soube, claro, sobre a morte de Mnica, porque ela era uma figura pblica, uma atriz de Hollywood, e esteve em todos os lugares na mdia. Mas, por Deus, eu nunca
a conheci pessoalmente.
   ? Mas havia uma carta para voc ? Rebecca insistiu.
   O corao de Gabe voltou a bater ? rpido, forte, descompassado. Ele era adrenalina pura. E se questionava o que faria quando estivesse frente a frente com a
baixinha novamente, se iria cozinh-la em leo, amarr-la a um poste em um formigueiro, ou afog-la. Todas as opes eram tentadoras, era difcil escolher uma. Mas
isso era para mais tarde, naquele momento, o olhar estava focado em Tammy. Ele no podia perd-la de vista, no podia nem piscar.
   ? Bem, voc est coberta de razo sobre eu ter recebido essa carta de Mnica ? Tammy admitiu. ? Realmente me surpreendi. Como voc pode imaginar, pela minha aparncia,
eu j fui modelo. Pensei que Mnica deveria estar entrando em contato comigo por causa disso. Li em algum lugar que ela tinha uma filial da companhia de cosmticos
da sua famlia, e de repente, eu estava em dvida entre os dois empregos. Sinceramente, entretanto, no sei. Estava trabalhando depois disso, ento, eu nunca tive
a chance de ir adiante com aquela carta.
   ? Bem, droga ? disse Rebecca. ? Realmente esperava que voc pudesse ter pistas concretas para eu seguir, alguma correlao de algum com Mnica, alm do meu irmo.
   ? Creio que no, docinho. Eu nunca me encontrei com essa mulher. No que eu no lamentasse... Quero dizer, que horror ter uma velha atriz de Hollywood assassinada
daquele jeito, esfaqueada com uma faca de abrir carta, adornada com jias, como se fosse um filme.  assustador pensar que algum poderia fazer uma coisa dessas,
no? Me d medo s de pensar nisso.
   Que inferno. Alguma coisa nova estava errada. Rebecca reagiu, mas a cor fugiu-lhe do rosto e, de repente, ela apertou as mos. Com a tenso, a pulseira no pulso
da ruivinha acabou fazendo um barulho estridente.
   Tammy disse alguma coisa sobre a pulseira, e a conversa enveredou para outro assunto, jias, uma tentativa bvia da senhorita Diller para se desviar do tema relacionado
a Mnica. As duas mulheres se mexeram. Ambas pegaram as chaves dos carros dentro das respectivas bolsas e continuaram conversando. Nenhuma delas queria dar continuidade
quele "encontro", mas tambm nenhuma das duas sabia como termin-lo logo.
   Gabe disse a si mesmo que no havia problema em respirar. Nada mais ia acontecer naquele momento. Tammy poderia ter feito alguma coisa a Rebecca se quisesse.
Tambm era possvel que, nos termos dela, o encontro tivesse sido bom. Tivera a chance de descobrir o que Rebecca desejava e, com sorte, teria lhe vendido uma imagem
positiva, de uma pessoa ntegra, honesta.
   Lamentavelmente, entretanto, Gabe nunca acreditara em finais felizes iguais aos dos contos de fada.
   Ficar ali deitado o estava deixando louco. Ele queria descer daquela pedra, caminhar de volta ao carro e chegar l antes de Tammy ir embora. Infelizmente, no
podia se mexer sem fazer barulho, o que iria revelar sua presena. Era preciso ter pacincia at Tammy ir embora, mas a cabea estava dando mil voltas, planejando
os prximos passos. Mesmo que ele tivesse que passar longos minutos atrs da senhorita Diller, segui-la no seria to difcil. Poderia alcan-la. Eram poucas as
estradas naquela regio, e seria fcil avistar o Cadillac amarelo.
   No sabia para onde Tammy iria depois dali, mas a intuio dizia que era para ele descobrir. Segui-la, ver o que faria depois, era a melhor maneira de descobrir
se ela estava triste ou se pretendia agir depois da informao que recebera de Rebecca.
   Mais tarde, acertaria as contas com a baixinha.

   As mos de Rebecca escorregavam do volante, midas devido ao nervosismo e  excitao. O Mazda preto desapareceu na estrada de volta a Las Vegas, chegando a mais
de cento e cinqenta quilmetros.por hora antes de ela perceber o quanto pisava fundo no acelerador. Era como se tentasse dominar um puro-sangue em Derby. Ele queria
correr como o vento.
   Rebecca tambm, e foi o que ela fez.
   Quase teve um ataque do corao ao ver Tammy. Embora a mulher tivesse tentado parecer diferente, ela era muito parecida com a irm mais velha de Rebecca, Lindsay.
No momento em que percebeu isso, diversas peas do quebra-cabea se juntaram.
   Tammy Diller era somente um nome falso para Tracey Ducet. Rebecca soubera que aquele nome no lhe era desconhecido. Soubera de toda a histria da mulher que,
mais de um ano antes, tentara se passar pela gmea de Lindsay, desaparecida ainda beb. Toda a famlia ficou muito chateada e protestou. No ligara os fatos at
o momento em que colocou os olhos nela.
   Tracey/Tammy era to descarada a ponto de correr o risco de se encontrar com Rebecca. Nenhum disfarce era bom o suficiente. Mas arrogncia e apostas em grandes
jogadas faziam parte da personalidade daquela mulher.
   Como se o ataque que teve ao reconhec-la no fosse suficiente, Rebecca quase teve um segundo quando Tracey/Tammy mencionou o fato de Mnica ter sido esfaqueada.
A arma usada no crime nunca tinha sido mencionada em nenhum dos jornais ou tablides. A polcia guardara aquela informao a sete chaves. Tinham evidncias suficientes
para acusar o irmo pelo crime, mas havia algumas perguntas sem resposta ? especialmente quanto ao nmero de impresses digitais presentes naquela faca de abrir
carta, uma pea antiga adornada com jias e a quem pertenciam aquelas impresses sujas. Devido ao nome da famlia Fortune estar envolvido no assassinato, o julgamento
ia ter destaque, e estavam muitos receosos de estrag-lo. Qualquer informao que pudesse afetar diretamente o julgamento fora, implacavelmente, mantida longe da
imprensa.
   Mas Tracey soubera. E dissera. Comentara sobre o esfaqueamento e a faca de abrir carta, adornada com jias.
   Isso era tudo que Rebecca precisara escutar para ter certeza de que a senhorita Ducet era a verdadeira assassina. No via a hora de estar longe daquela mulher.
No via a hora de voltar ao hotel, contar a Gabe ? e  polcia ? que eles tinham uma informao concreta que poderia ser usada para prender aquela mulher. E, pelo
amor de Deus, para livrar o irmo daquela horrvel cela.
   A estrada estivera relativamente vazia, mas havia um engarrafamento perto da cidade, e Rebecca estava to distrada que pegou vrias sadas erradas. Era muito
difcil se perder em Las Vegas ? os hotis mais importantes eram muito altos, com os nomes em letreiros luminosos ? mas ela, simplesmente, no conseguia se concentrar
e seguir as indicaes da estrada.
   Finalmente, conseguiu avistar o hotel Circus Circus, brigando consigo mesma por estar perdendo tempo demais, quando tudo o que queria era se apressar. Ela se
dirigiu ao estacionamento, retirou o bilhete da mquina e, num piscar de olhos, j estava na sombra depois de todo aquele sol. Encontraria Gabe no quarto dela. Como
ela ficou andando em crculos, pois se perdeu no caminho de volta, no dava para saber se ele chegara antes.
   No podia esperar para beber uma gasosa ? a garganta seca implorava por uma logo ? e para ver o rosto de Deverax quando ela lhe contasse o que descobrira sobre
Tracey. Sabia que ele a levaria a srio porque Gabe nunca falhara no trabalho. E nos olhos haveria um brilho de orgulho masculino ferido porque, pobre garoto, seu
ego realmente detestava quando ela descobria alguma coisa que ele ainda no sabia. Mas a ruivinha tinha a certeza de que o investigador ficaria feliz por ela. Talvez
o suficiente para esquecer que Rebecca tinha ignorado todas as ordens dada por ele de como deveria ser o encontro com Tracey.
   Gabe deveria saber agora ? principalmente depois da noite passada ? que ela no acatava ordens ou recomendaes de ningum. De repente, sentiu um aperto no peito.
Quando algum com quem se preocupava estava envolvido em algum problema, tinha a pssima mania de ignorar regras ? mas nunca tantas quanto as que quebrou com Deverax,
e nunca correndo tanto risco.
   Agora, entretanto, no era hora para pensar nisso. Como o primeiro andar do estacionamento estava lotado, tinha que ir para o segundo. Finalmente, encontrou uma
vaga para estacionar o Mazda. Desligou o motor, pegou a chave e a bolsa. Ela estava to agitada, que parecia um trem de carga descontrolado. O nervosismo era uma
frentica confuso diante da expectativa de ver Gabe e da emoo do encontro com Tracey.
   Desceu do carro e o trancou, depois deu a volta. No havia nada a no ser silncio e concreto em todas as direes. A rampa do estacionamento estava escura. Por
um momento, Rebecca ficou desorientada, sem saber onde era a sada ou como voltaria para o hotel.
   ? Ei!
   Virou a cabea ao ouvir a voz do homem. Em um primeiro instante, no lhe pareceu estranho que um desconhecido pudesse cham-la ? Las Vegas era um lugar turstico,
ento, era natural que as pessoas puxassem conversa umas com as outras, num tom de camaradagem, em praticamente todos os lugares. E a primeira coisa que viu foi
o sorriso do homem. Sua mente registrou outros detalhes, como o fato de ser alto e louro e usar roupas tpicas de um turista, uma aparncia jovial para um homem
nos seus trinta e poucos anos... De repente, ela se lembrou.
   Tammy tinha um comparsa. Era uma das razes pelas quais deveria ter relacionado Tammy a Tracey. Um namorado fizera parte do golpe que Tracey tentara aplicar na
famlia Fortune da primeira vez. Dwayne, Wayne, alguma coisa assim... Embora pressentisse algum perigo, era muito tarde. Naqueles poucos segundos, ele j havia se
aproximado dela. Mesmo com pouca luz, dava para ver claramente o sorriso maroto e educado, uma expresso cordial.
   Foi quando viu algo de prata brilhando na mo direita do homem. Continuava sorrindo quando ergueu a lmina.
   No havia ningum  vista, nenhum barulho ou movimento indicando que pudesse haver algum por perto. Mas isso no foi empecilho para a senhorita Fortune. Encheu
os pulmes de ar como se fosse gritar, mas to alto, a ponto de acordar at um defunto.
   O grito nunca aconteceu. Mal conseguiu dar um chiado antes de ele segur-la, prend-la, puxando-lhe o brao com fora e deixando-o bem apertado atrs das costas.
No dava para no sentir o cheiro forte e enjoativo da colnia masculina que ele usava. De repente, Rebecca no conseguia mais respirar. A lmina de prata refletia
uma luz bonita, brilhante, na parede de concreto que estava distante, mas a faca estava bem encostada na garganta. Podia sentir perfeitamente a ponta da lmina.
A sensao era de pnico, como se estivesse borbulhando em meio a uma repentina onda gigante.
   O nome Wayne Potts veio  mente como uma bala que tivesse sido disparada. Uma bala sem utilidade porque no adiantava mais juntar todos os detalhes agora, no
havia arma que pudesse proteg-la naquele momento. Deveria ter sido mais cuidadosa. Deveria ter acreditado na intuio e tentado lembrar por que toda a histria
de Tammy Diller e do namorado a perturbaram tanto antes. Mas todas essas hipteses no eram nada se comparadas ao que sentia com aquela lmina fria e afiada encostada
na garganta.
   ? Est atrasada, senhorita Fortune. Eu a esperava h uns bons vinte minutos, e estava comeando a querer saber que diabos teria acontecido. Por acaso se perdeu?
Voc levou muito tempo para dirigir apenas vinte e cinco quilmetros.
   Ele queria conversar? Rebecca estava to nervosa que era capaz de molhar as calas, descarregar toda a histeria, se desmanchar em uma poa de terror... Talvez
as trs coisas ao mesmo tempo. No havia jeito de se concentrar em outra coisa a no ser naquela faca, to perto, quase furando-lhe o pescoo. Por outro lado, enquanto
Wayne falasse, ela no morreria.
   ? Como soube meu nome?
   ? No foi difcil. Os telefones nos carros so uma inveno tecnolgica maravilhosa, no acha? Escutei tudo sobre voc. Tracey no conseguiu esperar para me contar
tudo a seu respeito. E voc jogou direitinho, querida. Convenceu Tracey de que era inocente como um gatinho recm-nascido... Ela no tinha dvida nenhuma de que
voc acreditara em tudo o que lhe disse. Mas eu aprendi cedo a distinguir o falso do original.
   O comparsa de Tracey/Tammy puxou-lhe o brao novamente, fazendo com que os olhos dela ardessem com lgrimas quentes. Por baixo do cheiro enjoativo da colnia
masculina havia ainda o fedor do suor. Um suor de ansiedade. Wayne gostava disso, ela compreendeu que era um instinto primrio. No conseguia falar, nem para salvar
a prpria vida.
   ? No entendo. No tenho a menor idia do que voc est falando. Nunca ouvi falar de nenhuma Tracey.
   Soltou uma risada bem-humorada, bem perto do ouvido de Rebecca.
   ? Boa tentativa, garota. Mas no tentaria mentir para um profissional. Voc reconheceu Tracey imediatamente, no foi? Claro que sim. Ela se parece muito com a
sua irm mais velha. Disse a Tracey que no era uma boa idia marcar aquele encontro, mas ela no me ouviu, disse que era muito importante descobrirmos o que voc
sabia. E ns descobrimos a resposta, no foi? Voc sabe muito.
   De repente, do nada, surgiu o barulho de algum cantando pneus. A interrupo foi suficiente para distra-lo. No a Rebecca. Quando Wayne virou a cabea para
ver o que era, a faca ficou mais presa ao pescoo, furando-o, ela sentia o sangue na lmina. No podia, de jeito nenhum, se arriscar a mexer a cabea, nem por uma
frao de segundo. Mas conseguiu ver, com o rabo do olho, o teto branco do carro alugado por Gabe correndo na curva da rampa do estacionamento.
   O motor zunia, acelerando como se fosse um jatinho se preparando para decolar, vindo em direo a eles como se quisesse massacr-los. Em vez disso, j fora do
raio de viso, Rebecca escutou estilhaos, metais sendo esmagados, quando Deverax bateu no carro estacionado ao lado do dela. As rodas ainda estavam em movimento,
o motor continuava funcionando, no momento em que a porta do motorista se abriu.
   Tudo foi muito rpido. Se Wayne fosse inteligente, sem dvida, teria imaginado que estava segurando a carta mais valiosa, e o melhor a fazer seria segur-la com
mais fora ainda. Mas no havia tempo para nada a no ser para uma reao instintiva, e Wayne reagiu correndo.
   A lmina roou o pescoo dela, num movimento rpido, como a picada de um inseto. Ento, Wayne a largou. Ela estava livre. Mas Rebecca bateu com o abdmen no capo
do carro, se machucando. Por um segundo, perdeu o equilbrio, o flego; e tudo o que realmente queria fazer era ficar de joelhos e gritar muito e bem alto ? ento
ela viu Gabe. Ele vinha em sua direo, rapidamente, com um olhar assustador.
   ? Gabe, ele tem uma faca! ? gritou, mas foi como se estivesse falando com um jato. Um jato surdo. Deverax voou em cima de Wayne e se atracou com ele de forma
que os dois rolaram no cho. A faca voou no ar, caiu e foi parar embaixo de um carro, perdendo-se de vista.
   Gabe estava torcendo o vigarista, puxando-o, esticando um brao para trs. Deu-lhe um soco no estmago, fazendo com que se dobrasse de dor e gritasse bem alto.
Deverax o segurou novamente, como se ele no pesasse mais do que um cachorro, esbofeteou-lhe vrias vezes e, depois, esmurrou-lhe com fora, jogando-o contra a parede
de cimento. Wayne comeou a gritar e a chorar, tentando ir embora, tentando se proteger.
   Rebecca gelou, a mo na altura do estmago. Bastante assustada para saber o que deveria fazer naquele instante ? ajudar Gabe, obviamente, mas como? Pegar a faca?
Chamar a polcia. Mas como poderia deix-lo?
   Foi quando o som do motor de um carro se juntou  confuso ? eram apenas turistas, um casal idoso que, sem saber de nada, escolhera aquele momento para procurar
uma vaga no estacionamento. Rebecca se jogou no meio da pista para bloquear a passagem deles, acenando descontrolada para que o motorista parasse. Dois pares de
olhos se fixaram nela, atravs do pra-brisas, ambos confusos e assustados.
   ? Somente deixe o carro aqui e chame a polcia -por favor! ? ela gritou. Quando percebeu que continuavam ali sentados, em estado de choque, gritou novamente.
? Andem! Entrem no hotel e chamem a polcia! Por favor!
   Tanto o homem quanto a mulher saram rapidamente do carro. O senhor de cabelos brancos ainda se lembrou de perguntar:
   ? Voc est bem?
   ? Estou bem, estou bem ? assegurou-lhes, mas assim que os perdeu de vista, pensou que nunca estivera to "mal" em toda a vida. Quando se virou para ver Gabe dando
outro soco no estmago de Wayne, pensou que Deverax tambm no estava bem.
   Ele a estava assustando. Talvez fosse o outro homem que estivesse sendo espancado, mas algum instinto feminino, que ela no sabia o nome, dizia que Gabe estava
levando uma surra diferente. Nunca o vira com tanta raiva. Nunca vira um pingo de violncia, em seus olhos, em suas aes. Por instinto, Rebecca gritou:
   ? Gabe, ele no me machucou! Estou bem.
   No houve nenhuma reao imediata. Rebecca no tinha certeza se ele a ouvira, se a vira, nem mesmo se sabia que ela estava ali. Correu em sua direo, ainda sem
saber o que fazer, o que poderia fazer, o que precisava ser feito.  medida que chegava mais perto, podia ver com mais clareza a raiva no rosto de Gabe. Deus, aquela
cena ficou em sua mente como um terrvel pesadelo.
   ? Estou bem. Ele no me machucou ? repetiu, e depois voltou a repetir.
   Finalmente, ele a escutou. Talvez parasse. Wayne encostou-se na parede de concreto, depois se ajoelhou no cho, respirando com dificuldade e chorando. Por um
instante, parecia no acreditar que Gabe parra de bater em Wayne e o largara, mas, de qualquer forma, no iria a lugar nenhum.
   Portas se abriram. Pessoas comearam a correr. Rebecca viu policiais fardados correndo em sua direo, ouviu o som da sirene, e fechou os olhos por um segundo
para tentar, s tentar, recuperar o flego.
   Quando abriu os olhos, em vez de todo o barulho, da gritaria e da multido ao redor, tudo o que realmente viu foi o olhar de Gabe a uns dois metros, encontrando
o dela como se no houvesse uma s alma em todo o universo, a no ser os dois.

   Captulo 10

   Gabe bateu  porta do banheiro.
   ? Servio de quarto.
   Escutou uma risada abafada.
   ? No momento, o servio de quarto ficaria envolto em espuma. Ainda estou na banheira, Gabe. Vou sair logo.
   ? No tenha pressa para sair. Quanto mais tempo voc ficar a, melhor. Mas essa canja vai esfriar. Por que no pega uma dessas toalhas extras e se enrola nela,
de forma que eu possa levar a comida a dentro?
   ? Est sugerindo que eu jante na banheira? ? Ele escutou um suspiro. ? Mas que idia decadente, vergonhosa, descarada.
   ? Isso significa no, ou significa que colocou a toalha?
   ? Isso significa que eu coloquei a toalha e que no posso acreditar que conseguiu que o servio de quarto lhe preparasse uma canja.
   Teve que segurar a bandeja com uma mo para abrir a porta. O banheiro estava repleto de vapor com uma fragrncia extica, sensual, feminina, semelhante ao perfume
do jasmim. O cheiro despertava qualquer hormnio masculino, mas, sendo to respeitador quanto um monge, Gabe manteve os olhos longe do corpo de Rebecca. No fazia
sentido em dizer  baixinha que ele encontraria uma forma de suborno para entrar ali se a histria da canja no funcionasse. Fazia menos sentido ainda dizer-lhe
que estava determinado a v-la nua.
   Rebecca lhe dissera ? mais de uma dezena de vezes ? que estava "bem". Ele vira o corte longo e fino que aquele desgraado fizera no pescoo da ruivinha. Antes,
entretanto, como ela estivera vestida da cabea aos ps, no houvera jeito de saber se o maldito a tinha machucado em algum outro lugar. Acreditar que Rebecca admitiria
estar machucada era algo improvvel de acontecer.
   ? Bem, voc sabe que eu no levo muito jeito com isso, no sou garom. Se, por acaso, eu derrubar a canja na banheira, pode esquecer a gorjeta. ? Com o olhar
ainda desviado, deixou a bandeja na pia, depois, fechou imediatamente a porta de forma que o vapor continuasse concentrado. ? Primeiro a colher, madame. Depois,
a tigela. Eles lhe deram um guardanapo de linho para essa elegante refeio, mas, na minha opinio, acho que no faria sentido prend-lo embaixo do queixo. Vamos
coloc-lo perto. E uma vez que somos apenas ns dois, estou avisando agora que no h problema se voc arrotar.
   Ela riu, mas no parecia a sua risada e nem foi longa. Ainda agindo como um perfeito cavalheiro, se ajoelhou perto da banheira e serviu a comida sem espi-la.
   Enquanto Rebecca se deliciava com aquela tigela de sopa, Gabe usou o assento do vaso sanitrio como cadeira esperando que ela terminasse. O calor foi pretexto
para tirar os sapatos e as meias, mas isso foi s para parecer ocupado. Na verdade, ele no desgrudava o olhar de cima da ruivinha, ele a espiava pelos cantos dos
olhos.
   O cabelo encaracolado, devido  umidade, tinha se transformado em uma aurola nas cores granada e canela. Fios molhados caam na testa e na nuca. Ela amarrou
a toalha molhada, escondendo os seios, mas aquelas toalhas de hotel, graas a Deus, eram pequenas por natureza.
   A pele era mais branca que neve, e ele podia ver boa parte dela. O pequeno corte no pescoo de Rebecca, causado por aquela faca, revirava-lhe o estmago. Assim
como a mancha roxa na coxa, e ainda havia mais outras duas nos antebraos ? manchas de machucados como se fossem marcas das mos dele. Aquele crpula a atacara com
violncia. Poderia ter sido pior, Gabe ficou dizendo isso a si mesmo. Mas para ele foi pior.
   O lugar onde Rebecca estava mais machucada no aparecia em arranhes e hematomas. Era nos olhos. No havia provocao naqueles olhos verdes hoje  noite, nem
brilho; ela devorou a sopa com apetite, mas o olhar percorria tudo ao redor com uma certa rapidez, parecia um coelho assustado, olhando o nada. Ela ainda via perigo.
Ainda sentia medo.
   Trs horas se passaram desde que os policiais esbofetearam Wayne e o levaram. Todas as perguntas dos policiais foram respondidas, toda a comoo acabara. A baixinha
mantivera o sangue frio, permanecera calma. Parecia no saber que quando se passa por uma situao traumtica e aterrorizante, mais cedo ou mais tarde, sempre h
alguma reao.
   ? Como chegou a pensar em canja? Quer dizer que o seu lado maternal tem ficado escondido durante todo esse tempo? ? Rebecca perguntou, provocando-o.
   ? No tire concluses precipitadas. S consegui pensar em sopa. No imaginei que voc estivesse com vontade de comer algo mais pesado.
   ? Bem, acertou. Eu no conseguiria comer carne de jeito nenhum, no hoje  noite... Acha que a polcia j prendeu Tracey?
   De volta ao assunto Tracey/Wayne. J tinham falado tudo a respeito, mas Gabe no se surpreendia que ela voltasse ao tema.
   ? Acho que as chances so excelentes. Tracey no tinha como saber o que acontecera com o comparsa, nenhuma razo para imaginar que algo dera errado. Deve ter
ido direto para casa para conversar com Wayne. Eu acho que os policiais no tiveram muito trabalho em localiz-la.
   ? Acha que devo ligar para a minha me de novo?
   ? Aposto que Kate no trocou de companhia telefnica desde que voc ligou para ela da primeira vez. Como lhe disse, ela teve uma intuio a respeito da correlao
Tammy Diller/Tracey Ducet, suficiente para me fazer pesquisar o nome Ducet no sistema de computao dos bancos. A mulher era to habilidosa em trocar de nome e de
identidade que levou tempo para rastrear os antecedentes. Teramos conseguido. Mas no to rpido como tudo aconteceu. E a questo  a seguinte, conhecendo sua me,
ela vai se meter nisso, vai mexer no vespeiro e arranjar confuso. Aposto que Kate j acionou todos os advogados envolvidos no caso do seu irmo.
   ? Isso vai fazer alguma diferena, no vai, Gabe?
   ? Pode apostar que sim.
   ? No posso dizer que eu quero me encontrar novamente com Wayne e uma faca. Ou com aquela mulher horrvel. Mas valeu a pena. Se algo como isso no tivesse acontecido
? algo real, concreto ? nunca teramos sido capazes de forar Tracey a se revelar. Por mais que estivesse envolvida em alguma situao ilegal, no havia nenhuma
correlao com o assassinato de Mnica. Antes disso, no havia uma correlao provvel.
   ? Sim. ? Gabe teve que concordar. O que ele queria mesmo era repreend-la por ter ignorado o que haviam combinado e corrido riscos desnecessrios. Mas podia esperar.
Brigaria com Rebecca porque ela merecia. Mas no hoje  noite; definitivamente, no hoje  noite.
   Rebecca o olhou com doura. A maldita mulher no sabia como eles estavam assustados.
   ? Ainda no entendo como me encontrou to rpido. J tinham conversado a respeito disso antes, tambm, mas Gabe, com pacincia, voltou a explicar.
   ? Minha inteno era seguir Tammy/Tracey, como lhe disse, porque logo vi que alguma coisa naquele encontro assustou voc. Minha primeira idia foi segui-la, descobrir
exatamente onde ela estava indo e o que pretendia fazer em seguida. E era o que estava fazendo at v-la se abaixando, enquanto dirigia, e levando um celular at
o ouvido. A nica pessoa para quem ela poderia estar ligando seria para o comparsa. E se estivesse contando tudo o que acontecera ao namorado, isso significava ?
at onde eu sabia ? que qualquer coisa que ela estava fazendo deixava de ser prioridade. Agora, ele era uma ameaa em potencial para voc.
   Rebecca terminou de comer, ficando em silncio. Quando a tigela esvaziou, Gabe pegou a loua e colocou tudo de volta na bandeja. Entretanto, podia senti-la seguindo-o
com o olhar. Por alguns minutos, a ruivinha analisou o rosto de Deverax, cada ruga, cada linha de expresso.
   ? Quer tirar isso do peito ou no? ? perguntou diretamente.
   ? Tirar o qu do peito?
   ? Que se dane que eu saiba. Ns j falamos sobre o que aconteceu... Ou sobre boa parte do que aconteceu... Mais de seis vezes. Mas voc parece evitar falar de
alguma coisa que est martelando na sua cabea, como se isso fosse machuc-la.
   Ela o encarou novamente, engoliu em seco e, depois, balanou a cabea devagar, concordando com Gabe.
   ? Eu fiquei assustada quando voc estava batendo em Wayne. Tive medo que no parasse.
   ? Aquele canalha tentou matar voc.
   ? Ele era um qualquer. Um fracote. No era preo para voc.
   ? Tentou mat-la ? Gabe repetiu e, ento, suspirou. Para ele, aquilo era o ponto final e pronto. Qualquer homem entenderia isso, mas Rebecca nunca pensaria como
um homem. ? Se pensa que eu sinto prazer mediante uma situao de violncia, pode ficar tranqila, ruivinha. Detesto esse tipo de coisa. E o trabalho investigativo
no  nada como se v na TV, tambm no tem nada a ver com o trabalho que realizei quando era militar. Raramente eu resolvo um problema brigando. Mas, s vezes,
 a nica escolha que temos.
   ? Mas voc queria machuc-lo ? disse, preocupada.
   ? Pode apostar que sim. E sei como machucar um homem. Mas, ao contrrio do que voc possa pensar, eu estava controlado, nunca me permitiria perder o controle.
Queremos aquelas figuras bem vivas,de forma que os policiais possam prend-los e eles possam testemunhar no tribunal. Nunca iria machuc-lo a ponto de prejudicar
a situao de Jake.
   ? E o que aconteceria se no houvesse nenhum problema do meu irmo com a justia?
   Gabe suspirou de novo.
   ? Baixinha, no posso dar uma resposta que v gostar. Aquele idiota no estava brincando. Ele ameaava a sua vida. Se voc quisesse que eu desse uns tapas nas
mos dele e dissesse no, no, isso nunca aconteceria. No h garantias do que a lei vai fazer com Wayne, ento, quis que eu tivesse certeza e entendesse claramente
que era para no se aproximar de voc novamente. Wayne no  um bom garoto.  um desses animais que nunca evoluiu. E quando voc est tentando se comunicar com um
animal, s vezes, no adianta ser educado.
   ? Tudo bem. Eu entendo. Mas ainda me faz mal pensar que bateu em algum por minha causa.
   Gabe no sabia o que dizer. Alguma coisa estava estranha nessa conversa toda. Ela estava escutando, encarando-o de uma forma direta e sincera. Mas alguma coisa,
na forma como Rebecca o olhava, mexia com os seus hormnios e o deixava ansioso e bastante preocupado.
   Ele precisava pensar em algo positivo. A ltima coisa no mundo que podia povoar a mente era sexo. Ela estava machucada e nervosa, mais plida do que porcelana,
os olhos continuavam demonstrando ansiedade e permaneciam vulnerveis. Era o momento mais imprprio para descobrir que ela era linda. E era ainda mais ilgico e
irracional sentir desejo... Um desejo to forte que o dominava como se o chicoteasse.
   ? Gabe?
   ? O qu? ? Ele esfregou o rosto com uma das mos, desejando que os pensamentos incontrolveis desaparecessem de sua mente. A origem de todo esse tumulto de emoes
era bvia. Enlouqueceu quando viu aquele canalha com a faca no pescoo dela. Foi por pouco que no a perdera. Por muito pouco mesmo. Mas no a perdera. Ela estava
em segurana, bem, e com ele. E se pudesse se convencer daquela verdade, talvez conseguisse acalmar o corao.
   ? Levou muito tempo ? disse Rebecca ? mas, finalmente, voc agora acredita na inocncia do meu irmo, no acredita?
   Tudo se aquietara.
   ? Sim, acredito. No que importasse o que eu pensasse. O que importava era que ns ramos capazes de encontrar evidncias que apontassem para outro suspeito vivel.
 impossvel saber se Tracey vai responder por assassinato. Acho que isso depende do que os tiras apuraram depois de interrog-la. Mas um jri precisaria ser surdo
e imbecil o bastante para no ver que seu irmo  totalmente inocente.
   Rebecca ficou zangada.
   ? O que voc pensa  importante para mim. Ningum antes acreditou em mim com relao  inocncia de Jake.
   ? Sim, bem, sua intuio  muito forte, baixinha. Algumas pessoas se sentem mais confortveis acreditando meramente em fatos. ? De repente, ele se levantou assustado,
como um puma enjaulado. Isso no foi bom. Quanto mais a olhava, mais perdia a noo do bom senso. ? Voc vai virar uma ameixa seca se no sair da. Vou para o quarto.
Tem um robe aqui?
   Assim que perguntou, notou o quimono branco de seda pendurado atrs da porta. Imagin-la nua por debaixo daquele quimono no iria ajud-lo a colocar a cabea
em ordem.
   ? Olhe ? disse com impacincia. ? Vou ficar aqui esperando at voc adormecer, ok? Deve ter alguma comdia na TV. E ns podemos pedir mais comida se ainda estiver
com fome. Voc pode esticar as pernas e relaxar at adormecer.
   ? Estou bem, Gabe.
   Ela j tinha dito isso diversas vezes. Mas ele no acreditava.
   De volta ao quarto, ele ficou mais agitado do que uma galinha tomando conta da prpria ninhada. As cortinas estavam abertas; ele, imediatamente, as fechou. A
luz no teto estava acesa; ele apagou. Depois, dobrou a coberta da cama, empilhou alguns travesseiros, ficou com o controle remoto at encontrar o programa mais bobo,
divertido que estivesse no ar, e deixou o volume da TV baixo.
   Durante todo o tempo em que esteve  procura de um programa na TV, a pulsao lembrava incessantes batidas surdas de tambores. Hitchcock sempre colocava rufos
de tambores em seus filmes, nas cenas em que algum desastre estava prestes a acontecer. Mas a situao que ele estava vivenciando no tinha nada a ver com os filmes
de Hitchcock. Os desastres j tinham acontecido, tudo terminara. Ele sabia que Rebecca estava triste, isso era tudo. No sabia se ela j havia presenciado o perigo
to perto. Ele ficaria surpreso se a ruivinha no tivesse pesadelos nessa noite.
   Passou a mo no cabelo enquanto dava uma olhada em todo o quarto. Decidiu que sentaria no canto, ficando afastado da cama. Ele ficaria longe dela, fisicamente.
No havia razo para dizer  baixinha que planejava passar a noite ali. Ela ficaria chateada. E, mais cedo ou mais tarde, ela adormeceria. E, se tivesse pesadelos,
ele j estaria l.
   Sentiu novamente como se um tambor estivesse rufando no peito, um ritmo pesado, vagaroso, traioeiro, pago, que ele no podia explicar. Era... idiota. No era
como se sentisse a falta dela durante toda a vida. No era como se tivesse ido  loucura quando viu as mos de Wayne em cima dela. No era como se no pudesse afastar
o temor de que nada em sua vida ficaria bem se ele a perdesse.
   Estava tendo um pequeno problema para se acalmar essa noite. Normalmente, ele se dava bem em situaes estressantes. Mas que droga, amava o estresse. Bastava
saber que Rebecca ainda sofria, devido ao que acontecera, para deix-lo... nervoso, sem saber o que poderia acontecer. Assim que a baixinha estivesse segura e se
sentisse aconchegada na cama, ele tambm estaria bem.
   No entanto, quando a porta do banheiro se abriu e ela saiu de l, vestida com aquele quimono de seda, tanta suavidade a um passo do pecado, Rebecca sequer olhou
para a cama.
   Caminhou direto para os braos dele.
   ? Eu estava to assustada.
   ? Eu sei disso.
   ? Nunca fiquei to assustada. Primeiro, com Tracey. Tanta frieza no olhar. Parecia que, do outro lado, no havia um ser humano com sentimentos. Sei que no faz
sentido, mas eu acho que fiquei mais assustada com ela do que com Wayne. E quando ele me agarrou... Gabe, no conseguia acreditar que aquele cara realmente pretendia
me matar, que qualquer ser humano pudesse machucar algum com tanta facilidade.
   ? Est tudo bem. Tudo bem. Jamais vai ter que ficar perto de pessoas assim de novo. Ningum vai machucar voc agora. Acabou.
   Quando saiu do banheiro, Rebecca no imaginava que iria ficar assim, balbuciando desse jeito. No imaginava que, de repente, se sentiria desesperada por um abrao,
por um contato fsico, pelo calor de braos ao redor dela. No sabia que seria dominada por aqueles impulsos, to arrebatadoramente fortes.
   No entanto, no ficou surpresa ao perceber que precisava de Gabe e ao acreditar que ele estaria l  espera dela.
   Ele tambm a queria.
   Rebecca escutou a voz dele, suave, calma, entoando palavras de consolo como se fosse uma ladainha... Mas havia algo estranho na voz dele, como a dor de uma ferida
recm-aberta. Ela se perguntava se Gabe sabia que estava sofrendo. O rosto estava desolado e cor de prata, devido  fraca luz que vinha da tela da televiso, e os
olhos estavam profundos e negros como bano. Os braos estavam ao redor dela, os msculos rgidos e tensos. Pareciam um fio de arame, que, de to esticado, poderia
romper a qualquer momento.
   Deverax a abraou com fora, de uma maneira diferente. Aquelas palavras de consolo... A voz foi diminuindo at ficar no mais completo silncio. E, de repente,
do nada, como se por acaso, as duas bocas estavam quase se tocando.
   Ela precisara desesperadamente de um abrao. Precisava de Gabe. Mas sem qualquer conotao sexual. O estresse e o medo do dia tinham, simplesmente, explodido.
Tivera que deixar tudo vir  tona.
   E, pelo que parecia, ele tambm.
   Gabe sussurrou algo, os lbios dele tocaram os de Rebecca e, depois, ambos ficaram presos um ao outro. Os beijos eram dominados por uma paixo desenfreada. O
jeito selvagem de Gabe, parecendo um lobo, despertou na ruivinha um desejo forte, primitivo, mas era muito mais do que isso.
   As bocas se tocaram com ternura, uma ternura destruidora que a balanava por dentro. Aquele primeiro beijo foi quase, desesperadamente, suave.
   Os lbios dele estavam se rendendo, quentes, ficando dependentes da mesma forma que as chamas rodeiam um tronco de madeira na lareira. No havia fogo se no houvesse
essa fonte de calor. Naquele momento, Rebecca sentiu que ela era a nica fonte de calor para Gabe.
   As mos de Deverax percorriam as costas dela, acariciando-a, afagando-a, como se estivesse polindo a pele dela por debaixo do fino robe de seda, como se no pudesse
parar de toc-la.
   Uma risada ecoava da TV, mas era fraca, distante. Quando ele ergueu a cabea, Rebecca chocou-se ao ver tanto desejo no olhar.
   Gabe no imaginara que ia beij-la.
   Rebecca suspeitava que Gabe ainda no sabia que iam fazer amor.
   Mas ela sabia. Deverax abaixou a cabea novamente. Um beijo atrs do outro, um beijo se fundindo a outro. Os dedos de Rebecca encontraram os botes da camisa
dele. As mos de Gabe se perderam nos cabelos da ruivinha, segurando-a bem perto.
   Talvez no soubesse que estava demonstrando amor, mas aquela era a forma mais clara e profunda que tinha de mostrar a Rebecca sua emoo. No  primeira vez,
mas a ruivinha percebeu que ele se parecia muito com o irmo Jake. No era homem que pudesse sobreviver ficando preso, atrs das grades, para sempre. s vezes, era
preciso deixar os sentimentos flurem. s vezes, mesmo que estivesse assustado e no houvesse ningum do outro lado do abismo, tinha que correr o risco e procurar.
Negar a vontade no ajudaria em nada. O desejo no iria sumir.
   Ela afrouxou o cinto e desabotoou as calas de Gabe. Ele tambm estava ocupado. Tirava, devagar, o robe de Rebecca, deslizando-o pelos ombros, depois pelos braos.
O quimono caiu no cho, no mais completo silncio.
   O olhar de Gabe queimava, era puro fogo, ao v-la nua. O semblante ficou srio, quase sisudo. A luz prateada iluminava sua nudez enquanto ele a deitava na cama.
O colcho era um apoio bem-vindo para aquele corpo enroscado, envergonhado, para os arrepios desenfreados que comeavam a percorrer-lhe.
   Ele murmurou
   ? Droga, Rebecca ? mas a voz rouca parecia uma carcia masculina.
   O homem ia conduzi-la a um comportamento selvagem, irresponsvel, se no tivesse cuidado. Particularmente, ela estava perdendo todo o interesse em ser cuidadosa.
Pensou no ambiente violento no qual ele cresceu. Pensou no quanto ficou preocupada ao v-lo batendo em Wayne ? no por causa daquele verme ? mas por Gabe. Pensou
em um homem que seria capaz de matar para proteg-la, mesmo que isso fosse de encontro aos prprios princpios. Mesmo que isso fizesse com que ele se lembrasse de
tudo de ruim e doloroso que viveu na infncia. Gabe tambm tinha alguns medos. Medo de pertencer a algum. Medo de querer algum. Medo de qualquer coisa boa na vida
que, droga, pudesse torn-lo dependente.
   Bem, ele estava se soltando, ficando leve, essa noite ? mesmo que temesse isso, ou no. Pertenceria a algum.
   As duas lnguas duelaram num beijo quente, molhado. As pontas dos dedos e as palmas das mos deslizaram pelo pescoo, pelos ombros e pelos cabelos espessos do
peito. Ele a tocava tambm. As mos de Gabe se lembravam dos lugares em que ela estava machucada e ferida, porque demonstrava uma vontade cega de tocar aqueles lugares,
apagando os momentos difceis, substituindo a violncia anteriormente vivenciada por gentileza. E ele era gentil. Mas o desejo aumentava entre os dois, crescendo
num ritmo acelerado, ela podia senti-lo contra o seu abdmen, ele estava quente, excitado.
   Rebecca puxou-lhe as calas, e ganhou dele uma risada rouca, baixa por ser to impaciente. Era cedo ainda, pensou. Gabe sequer tinha visto o que uma moa podia
fazer num frenesi de impacincia ? mas ela lhe mostrou o melhor que podia fazer. A colcha caiu sob o carpete. Os travesseiros pareciam que iam voar. Os cobertores
ficaram amarrotados. Mesmo rolando com ele em todas as direes, mesmo beijando-o em todos os lugares que ela alcanava, mesmo tocando-o de todas as formas que sabia
e podia... Nada disso parecia acalmar o desejo que a ruivinha sentia de am-lo.
   Tanto desejo estava comeando a assust-la. Isso no tinha nada a ver com nenhum livro que ensina o bsico sobre sexo. Gabe no era como os homens que conhecera,
em nenhum sentido. Ele correspondia intensamente a cada toque, explodindo de prazer a cada carcia. O resto do universo poderia morrer de repente. S havia ele,
renascendo, para ela, com ela. E essa fogueira de frustrao que continuava crescendo, como uma dor que dilacerava e queimava, no iria parar.
   ? Espere ? sussurrou ele.
   ? No ? sussurrou ela de volta.
   Mas ele se afastou por um momento para terminar de tirar o resto das roupas. Ao voltar para ela, pegou uma coisa no bolso das calas de jeans. Proteo.
   Ela viu o preservativo e, de repente, sentiu medo. Talvez no fosse consciente, mas o corao sabia que Deverax era o homem que ela queria para ser o pai dos
seus filhos. Outro pensamento se seguiu quele primeiro. No podia reclamar, no podia dizer nada, porque conhecia Gabe. Nem em meio a um incndio, a uma avalanche,
ele iria perder o senso de honra e responsabilidade, e proteger uma mulher fazia parte da essncia de Gabriel Deverax.
   Ele cuidou disso. E, ento, cuidou dela.
   Rebecca queria am-lo, mas Gabe conhecia muito melhor do que ela as particularidades daquela tortura. Com um dedo, Gabe a tocou, acariciando-a para ver se estava
molhada e pronta, uma promessa excitante do que estava por vir. Ela puxou-lhe o rosto para baixo para um outro beijo, entrelaou as pernas nele para lhe mostrar
que no estava interessada nessa provocao. Ele podia parar ou morrer.
    medida que Gabe se aproximava, Rebecca podia ver um sorriso malicioso no olhar, mas, no momento em que os corpos comearam a se fundir em um s, aquele sorriso
desapareceu. Gabe parecia srio, e os olhos tinham um brilho de carinho e desejo. Ele no estava para brincadeiras. Nem ela. Ele a preencheu, devagar e com vontade,
conscientizando-a do quanto se sentia vazia sem ele, fazendo-a perceber o que significava pertencer a ele.
   ? Eu amo voc ? sussurrou ela. As palavras deslizaram novamente, de forma to natural, sem que ela pudesse fazer nada. O primeiro impulso os deixou mais unidos,
mas a velocidade e o ritmo crescentes que se seguiram pareciam incendiar aquela unio de almas. Com Gabe, ela se sentia livre para ser selvagem, honesta, para ser
ela mesma, como se no houvesse nada que precisasse reprimir. Confessar seu amor fazia parte do momento. Se podia lhe dar algum presente, era faz-lo experimentar
a mesma liberdade com ela.
   Gabe parecia se sentir livre tambm. A pele ficou oleosa e escorregadia, parecia dourada  meia-luz. O mesmo aconteceu com Rebecca, a pele da ruivinha irradiava
brilho e calor. Se ele conhecera o prazer antes, havia surpresa nos olhos agora, uma admirao que transbordava em beijos e carcias. Comearam uma brincadeira da
qual nenhum dos dois queria chegar ao final, um alegre teste para ver o quanto conseguiam driblar o destino, agentando firmes aquele desejo que queimava cada vez
mais rpido.
   Alguma coisa aconteceu. Rebecca no reconheceu de imediato o que poderia ter dado errado. De repente, quando o ritmo galopante diminuiu, Rebecca notou que alguma
coisa mudara na expresso de Gabe, e ele parecia perder a respirao.
   Deverax soube antes dela que o preservativo se rompera.


   Captulo 11

   Gabe tambm no podia ou no queria parar. Rebecca sequer pensou em tentar. A paixo que explodia entre os dois era mais que uma montanha-russa rumo  satisfao
fsica. Era fidelidade. Para a ruivinha, tudo relacionado a fazer amor com ele estava certo, as emoes afloraram e incendiaram devido  liberdade que sentiu com
Gabe. O amor lhe deu um presente muito vulnervel para ser compartilhado. Deverax tocara a alma dela e, por dentro, Rebecca fervia de desejo para toc-lo da mesma
forma.
   Depois, a sensao de intimidade com ele era to poderosa. Levou uma eternidade para que o corao voltasse a bater normalmente. O dele tambm. De alguma forma,
a baixinha se sentia parte dele. Gabe se mudou para o lado dela, abraando-a ainda mais. O rosto, os olhos, as linhas do pescoo, o cabelo despenteado... Ela no
conseguia deixar de olhar, no conseguia parar de toc-lo. E ele a puxou de volta, beijou-a, como se descobrisse o mesmo desejo que ela tivera em fazer amor.
   Por um bom tempo, permaneceram assim, dividindo o travesseiro, sem falar nada exceto com os olhos. De repente, entretanto, Gabe murmurou que precisava se levantar.
Permaneceu alguns minutos no banheiro. Quando voltou, desligou a televiso, apagou a luz e voltou para a cama.
   Mas alguma coisa drstica mudara naqueles poucos momentos. Exceto por um feixe de luz que entrava furtivamente por uma fresta das cortinas, o quarto estava to
escuro quanto uma caverna. A senhorita Fortune no podia ver os olhos dele, nem a expresso. Quando Gabe entrou novamente debaixo das cobertas, Rebecca entendeu
que ele ia passar a noite ali. Deverax ? no importava que outras emoes sentia ? no era o tipo de homem que fazia sexo com uma mulher e ia embora logo depois.
   Mas a pele estava fria ao invs de quente. E Gabe no estava mais relaxado, os msculos das pernas e dos braos estavam tensos e paralisados.
   Instantes antes, Rebecca estava pronta para dormir. Nada alm disso. A batida do corao passou a ser triste, ameaadora, preocupada. No tinha certeza do que
dizer ou fazer; s sentia que Deverax estava se distanciando dela rapidamente.
   Ento, sentiu as pontas dos dedos de Gabe tirando os fios de cabelo que estavam na testa da ruivinha. A voz era mais calma que o silncio.
   ? Eu deveria ter parado, Rebecca. Foi minha culpa.
   A baixinha fechou bem os olhos, pensando que deveria ter imaginado que ele estava preocupado com o fato do preservativo ter se rompido, pensando que precisava
ser infinitamente cuidadosa ao responder... Ou colocaria em risco tudo o que aquela noite significara para ela, para os dois.
   ? No acho que culpa seja a palavra apropriada. Ningum foi descuidado. Nenhum de ns poderia prever que iria romper, no  uma situao comum, e as estatsticas
comprovam isso.
   ? Sim, bem... A questo : se voc engravidar, espero que me conte. No quero que pense que isso  um problema seu.  nosso. No h dvidas que vou ficar ao seu
lado, baixinha.
   Uma dor cortou o corao. Responsabilidade, obrigao, honra. Sabia que tudo isso fazia parte de Gabe, mas no era o que queria agora. No era o que esperava
que sentisse por ela.
   ? Sei que voc  avesso a bebs, a constituir uma famlia ? disse, com suavidade.
   ? Sim. O que aumenta dez vezes a minha culpa.
   ? Um momento, Gabe. O preservativo rompeu. Nenhum de ns pediu isso.
   ? Qualquer tipo de proteo  sempre passvel de erro. E por essa razo, nunca fiz amor com uma mulher a menos que os dois concordassem com as mesmas regras.
Voc estava agitada depois de um dia infernal, traumtico, a adrenalina continuava a mil, o medo ainda era grande. Entendo que queria ser abraada. Voc realmente
no estava pedindo para fazer amor.
   ? Eu quis muito fazer amor? disse, com suavidade, mas depois parecia que no deveria ter sido to sincera.
   ? Tirei vantagem de voc ao fazer amor, ruivinha. Sei como  o perigo, o que faz com o sangue, com o pensamento. Voc no sabe, e no poderia saber essas coisas.
Talvez quisesse fazer amor, mas poder ainda lamentar o que aconteceu amanh de manh.
   ? No vou lamentar nada. Amo voc, Gabe ? disse com doura e, ao mesmo tempo, com firmeza.
   Deverax no ficou em silncio por muito tempo, e mais rpido do que um relmpago, a ruivinha sentiu todos os msculos do corpo dele ficarem tensos.
   ? No estou dizendo que no sinta amor. Ou que no est sendo honesta. Mas nunca menti para voc, baixinha, e no iria insult-la fazendo isso agora. No dou
o mesmo valor que a senhorita d  palavra amor.
   Ela engoliu com dificuldade.
   ? Deverax?
   ? O qu?
   ? No tenho certeza de como definiria risco. Mas posso lhe dizer como eu defino. Meu pai costumava dizer que no se deve jogar quando no se pode perder. Sempre
vi a vida de uma forma diferente. No posso jogar onde no vale a pena ganhar.
   ? Voc ganhou alguns prmios perigosos, em primeiro lugar, por correr riscos ? ele virou a cabea ? mas no  relevante nesse caso, porque no encara o amor como
um jogo.
   ? No. No . E sei que no quer ouvir isso, mas se eu fosse  procura de um pai para o meu filho... Escolheria voc.
   Mais uma vez, ele ficou tenso.
   ? Ento, voc realmente no me conhece, Rebecca.
   ? Sim, acho que conheo, mas no foi por isso que trouxe o assunto  tona ? disse gentilmente, mas com firmeza. ? Preciso que saiba que nunca criaria uma armadilha
para voc. No faria isso com nenhum homem, muito menos com o que eu amo. Voc sabe o quanto quero ter um beb. Sabe que quero uma famlia. Mas se no estava preparada
para evitar filhos, era porque no sabia que amos fazer amor. Nunca tentaria encurralar voc fazendo com que agisse de forma contrria ao que sente, sabendo o que
pensa sobre casamentos e famlia.
   Os olhos deles se encontraram em plena escurido.
   ? Acredito em voc. Sempre foi muito honesta, ruivinha. Mas o que disse tambm estava certo. No sabia que amos fazer amor, o que me faz responsvel pelo que
aconteceu. Quero que diga, em alto e bom som, que vai me dizer se engravidar. Quero que me prometa que no vai manter segredo.
   ? Foi s uma vez. E as chances no so tantas assim. ? Sabia que estava longe da promessa que Gabe pedia, mas o corao de Rebecca a impedia de prometer algo
que, definitivamente, no podia cumprir. Precisava de mais tempo para pensar. ? Quero lhe dizer outra coisa.
   ? O qu?
   ? No estava pedindo nada ao dizer que o amava. No significava uma corda em seu pescoo. ? Gabe estava muito tenso, pensou ela. ? Vou am-lo se eu quiser, Deverax.
? Rebecca se posicionou em cima dele, colocando todo o peso do corpo no peito de Gabe e o beijou, devagar, com delicadeza, intensamente. Percebeu que o investigador
se rendeu. Mostrou compreenso, pacincia, coragem. Ele tambm incendiou mais rpido que fogos em festa junina.
   ? No gosta de ser amado, querido?
   Ele suspirou alto.
   ? Deus, voc  um problema. Juro que soube disso a primeira vez que coloquei os olhos em voc.
   ? Tem mais preservativos no bolso das calas?
   ? Nenhum que eu no tivesse medo de usar ? disse, secamente.
   ? Hmm... Bem, podemos usar a criatividade. ? Rebecca beijou o queixo dele. Depois, foi em direo ao pescoo. ? Deve me ajudar a pensar em algumas formas de sermos
criativos. Sou excelente em pesquisas, mas quase toda a investigao que fiz est relacionada a escrever mistrios e assassinatos macabros. Nunca escrevi um captulo
de como seduzir um homem, mas no vai acreditar no quanto aprendo rpido. Sinceramente. Vai ficar impressionado.
   ? Alguma vez voc j evitou problemas?
   ? Agora, isso  um bom problema. No machuca ser amado. No  assustador. Nada terrvel vai acontecer. Quando foi a ltima vez que deixou algum cuidar de voc?
   ? Sou um homem crescido. Posso cuidar de mim mesmo.
   ? Isso  tudo o que sabe, querido. ? Como o pescoo dele era tentador, Rebecca deu uma pequena mordida. ? De vez em quando, todo mundo precisa de algum que tome
conta da gente. Agora, feche os olhos e vivencie isso. S pratique. Imagine que  uma lio. Veja somente se pode sobreviver sendo amado sem entrar em pnico, ok?
   ? Becca ? disse... E depois se calou.
   Ela no estava lhe dando mais chances de falar nada.

   A rea de espera para o avio de Rebecca estava lotada de turistas carregando bagagens e lembrancinhas. O vo partia s trs da tarde. Poderia ter ido sozinha
de txi at o aeroporto, mas Gabe insistiu em lev-la. Suspeitava de que o senhor Deverax queria se certificar de que ela tinha embarcado para casa, e em segurana.
   Gabe colocou a bagagem de mo em lugar seguro enquanto esperavam. A cena no aeroporto era exatamente a mesma do dia da chegada. O mesmo sol quente de Las Vegas
batendo nas vidraas; passageiros desembarcando com o olhar vidrado no jogo. Psters alinhados nas paredes, anunciando shows e cassinos, e o tilintar das mquinas
de jogos em todos os lugares. A camiseta do Mickey Mouse estava um pouco mais amassada na viagem de volta, mas era exatamente a mesma que usara no primeiro dia.
   Ainda assim nada continuava igual. A diferena entre o presente momento e alguns dias atrs a surpreendia como uma onda que, de repente, engole voc por inteiro.
   O problema com o irmo dela no havia acabado. Mas estava perto do fim. E assim que Jake estivesse livre da acusao de assassinato, a famlia Fortune no teria
mais nenhum motivo para continuar contratando os servios de Gabe. O trabalho dele ali estaria terminando... O que tambm significava o fim da relao dos dois.
   O corao de Rebecca comeou a bater forte, no de ansiedade, mas de dor, uma dor que crescia e se intensificava. No era preciso haver separao ? se Gabe quisesse
dar continuidade a um relacionamento pessoal. Se a amasse tambm. Se ao menos notasse o quanto aquele sentimento que os unia era nico, forte e especial.
   No momento em que Gabe viu a tripulao se encaminhando para a pista, comeou a brincar com as moedas que estavam no bolso. Usava, como de costume, uma camisa
grossa e com botes enquanto a senhorita Fortune preferia a suavidade e o conforto do moletom; o cabelo estava sempre bem penteado enquanto o dela estava quase sempre
desgrenhado. Rebecca j o vira despenteado. Parecia um desastre ? um belo, inesquecvel, sexy desastre -. mas somente uma vez, quando se sentiu livre com ela, na
cama.
   Agora era novamente um estranho. Rebecca sentia uma dor no corao como se estivesse sendo esfaqueada. O verdadeiro Gabe, que ela conhecia, era um homem comoventemente
vulnervel, mas aquele homem desaparecera agora.
   ? Pegou dinheiro, baixinha?
   Ela forou um sorriso.
   ? Nunca tenho dinheiro. Mas tenho 47 cartes de crdito.
   ? Sua me vai busc-la no aeroporto em Minneapolis?
   ? Meu carro est no estacionamento do aeroporto, ento, no h necessidade de ningum me buscar. Vejo minha me quando chegar em casa.
   Ele franziu a testa.
   ? No vai chegar antes de escurecer. Gostaria que algum fosse busc-la.
   ? No diga nada, Deverax. Sei que no pode mudar de uma vez todo esse comportamento superprotetor, mas prometo, voc precisa de um cursinho intensivo.
   Era como se a ruivinha no se importasse. Ele se sentiu diretamente ofendido.
   ? Voc passou por poucas e boas nos ltimos dias.
   ? Sim,  verdade. Assim como voc.
   Anunciaram o vo de Rebecca. Ela se abaixou para pegar a bagagem de mo e a bolsa. Quando se levantou, Gabe rapidamente tirou as mos dos bolsos e segurou-lhe
os ombros. Pde ver os olhos de Deverax antes que ele a beijasse.
   O beijo foi fatal. O melhor da safra Deverax. Quente, intenso, completo, no to respeitvel, um convite indecente e inebriante ao caos e  loucura... Mas quando
o diabo apareceu para fazer com que ele erguesse a cabea, ela pde ver novamente. O adeus nos olhos de Gabe.
   Doeu mil vezes mais do que ter o canivete de Wayne Pott diretamente no pescoo. Tinha que engolir em seco antes que pudesse tentar falar de novo.
   ? Quando  o seu vo de volta para casa? ? perguntou ela.
   ? Ainda no marquei. Vou esperar mais um dia. Quero falar com os policiais novamente, ver o que aconteceu depois do interrogatrio a Tracey e Wayne. Ainda h
alguns detalhes que quero investigar.
   ? E depois?
   ? E depois... Tenho uma pilha de projetos  minha espera em casa, no escritrio. E voc vai voltar para o seu mundo. ? Gabe acariciou, com o polegar, o queixo
de Rebecca. A baixinha viu desejo nos olhos dele. Viu amor, mesmo que nunca tivesse pronunciando essa palavra. Mas o senhor Deverax no disse nada em relao a ligar
para ela. Nada sobre querer v-la novamente. E, de repente, parou de acarici-la. ? Vai me avisar se houver algum problema?
   Rebecca pensou que deveria saber que ele traria o assunto sobre gravidez  tona novamente. Gabe era sempre prtico, e um homem honrado.
   Mas se ele a via ? e ao beb ? como um problema, no havia nada a dizer.

   Quando Rebecca respondeu  batida na porta, a ltima pessoa que esperava ver era o irmo. Cinco semanas se passaram desde aquele inesquecvel fim de semana com
Gabe. E trs semanas que as acusaes de assassinato contra Jake caram por terra. Ele era um homem livre novamente. Mas Jake no a visitara desde ento.
   Ela, imediatamente, se lanou nos braos do irmo com uma sonora risada.
   ? Bem, o que o traz aqui? Venha, entre. Quer caf ou ch?
   ? Gostaria de um pouco de caf, mas acho que, pelo seu jeito, estou interrompendo alguma coisa...
   Rebecca se olhou, no havia notado que comeara o dia bem vestida, usando um suter preto de gola alta e uma saia de flanela. Em algum momento das ltimas quatro
horas em que passou escrevendo, perdera os sapatos, ficara descala, e suspeitava que o cabelo estava alvoroado. Sorriu para o irmo.
   ? Fao mais exerccios aerbicos enquanto escrevo do que alguns atletas treinando para as Olimpadas. E, pode acreditar, estava pronta para um intervalo. Fique
 vontade. J tem caf pronto. Vou buscar.
   Alguns minutos depois, entrava carregando duas canecas. Jake permanecia perambulando pelo escritrio.
   ? Acho que voc precisa de uma escavadeira aqui, disse Jake para implicar com a irm.
   ? Se acha que isso  uma baguna, precisa ver quando no arrumo.
   ? Arrumou isso aqui na ltima dcada?
   Ela colocou as canecas em cima da mesa. Depois, deu um tapa no irmo. Quando ele fingiu sentir muita dor, quase a fez chorar. Deus, ele parecia bem. S o fato
de poder v-lo livre das grades da priso era uma festa para os olho ? e para o corao.
   As outras pessoas viam Jake Fortune como um homem formidvel, formal; Rebecca sabia disso. Poucas tinham coragem de bater nele ou provoc-lo. A irm mais nova
 que fazia isso.
   Jake tinha 54 anos contra os 33 dela, mas a grande diferena de idade nunca foi problema entre os dois. Gabe era muito mais musculoso, mas o irmo impunha respeito
com a altura de 1,82 metros, cabelo castanho-escuro e um par de olhos verdes que combinavam com os dela. Jake sempre fora esguio e elegante, mas ela percebeu que
o irmo emagreceu ainda mais durante o tempo em que ficou preso. No era surpresa v-lo vestindo um terno azul-marinho, mas nem um bom corte podia esconder a perda
de peso. Ou que agora havia muito mais fios grisalhos no cabelo antes castanho.
   O irmo sempre tinha sido um homem controlado e contido ? exceto com ela. Mas aquele tipo de controle era uma escolha. Sempre soubera, devido ao instinto fraternal,
de que a cadeia era o pior pesadelo de Jake. Agora, entretanto, finalmente estava livre, e ela no queria lembr-lo das ltimas semanas, to ruins.
   ? Veio me visitar s para me perturbar e me criticar? ? Ela se sentou, encolhida, na cadeira da escrivaninha, com a caneca de caf nas mos.
   ? De fato, tive uma razo diferente. ? Ele olhou em volta  procura de um lugar para sentar, e s arranjou um depois de tirar uma pilha de papel e de arquivos
de cima de uma cadeira. ? J deveria ter vindo aqui lhe fazer uma visita, maninha. Vim pessoalmente lhe agradecer. Poderia ainda estar apodrecendo na cadeia se no
fosse por voc.
   Rebecca balanou a cabea suavemente.
   ? Gabe foi o responsvel pela investigao, Jake. No eu.
   ? Estive com Deverax. Agradeci a ele, a toda a famlia, pessoalmente. ? Jake ainda no tinha tocado no caf. ? Deus. Ainda no consigo acreditar como a famlia
me ajudou em meio a toda essa confuso. Nunca mais vou ser ingrato com ela. Mas voc foi a nica que fez alguma coisa por mim, Rebecca. No pense que no sei.
   Ela sabia que o suporte que dera a Jake o ajudara emocionalmente, mas a real ajuda para libert-lo veio totalmente de Gabe. s vezes, os acontecimentos das ltimas
semanas ainda faziam a cabea girar.
   Gabe se envolveu diretamente com a polcia com relao ao interrogatrio de Tracey e Wayne. A dupla perversa vivia  base de mentiras, mas os tiras os interrogaram
em separado, e os dois se viram to enrolados para acobertarem um ao outro, que acabaram se entregando. Deverax investigara as discrepncias nas histrias contadas
pela dupla. O resultado foi que os dois acabaram sendo acusados de conspirao, e Tracey foi acusada tambm por homicdio de primeiro grau.
   No s Jake estava livre, como tivera seu nome limpo, e isso havia preocupado Rebecca, desesperadamente. A liberdade significava mais do que estar solto. O irmo
tinha direito a manter a cabea erguida; precisava recuperar o orgulho. E, graas a Gabe, conseguira isso.
   ? Voc sabe, por ironia, tudo acabou se ajeitando naquela confuso ? disse, pensativa. ? Tracey e Mnica eram da mesma laia. Nenhuma poderia definir a palavra
tica. Ambas eram manipuladoras e ambiciosas, no s por causa da chantagem ou de outra atividade criminosa. No estou dizendo que est certo ter assassinado Mnica.
Mas o encontro das duas foi como uma reunio de famlia entre bruxas.
   Jake balanou a cabea, concordando com a irm.
   ? Quase assustador, dois gatos pretos andando  noite. Mnica ameaando Tracey para manter silncio sobre fato de ela ter seqestrado nosso irmo dcadas antes.
Quem pensaria que Tracey iria investigar Mnica e descobrir que ela adotara, de forma to conveniente, Brandon logo depois que o gmeo desapareceu. E somente algum,
com uma mente to diablica, iria fazer a correlao e confrontar Mnica. Tracey viu o assassinato como uma forma de manter os segredos, ento, poderia armar um
esquema para conseguir dinheiro. ? De repente, Jake pareceu cansado, chateado. ? Talvez seja ironia de que as duas fossem exatamente iguais, sem nenhuma moral...
Mas acho que muita dor poderia ter sido evitada ao longo dos anos, se a famlia Fortune no tivesse tentado esconder tantos segredos.
   ? Inclusive os seus? ? Rebecca perguntou, gentilmente. ? Como voc e rica esto depois de tudo isso? Sei que as meninas ficaram do seu lado, mas como esto as
coisas com Adam? ? Nunca fora muito prxima de rica, a esposa do irmo. Mas Adam era o nico filho, e regulava com a idade de Rebecca. Os dois cresceram juntos
e se tornaram muito amigos, e a irm sabia que pai e filho no se relacionavam bem.
   Jake admitiu francamente:
   ? Est tudo indo muito bem, embora ainda tenha muitas arestas para aparar com a minha famlia. Errei muito, fiz escolhas que no eram as corretas. ? Ele hesitou.
? Voc sabe... Me envolvi com Mnica porque ela me chantageava. Nunca soube como descobriu que o meu pai verdadeiro no era Ben Fortune. Mas entrei em pnico. Pensei
que perderia tudo ? minha esposa, meu trabalho, minha vida inteira ? se viesse  tona que eu no era um herdeiro natural dos Fortune. No se tratava apenas de perder
dinheiro, Rebecca. Ou medo de perder dinheiro. Tinha medo de perder toda a minha vida.
   Ele se levantou da cadeira, e comeou a caminhar, inquieto, pelo escritrio que era um pouco apertado, sem espao.
   ? Era inacreditvel ser acusado de assassinato. Eu havia bebido. Realmente tinha ido confrontar Mnica. Estava chateado. Mas no tinha motivo nenhum para mat-la.
Sabia que era assim. J aceitara que a verdade sobre o meu passado viesse  tona. Vivia uma mentira. E chegara  concluso de que eu no gostaria, no poderia mais
viver daquele jeito. S que no tinha como fazer ningum acreditar nisso.
   ? Tenho medo de que a verdade nem sempre aparea como evidncia em um tribunal ? Rebecca murmurou, pensando em Deverax e em todos os momentos que discutiram sobre
a validade dos fatos e a intuio. Entretanto, bloqueou o pensamento, evitando aquelas lembranas. A simples meno do nome de Gabe a fazia sofrer, uma dor para
a qual parecia no ter cura... E agora no era hora de lidar com aquele sentimento, no com o irmo ali. ? Jake, voc ainda no disse como a sua esposa e o seu filho
esto lidando com toda essa "verdade" que veio  tona.
   ? Esto bem. Muito bem. Adam... nunca se importou comigo. Foi o meu comportamento desonesto e o fato de eu ter escondido coisas que quase destruram o nosso relacionamento.
Acho que ele  melhor e mais tico do que o pai.
   ? Acho que voc tambm  um homem muito bom, maninho ? disse Rebecca. ? Qualquer um pode perder o rumo e cometer erros.
   ? Sim, bem, receio de que eu tenha feito as duas coisas, por um bom tempo. Quanto a rica... estamos juntos. E vou me arrepender se no tentar ter um casamento
de verdade. Aquela mulher me ama.
   ? Isso  um choque para voc? ? Rebecca instigou, gentilmente.
   ? Pensava que ela amava o herdeiro da famlia Fortune. Pensava que gostava de tudo o que podia ter, do dinheiro, da posio. ? Jake balanou a cabea. ? Sempre
tentei ser o homem que achava que ela queria. Perdemos muitos anos sendo desonestos um com o outro...
   O toque do telefone os interrompeu. Tanto o telefone quanto a secretria eletrnica estavam em uma mesinha afastada, embaixo de alguns travesseiros, papis e
bordados. O irmo nunca atenderia o telefone, mesmo que soubesse onde estava, mas as sobrancelhas se ergueram querendo saber o motivo da irm no ter atendido a
ligao.
   Rebecca no tinha a menor inteno de atend-lo, mas se preparou, se esticando como se fosse uma tenaz, ao som do primeiro toque. A secretria eletrnica estava
programada para atender depois do segundo toque.
   Veio a voz de Gabe. Baixa, calma, sexy, e extremamente familiar.
   ? Qualquer dia desses vamos nos encontrar, baixinha. Rebecca... Preciso falar com voc.
   A mensagem era s essa, mas o suficiente para deixar Jake intrigado. Ele a observou como sendo o irmo mais velho.
   ? Voc sabia quem era, no sabia? Por que no atendeu ao telefone? ? perguntou ele.
   ? Porque est aqui, e no costumo ter a oportunidade de conversar com voc com freqncia, e posso ligar para ele depois a qualquer hora.
   ? Voc  a pior mentirosa que j encontrei, maninha. O que h de errado? No era o Gabe? No deu para reconhecer a voz porque estava abafada com toda aquela pilha
de coisas em cima da secretria eletrnica.
   ? No h nada errado. Est tudo certo ? ela lhe garantiu com um sorriso e, rapidamente, redirecionou a conversa de volta aos assuntos familiares. Jake ficou mais
meia hora. Quando teve que ir embora, Rebecca o levou at a porta, pensando que o irmo esquecera o telefonema. Ele a abraou antes de sair.
   Jake tambm, gentilmente, ergueu o queixo da irm para lhe dar uma pequena bronca.
   ? Se precisar de ajuda, qualquer tipo de ajuda, ficaria muito chateado se no me desse a chance de estar a seu lado. Toda a famlia me apoiou durante essa confuso,
mas voc foi quem no me deixou enlouquecer. Estaria ao seu lado num piscar de olhos, e no faria perguntas.
   ? Obrigada, querido. ? Compreendia a oferta do irmo, mas havia alguns problemas que uma mulher tinha que enfrentar sozinha. Quando Jake se foi, ela colocou a
mo sobre o abdmen, fazendo presso.
   O vidro para o teste de gravidez estava no banheiro. Soubera o resultado h trs dias.
   Voltou para o escritrio, ligou o computador e mergulhou no captulo que estava escrevendo. O trabalho vinha sendo a salvao nas ltimas semanas. Quando Rebecca
estava escrevendo, era normal a mente bloquear tudo que no fosse relativo ao trabalho e, antes da visita do irmo, deixara um heri em perigo. Precisava estabelecer
o conflito e salv-lo, no entanto os minutos passavam e nada. O cursor continuava piscando, mas as palavras no vinham.
   Ao lado do computador estava o urso de pelcia Abe Lincoln com os olhos tristes. H anos aquele bichinho era o companheiro nos momentos difceis, quando ela no
conseguia escrever. A senhorita Fortune o pegou e se aconchegou nele, e quando viu que nem isso estava ajudando, tocou a pulseira que estava no pulso e a qual considerava
um talism. O ursinho e a pulseira sempre lhe serviram de alento.
   Nenhum dos dois funcionava hoje. Abraou as pernas e fechou os olhos. Gabe vinha tentando falar com ela h uma semana. Usar a secretria eletrnica para esquivar-se
dele era uma atitude imatura, boba e desonesta... Mas, por agora, Rebecca no se sentia em condies de conversar.
   Poderia ter ligado algumas semanas antes. No ligou, e o longo silncio machucava profundamente. Rebecca no era uma simples adepta da lgica, mas Gabe era. Os
telefonemas repentinos tinham um motivo. J se passara tempo suficiente para saber se estava grvida ou no.
   Semanas antes, naquela longa e inesquecvel noite em que ficaram juntos, decidira no lhe contar nada caso estivesse grvida. Ele sempre deixara muito claro o
posicionamento quanto ao fato de no querer ter filhos e constituir famlia. Gabe era um homem to honrado e ligado s tradies, que ela no duvidava de que se
casariam se o senhor Deverax soubesse da gravidez. Rebecca no podia imaginar nada pior. No era possvel haver amor em um relacionamento em que um dos parceiros
se sentisse enganado, e ela temia que o ressentimento acabasse destruindo o casal.
   Se Gabe tivesse ligado antes, ela talvez pudesse acreditar que os dois tinham alguma chance. Era possvel que o amor crescesse a partir do ponto em que estavam,
algo j havia sido iniciado. Mas agora era muito tarde. Era bvio que ele estava ligando agora simplesmente por causa do senso de honra e responsabilidade. Sabia,
muito bem, que poderia ir para a cama com Deverax novamente. Receava entrar em qualquer relacionamento que ele quisesse. O orgulho nunca a impedira de atender ao
telefone.
   Mas o amor que sentia por Gabe a impedia.
   Abriu os olhos e fixou o olhar na direo da janela, vendo os botes tpicos da primavera, que floresciam no jardim. Nunca conhecera um homem que precisasse tanto
de amor quanto Gabe. Parecia que ele s acreditava em relaes baseadas em obrigao e responsabilidade. Precisava de uma mulher que o virasse de cabea para baixo.
Uma mulher que o fizesse se sentir livre ? livre para afrouxar aquela ternura, enorme e vulnervel, que havia dentro dele. Livre para descobrir que o amor verdadeiro
no era uma gaiola, mas um caminho de escolhas e possibilidades. Essa mulher faria uma grande diferena na vida do ex-agente das Foras Especiais.
   Mas essa mulher no parecia ser ela. Lgrimas rolavam e queimavam os olhos de Rebecca, mas ela logo conteve o choro. No adiantava chorar. Gabe a criticara dezenas
de vezes por no ser to realista, mas a senhorita Fortune no via outra escolha seno enfrentar essa realidade. No fora capaz de livr-lo da "gaiola". O amor que
sentia ? no era correto ou no era suficiente para Gabe.
   J experimentara o sofrimento antes. Conhecera a perda. Aprendera o que significava solido. Mas nada se comparava  dor que sentia por saber que perdera Gabriel
Deverax.


   Captulo 12

   Quando a secretria encontrou Kate no laboratrio, a senhora Fortune terminava uma reunio com dois qumicos da sua equipe. Transbordava de felicidade. A Frmula
Secreta da Juventude era o produto mais novo e ambicioso. Os vrios contratempos e a sabotagem ? culpa de Mnica ? tinham paralisado o projeto. Finalmente, aqueles
problemas se resolveram, e os ltimos estudos e testes tiveram sucesso. A inveno ia ganhar asas. Quando a secretria a avisou de que Gabe Deverax estava no saguo,
Kate no se importou em fazer uma pausa.
   Entrou no saguo com as duas mos estendidas para cumpriment-lo.
   ? Veja se isto no  uma surpresa! No acredito que no subiu direto. Deveria saber que no precisa fazer cerimnia comigo.
   ? No sabia se quebraria algum protocolo, perambulando l por cima, uma vez que no sou mais funcionrio.
   ? Que se dane o protocolo. Senti sua falta, Gabe.
   Ele sorriu.
   ? Bem, que alvio. Poderia sentir o oposto. Nas poucas vezes em que estive aqui, a senhora estava tendo problemas com sabotagem ou seqestro ou assassinato. Tinha
um pressentimento ruim de que poderia associar a minha presena aqui a algum tipo de problema.
   Kate percebeu o tom humorado de Gabe e notou o sorriso tmido, que lhe era to familiar. Mas havia alguma coisa muito diferente nele, nas atitudes, nos olhos.
Tentando descobrir o que era, a senhora o conduziu ao elevador privativo e manteve uma conversa trivial.
   ? Receio de que toda grande emoo vem acompanhada de responsabilidade, principalmente, em se tratando de um imprio financeiro. Admito que no me importaria
em passar um bom perodo sem problemas. Parece que j dividimos a nossa cota nos ltimos tempos. Mas admito que senti falta de conversar com voc, no s por causa
de todo o trabalho investigativo que fez para ns. Sterling tambm sentiu sua falta.
   A senhora Fortune podia ouvir a prpria voz ficando mais suave ao mencionar o nome do advogado e velho amigo da famlia. Gabe passara muito tempo com Sterling
e com Kate. Um dia desses, ela precisava contar  famlia o quanto gostava de Sterling. Agora, entretanto, tinha que conduzir Deverax ao escritrio.
   ? Voc no disse o motivo que o trouxe aqui. Nunca foi de desperdiar tempo, Gabe, mas no sei que negcios temos. Tenho certeza de que o nosso cheque no foi
devolvido ? disse, sem nenhuma expresso.
   Novamente recebeu um sorriso, mas no durou mais do que um segundo.
   ? Oh, no. Nenhum problema com o cheque. Assim como o generoso bnus.
   ? No foi generoso. Sou uma mulher muito inteligente, querido. No dou dinheiro  toa. Voc mereceu cada centavo.
   Gabe ignorou o elogio, e, apesar de entrar no escritrio, Kate no conseguiu fazer com que ele se sentasse.
   Deverax se manteve em p, como um dois de pau, e colocou as mos nos bolsos.
   ? Essa visita tem um cunho pessoal. Quero falar sobre a sua filha.
   ? Hmm. Algo me diz que no tem nada a ver com Lindsay. ? Pensativa, Kate se encaminhou ao aparelho de ch, em prata, que estava em cima de uma mesinha. ? Gostaria
de um pouco de caf? Ch? Algo mais forte?
   ? Talvez no queira me oferecer nada quando lhe disser o motivo de estar aqui.
   ? Meu Deus, parece ameaador. ? Kate pensava consigo mesma que o que ele iria lhe contar deveria ser muito mais interessante do que ameaador. Da ltima vez que
conversaram, sentiu uma certa qumica entre Gabe e a filha mais nova. Desde ento, pensava muito a respeito disso. Mesmo assim, embora tenha sido cautelosa e persistente,
tentando arrancar alguma informao da filha, Rebecca no revelara absolutamente nada.
   A aparncia de Gabe, entretanto, lhe dizia muita coisa. Levou um minuto para que percebesse o que estava to diferente nele. Durante todos os meses em que trabalhou
para os Fortunes, Kate nunca o vira desarrumado nem com um comportamento que no fosse profissional. Mas, agora, no estava ligando a mnima para a prpria aparncia.
Deveria estar passando por uma crise.
   Kate percebeu que ele no cortava o cabelo h um ms. Estava despenteado, as botas desgastadas; o rosto, sempre austero, parecia mais magro e abatido. Se no
tivesse se envolvido em uma luta, parecia estar  procura de uma. Os msculos dos ombros estavam contrados, e toda a sua postura demonstrava nervosismo.
   Normalmente, ele no costumava enrolar, ia direto ao ponto.
   ? Venho tentando falar com a sua filha h trs semanas. Se ligo, ela me evita com a secretria eletrnica. Se apareo, nunca est ou foge e se tranca.
   ? Hmm... ? Olhos perspicazes o observaram novamente. ? Bem, todos sabem que Rebecca costuma se esconder como se fosse um eremita quando est escrevendo, Gabe.
Mas se est pedindo minha ajuda para chegar at ela.
   ? Droga, no. No  problema seu.  meu. ? Gabe esfregou a mo no rosto. ? Talvez queira me chutar daqui, me mandar para a Sibria, quando ouvir o que tenho para
lhe contar. No vai gostar de jeito nenhum. Mas a outra alternativa era calar e coloc-la em uma posio que a deixaria preocupada. Trabalhei muito perto da senhora
nos ltimos meses. Me pareceu ter filhos suficientes para se preocupar com segredos.
   ? Isso est ficando mais interessante ? Kate murmurou, mas duvidava de que ele a tivesse escutado, duvidava de que escutasse algum naquele momento. Como estava
muito nervoso para sentar, ficou em p, pleno de energia, viril, potente, mais eltrico do que um relmpago. ? Voc sabe, estou pensando em tomar um pouco de sherry,
mesmo sendo apenas quatro horas da tarde.
   ? Pretendo seqestrar sua filha.
   ? Ah.
   ? Uma vez que ela est me evitando como se eu tivesse uma doena contagiosa, no sei se sairia comigo de bom grado.  por isso que talvez tenha que apelar para
o seqestro.
   Aqueles olhos negros encontraram os dela diretamente ? sem respeito, na defensiva, cheios de fogo. Esperava que ela o desprezasse, o que no seria problema para
Kate. Mesmo aos 71 anos, nunca deixara de gostar de desafios ? e, metaforicamente, agradecera a mais de um adversrio que, por erro, assumira que uma mulher pudesse
causar problemas.
   Infelizmente, entretanto, no podia dar a Gabe o que ele parecia tanto querer.
   ? Voc tem algum lugar em mente para esse seqestro?
   ? No. No pensei nisso ainda. Mas estou pensando em uma ilha deserta sem telefones e sem sada. No estou lhe pedindo permisso. Posso imaginar o que est pensando.
A nica razo pela qual estou lhe contando  que no quero que, quando a sua filha desaparecer, a senhora fique preocupada, achando que esteja morta ou machucada
ou que alguma coisa terrvel lhe tenha acontecido. Rebecca estar comigo.
   ? Que bomba est lanando em cima de mim, que sou a me. Quero que saiba que estou chocada e horrorizada -Kate disse em tom de reprovao, e depois se calou.
? Se no conseguir achar uma ilha deserta adequada, posso colocar o iate da famlia  disposio.
   ? Eu... Posso voltar?
   ? S ofereci o iate da famlia para voc usar. Ou acha que um dos avies seria mais til?
   Gabe no respondeu. Estava muito assustado. Kate confirmava a intuio de que ele no ouvira uma s palavra do que fora dito antes. Era interessante observar
o quanto Deverax supunha que ela iria se opor ao envolvimento dele com Rebecca.
   Era certo esperar que ela o fuzilasse.
   Em vez disso, Kate lhe serviu um copo de sherry. Era uma bebida muito fraca para o senhor Deverax, mas ela no tinha nada mais forte no escritrio. Algo mais
forte certamente ajudaria. Gabe parecia em choque.
   No falaria nada enquanto no estivesse mais relaxado. E Kate, certamente, no tinha nenhuma inteno de deix-lo partir antes de saber o que estava acontecendo
entre Gabe e a filha.

   Deverax notou que, no bairro onde Rebecca morava, todos os bordos estavam florescendo. Narcisos e tulipas despontavam nos jardins. A grama, de um exuberante veludo
verde, se tornara uma paisagem nica na primavera.
   A primavera devia ser a estao do amor, mas os outros pressgios no eram bons. Nuvens pretas carregadas vinham do oeste, escurecendo a tarde que se tornava
mais pesada que a tristeza. Quando Gabe parou  entrada da garagem de Rebecca, as ruas estavam desertas. No havia crianas nos balanos nem bicicletas em lugar
nenhum, nem ningum caminhando, nem mes empurrando carrinhos de bebs. Relmpagos riscavam o cu. O trovo ressoava forte, o estrondo parecia que ia estourar os
tmpanos.
   Gabe abriu a porta do seu Morgan e, com as duas mos, tirou a perna esquerda de dentro do carro. Usava um imobilizador na perna, desde o joelho at o tornozelo.
Era impossvel calar um sapato, e tambm era difcil ter mobilidade devido  lona marrom que sustentava o brao esquerdo, mantendo-o junto ao peito. Devagar, meio
desajeitado, saiu do carro, pegou a muleta e a colocou embaixo do brao.
   Uma cortina se mexeu na janela da frente da casa de Rebecca.
   Gabe se contorceu de dor. E parou um momento para esfregar com fora a tmpora direita ? a que tinha esparadrapo de borboleta.
   Comeou a pingar forte. Chuva fria. O moletom no ficaria seco por muito tempo, e as calas jeans tinham sido cortadas para acomodar o imobilizador na perna.
As gotinhas logo se transformaram em chuva pesada. Mesmo assim, no dava para se apressar, ele estava mancando.
   No adiantava querer evitar se molhar ? ou escapar dos relmpagos ? impossvel se locomover com rapidez.
   A porta da frente ficava a uns seis metros de distncia. Longe o suficiente para qualquer transeunte ver o estado lastimvel em que estava. Longe o suficiente
para Gabe reviver mentalmente partes da estranha conversa que tivera com Kate, no escritrio da senhora Fortune.
   Considerando que tinha sido criado em uma das reas mais pobres da cidade, nunca tivera muita educao ou requinte ? com certeza, nunca estivera perto de um terno
Armani. Gabe ainda no sabia o motivo de Kate no t-lo mandado para o inferno ao saber do relacionamento dele com a filha. Nem perguntou se ele pensava em casamento.
   Ao contrrio, Kate lhe serviu um copo de sherry, uma bebida doce, e enveredou por uma conversa informal. Ela lhe disse que, ao longo dos ltimos dois anos, toda
a famlia vivenciara o caos.
   ? Cada um dos meus filhos sofreu algum tipo de crise pessoal. Tambm tivemos sabotagem e problemas financeiros afetando os negcios, os quais voc conhece bem,
Gabe. De alguma forma, entretanto, cada um dos meus filhos cresceu e se tornou mais forte, mais feliz, mais prximo de mim. Com uma exceo.
   ? Rebecca ? imaginou Gabe.
   ? Sim, Rebecca. ? Kate se serviu de sherry, em um copo de cristal, mas no tomou nenhum gole. ? Consegui ajudar todos os meus filhos, exceto a caula. Os outros
nos vem como sendo totalmente diferentes porque Rebecca no tem a minha cabea para os negcios. No faz sentido. Ela  muito inteligente, s que de uma forma diferente
de mim e, em relao a personalidade, receio de que sejamos iguais. Nunca fez nada seguindo ordens de outros, e nada a convence a mudar de idia quando est determinada
a fazer alguma coisa. Quero v-la feliz. Quero v-la estabelecida. Quero v-la com a casa cheia de crianas, que  o que ela quer. Mas, de todos os homens que vieram
bater  porta dela, no houve nenhum, nem um sequer, que a fez ficar nervosa. At voc chegar.
   Nervosa.
   Deverax deu mais um passo em direo  porta da frente da casa da ruivinha, pensando que a palavra nervosa ficara presa em sua mente h alguns dias. No importava
se sabia o que Kate Fortune estava tentando lhe dizer. No importava se nervosa significava alguma coisa boa ? ou alguma coisa preocupante ? no que dizia respeito
ao sentimento da baixinha por ele.
   No importavam as conseqncias, descobrira que no podia esperar mais para saber a verdade.
   H algumas semanas, quando Jake foi solto, Gabe se sentiu aliviado pelo trmino do trabalho. No estaria mais to ocupado e ficaria longe de Rebecca. Como sempre,
ele se sentiu confortvel com a solido e a liberdade.
   Depois vieram os sintomas semelhantes aos de uma gripe. Um vazio o angustiava. Um mal-estar, mistura de doena com tristeza, que no o deixava se mexer. Uma sensao
de perda to grande que no conseguia comer nem dormir. Ela era a causa de toda a febre, mas parecia que no havia cura para aqueles sintomas.
   Forou a memria ? mil vezes ? queria lembrar dos pais brigando, das crticas e ofensas, transformando o que deveria ser amor em tenso e em um rancor silencioso.
Todo casal extremamente apaixonado parecia gritar e reclamar sobre "amor". Nunca durava.
   Durante toda a vida, Gabe tinha sido realista. O amor era real; s no tinha resistncia. Se no acreditasse em contos de fada, nunca sentiria a dor da desiluso.
Se fosse auto-suficiente, nunca precisaria de ningum.
   De alguma forma, quando sofria dos piores sintomas daquela gripe, Gabe tivera a mais estranha e peculiar realizao. As lembranas de todos aqueles casais brigando
e se destruindo tinham motivado, e muito, sua filosofia baseada na solido. Mas brigara com Rebecca desde o incio. De fato, havia gostado das discusses.
   Queria ter o direito de brigar com ela. At que tivessem 110 anos. Talvez at mais.
   Outras concluses desastrosas se seguiram quela. Gabe sabia da tremenda confuso em que aquela ruiva podia se meter. Ningum mais sabia. Ela tinha uma famlia
grande ? todos a amavam ? mas ningum parecia ter influncia sobre o comportamento dela. Com certeza, ningum a protegia.
   Algum nesse planeta tinha que acreditar em cavaleiros brancos. Algum tinha que acreditar no lado bom do homem, e que o bem vencia o mal, e que nada o machucaria
se, simplesmente, fizesse o que era certo.
   Gabe no se importava com ningum. S com ela. Queria que a ruivinha fosse livre para acreditar naquelas coisas. Mas se acontecesse alguma coisa, algum tinha
que proteg-la, sutilmente, e com carinho. Algum que compreendesse o quanto ela era vulnervel, especial, maravilhosa. Algum forte o suficiente para, de vez em
quando, no lhe fazer as vontades. Algum que lhe respondesse com firmeza, mostrando certa autoridade. Algum que a amasse tambm. Algum que entendesse que Rebecca
nunca iria florescer se estivesse rodeada de grades, limitando suas aes... Mas algum que realmente ficasse ao lado dela.
   E foi quando Gabe percebeu que no queria ningum ao lado dela... Exceto ele.
   Deverax amava aquela mulher.
   Amava tanto que sofria por causa disso. E, ento, uma noite, acordou de um pesadelo, vendo Rebecca com um beb na barriga. Filho dele. A imagem o atingiu, de
forma semelhante ao impacto provocado por uma ogiva nuclear, com uma vontade to forte de ser pai que nem ele sabia que tinha. No como um pai como o seu... Mas
um pai do seu jeito. Uma famlia do seu jeito.
   O aspecto ruim do sonho ? acordou suando frio ? veio da certeza de que ela nunca lhe contaria se estivesse grvida. Era bvio. A baixinha nunca escondeu que queria
tudo ou nada ? amor, alianas, casa com jardim. De forma alguma, aquela mulher ia querer menos. O que significava que, a menos que acreditasse que havia alguma possibilidade,
a ruivinha nunca atenderia a um telefonema dele. Nem por causa do beb. Nem por qualquer outro motivo.
   A cortina, da janela da frente, se mexeu de novo. Dessa vez, se abriu um pouco.
   Gabe se contorcia de dor. Caminhou mais um pouco at a varanda, devagar e com dificuldade, ignorando a chuva que deslizava pelo pescoo, quando, de repente, como
por milagre, a porta da frente se abriu.
   ? Gabe! Da janela, vi movimento, at vi voc caminhando de cabea baixa, mas no o reconheci de imediato! Meu Deus! O que aconteceu?
   ? Um pequeno acidente ? confessou. Por um momento, quase esqueceu de parecer comovente. S queria v-la. No viu nenhum trao de "nervosismo" que a me julgou
ser to importante... Mas um problema de cada vez. Tirando uma tonelada de preocupaes de cima dos ombros, ele viu o moletom branco velho, fios de cabelo por todo
o canto, os ps descalos ? e um maravilhoso olhar de medo e preocupao.
   ? Um pequeno acidente? Meu Deus, Gabe.
   ? Gostaria muito de ajuda, baixinha, e essa  a verdade. ? Assim que chegou  sacada da varanda, encostou-se na muleta. ? Preciso de um lugar para me recuperar,
me esconder para descansar um pouco... E tenho o lugar. Mas levaria muito tempo para dirigir at l e para comprar suprimentos. Uma vez instalado, ficarei bem sozinho.
Mas se voc pudesse dispor de uma tarde... ? Recuperou o flego. ? Preciso de voc, ruivinha.
   A voz soava estranha, severa e rude, no como ele queria que aquelas palavras sassem. Mas nunca admitira precisar de algum, e era difcil. Tinha medo de que
a baixinha pensasse que ele estava mentindo, e era verdade que havia alguns detalhes que incluam lorotas censurveis. Mas a parte de que precisava dela era a coisa
mais verdadeira que j dissera.
   Rebecca procurou os olhos de Gabe. Somente por um segundo ou dois. Mas Deverax podia jurar que ela correspondeu de imediato, intuitivamente,  honestidade do
olhar.
   ? Preciso desligar o computador e pegar uma bolsa ? disse, rapidamente.
   ? E sapatos, baixinha.
   ? Pro inferno com os sapatos.
   Entretanto, voltou calada e, mais rpida do que uma bala em disparada, o intimidou. E, com um jeitinho maternal, cuidou dele e o fez sentar no banco do carona.
O plano era que ela dirigisse, o ajudasse a se instalar, pegasse o carro e fosse busc-lo dentro de uma semana. Gabe sabia muito bem que era um plano ilgico, idiota,
mas talvez fosse bom porque Rebecca era uma idealista, uma escritora criativa. Parecia aceitar tudo.
   Gabe ainda precisava que a ruivinha aceitasse mais algumas coisas para que o plano funcionasse. Ele lhe deu as coordenadas. Uma hora depois, ao norte das movimentadas
auto-estradas de Minneapolis, os dois seguiram por estradas no campo. Rebecca prestava mais ateno nas olhadelas furtivas que dava nos machucados ? e no rosto dele
? do que na geografia local.
   Quando pararam em uma mercearia, entretanto, a senhorita Fortune se transformou em um general do exrcito. Permitiu que ele entrasse, mas escolheu todos os suprimentos,
ignorando qualquer sugesto, e carregou todas as sacolas sozinha. Quando ele no se importou, no a criticou e ainda se mostrou obediente, a baixinha colocou a palma
da mo na testa de Gabe e lhe cobrou uma resposta.
   ? Tem certeza de que no est com febre?
   ? Acha que estou com febre s porque estou sendo legal?
   ? Nunca me obedeceu antes, querido. Ningum muda assim to de repente. Claro, pode haver outra razo que explique o fato de no estar sendo voc mesmo. Est tomando
muitos medicamentos?
   ? Hmm... ? disse. Tinha vrias instrues complicadas para lhe dar. De vez em quando, a estrada de asfalto se transformava em uma pista de cascalho. A pista conduzia
a uma montanha-russa de florestas e prados, tpicos do interior de Minnesota. Gabe a guiou em um vaivm de voltas, de forma a confundir qualquer gegrafo, mesmo
que estivesse com uma bssola.
   Meia hora depois, chegaram  entrada, toda gramada, de uma casa. Rebecca saltou primeiro, as mos no quadril, e olhou tudo ao redor. A cabana de cedro, construda
em uma colina, tinha mais de um andar. A parte de trs era protegida pela floresta virgem. A parte da frente tinha portas de vidro que conduziam a um deck com uma
vista para um riacho prateado, cheio de recantos, gorgulhando e salpicando gotinhas d gua que mais pareciam diamantes na base da colina.
   ?  encantador, Gabe. Alugou?
   ? Sim, por uma semana.
   ? Bem, no posso imaginar um lugar melhor no mundo para descansar e relaxar, mas  muito escondido. No vi outra casa ou cabana nas redondezas.
   Rebecca entrou com os suprimentos, ordenando que ele "s descansasse" enquanto ela dava uma olhada l dentro. Gabe esperou, o nervosismo tomava conta dele, quando
a ruivinha desapareceu. Sabia o que ela ia ver. L dentro, o cho era em madeira de lei, havia lenha na lareira e os mveis eram todos nas cores castanho-avermelhado
e marrom. A cozinha era rstica, com uma mesa tambm de madeira. Havia somente um quarto ? um cmodo grande com uma clarabia, de onde se podia apreciar a paisagem,
com uma cama tamanho extragrande, com gavetas. Nada na casa era extravagante, a no ser a sauna, com madeira de sequia, no banheiro.
   Quando Rebecca voltou, estava com as mos no quadril novamente.
   ? A cabana  linda. Um refgio absolutamente encantador. Mas sem telefone?
   ? Isso mesmo, sem telefone.
   ? Sem telefone e sem vizinhos. E se voc cair? E se no conseguir se arranjar com todos esses degraus e precisar de ajuda? ? Bateu de leve com os ps no cho.
? No sei se posso deixar voc aqui sozinho.
   ? Sempre me virei sozinho, baixinha.
   ? Antes. No estava machucado.
   ? No como estou sofrendo agora ? concordou. ? Rebecca?
   A baixinha virou a cabea. Ele abriu a mo para lhe mostrar as chaves do carro e, ento, enquanto ela olhava, jogou-a para o alto. O arremesso foi muito bom.
As chaves caram no riacho.
   Rebecca ficou boquiaberta.
   ? No acredito que vi voc fazer isso! Perdeu a cabea? O que est pensando? Sem as chaves do carro, nenhum de ns tem como sair daqui.
   Enquanto ainda olhava, Deverax jogou a muleta no gramado. Depois de retirar o esparadrapo da tmpora, se livrou da tipia do brao, ento, se abaixou para tirar
o imobilizador da perna.
   Levou uns bons trs minutos para que pudesse se levantar novamente. Trs minutos para arriscar o corao ? um corao que nunca se arriscou, por ningum nem por
nada ? e foi ao encontro dela. O corao no podia estar mais acelerado, mesmo que estivesse no meio de um pesadelo.
   Ela no se mexeu. No fez um leve movimento. No tirou os olhos dele nem por um segundo. Mas parecia que levara sculos antes que pudesse dizer alguma coisa.
   Gabe imaginou que era grande a chance dela mat-lo.


   Captulo 13

   Rebecca, deliberadamente e devagar, ficou ao redor dele. A costumeira aparncia bronzeada e saudvel dava lugar a uma certa palidez, mas no havia nenhum machucado.
Assim que tirou o imobilizador, apareceu uma panturrilha saudvel e cabeluda ? sem nenhuma marca. Os ombros, semelhantes aos de um jogador de futebol americano,
da defesa, estavam firmes, certamente indicando que no havia nenhum problema muscular, e no havia nenhum corte ou arranho no queixo ou na testa ? nem cortes provocados
durante o barbear. Provavelmente, ela possua um certo preconceito mas achava que Gabe podia figurar em um livro de anatomia como um espcime masculino perfeito.
   Quanto mais o observava, mais ele aparentava cautela e nervosismo, tpicos de um puma encurralado.
   ? Voc no est machucado ? disse ela.
   ? No.
   ? No sofreu nenhum acidente grave.
   ? Fui mordido por um mosquito ontem  noite enquanto guardava os apetrechos do churrasco. Mas a ltima vez em que quase me machuquei a srio foi em Vegas, com
voc. Rebecca?
   ? O qu?
   ? De alguma forma, voc no parece... to surpresa.
   ? Claro que no estou surpresa, Deverax. Conheo voc o suficiente para no me espantar. Coloquei-o em um beco com seis criminosos, e lamento pelos bandidos.
Se h um homem que pode tomar conta de si mesmo sozinho, esse homem  voc. Achou que eu tinha acreditado nessa lorota? Que eu sairia de casa, atravessaria meio
pas, acreditando numa histria de machucados, sem fazer nenhuma pergunta. Pelo amor de Deus, escrevo fico. Posso reconhecer, de olhos fechados, uma trama sendo
planejada.
   Gabe tossiu, com uma certa dificuldade. O olhar estava direcionado para o rosto de Rebecca, implacvel como a batida do corao.
   ? Mas... Voc veio.
   ? Claro que vim. Estava muito preocupada. ? Ela, imediatamente, se corrigiu. ? Ainda estou. Voc no  de mentir. Alguma coisa muito sria deve ter acontecido
para que inventasse toda essa histria ridcula.
   ? E houve. Voc no quis me ver. No consegui nem que atendesse o telefone. Era bvio demais que eu precisava fazer alguma coisa criativa para chamar a sua ateno.
   ? Bem, conseguiu. ? Ela o havia evitado. Porque no queria responder a nenhuma pergunta se estava grvida ou no at que estivesse pronta. Mas durante a longa
viagem at a cabana, no pde evitar e notou que Gabe tinha tempo suficiente e oportunidade para tocar no assunto. Mesmo assim, no fez isso. Talvez, imprudentemente,
ela tivera conseguido criar coragem porque no parecia ser prioridade para Gabe.
   ? Ento... Queria conversar comigo.
   ? Queria ? murmurou. ? Mas j disse tudo o que podia por agora.
   Rebecca continuava ao redor dele, com as mos na cintura, quando Gabe a puxou para os seus braos. No dando chances para que fosse condescendente, ele colocou
as mos da baixinha, que continuavam fechadas, ao redor da nuca, e os dois ficaram abraados. A senhorita Fortune podia sentir o corao dele batendo forte, assustado,
assim como o dela. A, ento, Deverax a beijou.
   A ruivinha tivera medo de que ele a beijasse. Tanto medo. Sabia o quanto seria fcil cair nos braos de Gabe novamente. A qumica era to mgica, to convincente,
que ela suspeitava que podia muito bem durar para sempre, e que ficaria ainda mais apaixonada se estivesse com o senhor Deverax.
   S pensara naquele primeiro beijo... E mais. Gabe beijou Rebecca assim como o orvalho beija uma rosa. Os lbios deles se tocaram bem devagar, como se Deverax
estivesse tomando um gole da boca da ruivinha. Como se ela fosse uma bebida para um homem que estava morrendo no deserto, seco por dentro, com sede dela, somente
dela.
   Uma saudosa brisa de primavera balanou as rvores. As folhas respingavam gotinhas d'gua nos dois. Ela podia ouvir, ao longe, a gua correndo no riacho, sentir
o cheiro dos pinheiros, sentir a grama molhada atravs dos sapatos.
   A boca de Gabe era mais delicada que o luar, e seus braos eram mais quentes que o sol. Tudo com o que sonhou a vida inteira parecia real naquele momento. Ainda
assim, ela se sentia to frgil que tinha medo de se quebrar.
   ? Gabe... ? A voz saiu mais espessa do que acar molhado. Era o melhor que ela podia fazer.
   ? Sei que precisamos conversar. E quero conversar com voc, baixinha. Mas, nesse exato momento, tudo o que realmente quero  descobrir se posso deixar voc nervosa.
   ? Nervosa? Mas por que voc gostaria de me deixar nervosa?
   ? Sei l. Mas  importante. ? Ele a ergueu, colocando as pernas de Rebecca ao redor da cintura dele, fitando-a nos olhos enquanto subia os degraus at entrar
em casa, beijando-a a cada trs degraus. ? Temos que trabalhar nisso, ruivinha. No acho eu que consiga ao menos tentar conversar at que tenhamos resolvido isso.
   ? Com relao ao fato de me deixar nervosa?
   ? Sim. Estamos indo para a cama no quarto dos fundos, aquele com clarabia. Isso deixa voc nervosa?
   ? Ah... No. Deveria? ? A porta, de rede, se fechou atrs do casal. Ele continuava olhando Rebecca, carregando-a no colo, beijando-a no nariz, no queixo, no cabelo,
em qualquer lugar que desse.
   ? No vamos jogar damas l ? ele a avisou.
   ? De forma alguma imaginei isso. ? Gabe roou o ombro no painel de madeira no corredor. Iria acabar ficando todo machucado se no comeasse a prestar ateno
por onde andava.
   ? No se trata de sexo. Voc sabe bem disso. Preciso de voc. Eu fico completamente triste quando no est comigo. Eu pensava que era livre at encontr-la, e
descobrir que nunca estive livre. Nunca estive livre para ser eu mesmo. At encontrar voc. Agora, isso deixa voc nervosa?
   ? No, Gabe ? sussurrou ela.
   ? Eu amo voc. Amo voc, baixinha. Como nunca amei ningum. Como nunca acreditei que pudesse amar algum, como nunca acreditei que pudesse sentir amor. Agora,
pelo amor de Deus, ruivinha, estou ficando desesperado aqui. O que  preciso para deixar voc nervosa?
   Finalmente, Rebecca pensou, os dois realmente precisavam lidar com esse nervosismo.
   Gabe estava confuso. No era como se tudo que lhe causava medo tivesse desaparecido de repente. Mas estava to assustado e surpreso. Precisava de cuidado agora.
   Chegaram ao quarto aps percorrerem toda a casa rapidamente, mas Deverax parecia desconcertado, sem saber o que fazer com ela. Parecia no querer deix-la descer
do colo. Parecia no querer deixar de beij-la. Mas tambm no pareciam querer ultrapassar esse limite.
   ? Gabe ? ela sussurrou. ? No vou a lugar nenhum mesmo que deixe.
   ? No vou deixar voc ir ? disse, com rispidez, mas, mesmo inquieto, deixou que os ps dela tocassem o cho.
   Rebecca tirou o moletom de Deverax. E o beijou. Depois, desabotoou as calas jeans e o beijou novamente. Quando aqueles movimentos sensuais e provocantes falharam
em cegar o olhar desesperado de Gabe, ela deixou as mos escorregarem por dentro das calas jeans e apertou com fora, com vontade, o bumbum durinho. Provavelmente,
os dedos estavam tremendo um pouco demais de forma que no dava para qualific-la como uma sedutora profissional.
   Mas, aos poucos, a expresso de algum perdido foi se transformando. Assim como a emoo no olhar. Uma sobrancelha se levantou.
   ? No acho que eu esteja nem um pouco nervosa ? disse ela, em tom acusador.
   ? Deveria estar. Se voc no pode reconhecer quando est com problemas, ento, me deixe dar uma pista ou duas.
   Rebecca o empurrou. Foi tudo o que precisou para que ele casse na cama. A ruivinha imediatamente tirou toda a roupa. Primeiro, um sapato. Depois, o moletom.
Em seguida, o outro sapato. E a calcinha caiu no momento em que ela tirou os jeans. Um cobertor estava estendido em cima da cama tamanho extragrande, um tecido de
l grosso, que arranhava. O cobertor no poderia ter sido mais ertico, produzia um contraste extico com o corpo de Gabe.
   Gabe era puro cetim. Um homem de pele acetinada. Ela acariciava aquela pele quente, suave e flexvel. Ele era to rude, mas derretia como manteiga a um beijo
molhado, ardente. A ternura brotava a cada momento.
   Deverax a amava. A baixinha o ouvira dizendo isso. Respirou e saboreou aquelas palavras que jamais poderia imaginar que iria escutar, no dele. Mas agora, sentia
o amor de Gabe em cada beijo, em cada voltil resposta do corpo dele, em cada olhar. Naqueles olhos, havia desejo e necessidade, e um medo que ela queria que desaparecesse.
Naqueles olhos, havia uma cano de amor sobre Um menino vulnervel e perdido que havia jurado ser forte... E sobre um homem crescido que estava tentando aprender
a no ser adulto.
   Conduzida por instinto, intuio, amor, ela o decifrava... Uma srie de beijos por vez. Havia perguntas entre os dois que precisavam de respostas, mas am-lo
era tambm uma resposta. Nesse exato momento, simplesmente pertencia a ele, com ele. Todo o medo que sentira, ao pensar que o havia perdido, desaparecia a cada toque.
Todas as noites escuras, todos os pesadelos, eram expressos com as mos, os beijos, revelando todo o desejo que sentia. Ele era seu par, seu companheiro, o nico
homem que ela quis durante toda a vida.
   A clarabia refletia um sol fraco, de fim de tarde. Ao poucos, aquela luz se tornou nebulosa, depois, um cinza-prateado tpico do crepsculo. Os dois se amaram,
e se amaram novamente. Compartilharam beijos que queimavam e beijos que curavam qualquer dor, carcias, que encharcavam completamente e abraos carinhosos. Chegaram
ao xtase mais de uma vez, desejando satisfazer um ao outro, desejando dar, e dar mais. Rebecca podia jurar que Gabe tocara a alma dela. Nunca se sentira to livre
com nenhum outro ser humano. Com todo o corao, esperava que o poder do amor iria ajud-lo a sentir-se da mesma forma.
   Depois, lembrou de haver cado nos braos dele, com o corao batendo forte como um trovo. Mas no se deu conta de que adormecera, at que acordou mais tarde.
   Atordoada, imaginava que era noite alta, e o cobertor de l havia desaparecido. Gabe colocara um lenol macio sobre ela, e acendera a luz do abajur. Estava deitado
ao lado dela, bem acordado, olhando-a.
   Gabe franziu as sobrancelhas. No estava sisudo nem mal-humorado. Somente com uma expresso sria que a ruivinha j havia visto diversas vezes. Sabia muito bem
que Deverax sempre dependera dele mesmo para enfrentar e resolver os prprios problemas, e todas as perguntas sem respostas, que existiam entre os dois, de repente,
ameaavam seus pensamentos.
   Com jeitinho, Rebecca se chegou at ele para acarici-lo e fazer com que aquela ruga de preocupao sumisse da testa. Estava com medo de falar, mas tinha mais
medo ainda de no falar. Ou ouvia o prprio corao e acreditava nele, ou poderia pedir a ele para correr aquele mesmo risco.
   ? Vou ter o seu filho, Gabe ? disse, com calma. Aguardava que Gabe reagisse com cautela. Em vez disso, os olhos brilharam de alegria.
   ? Graas a Deus. Se tivermos a casa cheia de pequenos Deverax, talvez haja uma chance de manter voc to ocupada, que no vai ter tempo para se meter em confuso.
S vai ter tempo para as crianas e para mim.
   Rebecca levantou um cotovelo, sem se deixar enganar por aquela tentativa de resposta bem-humorada.
   ? Isso no pode ser um pedido de casamento. At onde sei, voc sempre foi contra casamento, famlia, filhos.
   ? Sim, bem, ao me apaixonar por voc fui forado a repensar isso. Nunca fui contra nenhuma dessas coisas. Era contra cometer um erro, e no posso mentir, baixinha.
Voc vai ter que arriscar. No sei nem metade do que sabe sobre confiana e amor.
   ? Acho que voc  o melhor risco que eu poderia correr. Sei perfeitamente que no vai cair fora se houver algum problema.
   ? Nisso voc est certa.
   ? Sei que vamos brigar.
   ? Imaginei isso tambm. Durante muito tempo, achava que brigar era machucar algum. Estava errado. Mas sempre briguei, ruivinha, e, por alguma razo que no sei
qual , adoro brigar com voc. No posso prometer que vamos sempre concordar, mas minha inteno  nunca machuc-la. Quero que seja firme nos seus propsitos. No
tem que ter as minhas idias. Amo voc, Rebecca.
   Ele a cobriu de beijinhos no rosto. Beijos repletos de promessa. Beijos repletos de alegria, uma alegria que irradiava do olhar.
   ? Vou continuar fazendo isso at que me d um sim de forma clara e direta ? avisou.
   ? Ento, est me pedindo para sofrer por um bom tempo porque no quero lhe dar nenhuma desculpa para parar.
   ? Vai ser assim to cruel depois que nos casarmos?
   ? Pretendo ser assim durante os prximos cinqenta, sessenta anos. Voc foi quem pediu para se meter em confuso, Deverax. Acredite em mim, pretendo lhe dar muito
trabalho.
   ? Acredito.
   Ela sabia. Podia ver nos olhos dele. O corao de Rebecca parecia que ia explodir de tanta felicidade.
   ? Voc pode ter seu sim de forma clara e direta ? ela sussurrou. ? Sim, sim, sim. Costumava sonhar com o tipo certo de amor, Gabe. Nunca quis menos, mas nunca
imaginei encontr-lo. At voc chegar. Entretanto...
   ? Entretanto?
   ? Entretanto, como vamos chegar em casa se voc jogou fora as chaves do carro?
   ?  possvel que eu tenha cpia das chaves.
   ? Sendo um homem lgico, racional, presumo que sim ? disse para implicar com ele.
   ? De fato, passei a acreditar nos meus instintos e na minha intuio. Sei que parece loucura... ? Ele parou de falar. ? Bem, no, no acharia que era loucura
uma vez que foi voc quem me ensinou a acreditar, baixinha, mas...
   ? Mas?
   ? Mas h algumas conseqncias quando se age por impulso.
   ? No tem cpia das chaves?
   ? Sim, tenho. Em casa. Mas no aqui.
   ? Est tentando me dizer que estamos presos nessa cabana, sozinhos?
   ? Sim.
   ? Realmente presos aqui? Para sempre?
   ? Sim.
   ? Bom ? murmurou, e se esticou para acender a luz.


   Eplogo

   Kate, dificilmente, ficava cansada e chateada. J vivenciara muitas experincias para se deixar abater. Sobrevivera a um acidente de avio, ameaas contra a prpria
vida, sabotagem, inimigos que invejavam a ela e  fortuna que levara uma vida inteira para construir. Ultrapassara todos os obstculos. Sabia como ser forte. Tirava
de letra qualquer problema.
   Mas um casamento na famlia no era to simples. Ficou na varanda, contorcendo as mos, com o olhar voltado para o jardim. A grande propriedade  beira do lago,
nos arredores de Minneapolis, era o lar, doce lar. E era um mundo diferente daquele do orfanato em que crescera. Ainda assim, no havia como Kate fazer tudo perfeito
? no hoje.
   Observou o quintal, procurando por qualquer detalhe que tivesse perdido. Vasos de camlias alinhados com o carpete branco para a noiva passar. Uma brisa de vero
vinha do lago, espalhando folhas, carregando o suave perfume das flores no ar. Os convidados j estavam chegando, tomando seus assentos. As mulheres vestiam trajes
de vero, em tons pastel e branco. Era possvel ouvir as risadas e o murmurinho das conversas mesmo longe, na varanda.
   Percebia felicidade naquelas vozes. Ainda assim, o olhar de Kate percorria rostos  procura de evidncias daquela felicidade. Nick e Caroline, Kyle e Samantha,
Rafe e Allie, Mike e Julia... Por um momento, no viu Luke e Rocky, mas depois encontrou o casal, de mos dadas, voltando de uma caminhada ao redor do lago antes
de se sentarem. Adam e Laura, Zach e Jane, Rick e Natalie, Grant e Meredith... Para um estranho, sem dvida, todos aqueles nomes e rostos no seriam nada a no ser
uma grande confuso.
   No para Kate. Cada um daqueles rostos era precioso e querido. Cada um representava outra gerao da famlia Fortune, os filhos dos prprios filhos, todas as
esperanas e promessas do futuro. Tinham sido tantos casamentos nos ltimos dois anos... Mas nenhum to importante como esse, no para ela.
   Rebecca era a caula e a ltima dos filhos a se casar. Kate no tinha mais esperanas de que isso pudesse acontecer. A ruivinha sempre fora a filha que a senhora
Fortune receava que nunca encontrasse a felicidade.
   Kate fizera tudo o que podia para tornar o dia perfeito. Pedira aos deuses do tempo para que lhe mandassem um bom dia. E eles atenderam. Acompanhara de perto
o servio de bufe, ajeitou as flores, checou os arranjos das mesas e a decorao, pelo menos trs vezes. Ela se intrometera com o mestre-de-cerimnias e os assistentes
enquanto se vestiam e apertou todas as gravatas-borboletas dos smokings. Preocupara-se com o cabelo e com as jias de todas as damas de honra.
   E ajudara a filha a se vestir. Mas quando colocou o vu de renda no cabelo ruivo, macio, de Rebecca, lgrimas vieram aos olhos. Kate se escondera ali, sozinha,
por alguns minutos. Era um dia no qual muitos sentimentos vinham  tona. Um dia de emoo, mas s precisava de alguns momentos para se recompor.
   Ouviu o barulho de uma porta se abrindo atrs dela. Sem precisar virar-se, sabia que era Sterling. Imediatamente, se acalmou quando sentiu a delicadeza dos braos
dele ao redor de sua cintura. Fechou os olhos, encostando-se no companheiro. Havia muito tempo ? anos ? desde que se sentira livre para se encostar em algum.
   A senhora Fortune logo contaria  famlia sobre os prprios planos de se casar com Sterling. Ele a beijou na face, um beijo apaixonado, carinhoso. Como ela tinha
setenta e um anos, j passara aquela poca de paixo arrebatadora, mas Kate suspeitava de que, mesmo assim, os dois teriam uma inesquecvel noite de npcias, guardadas
s devidas propores. Ela no esperava encontrar algum para amar novamente, no algum em quem ela pudesse confiar e com quem pudesse dividir sua vida. No algum
como Sterling.
   ? Est nervosa, Kate? ? Sempre conseguia sentir o que se passava com ela.
   ? No exatamente nervosa. Mas estou um pouco irritada com o noivo. Aquele Gabe! Tenho todo o direito de dar  minha filha mais nova um presente de casamento ?
disse, irritada.
   ? Ento, Gabe rasgou o cheque, no foi?
   ? Ofereci a Deverax que usasse o iate, o avio. No quis nada. E tambm no quer me dizer onde vo passar a lua-de-mel.
   ? Imagine s.
   ? Gabe me abraou, agradeceu, mas disse que no precisava de ajuda pois podia cuidar da minha filha. No me deixou fazer nada. Ainda posso acabar com toda essa
barreira hoje.
   Sterling s sorria.
   ? Me parece que um homem orgulhoso e cabea-dura , sem dvida, um par perfeito para Rebecca.
   ? Bem, isso  verdade. Mas no juntei todo esse dinheiro para nadar nele. Gabe poderia ter a delicadeza de me deixar interferir s um pouco.
   ? Voc vai ter essa chance. Pode mimar os netos, Kate. E algo me diz que um j vem a caminho.
   ? Acha isso? ? Imediatamente Kate amoleceu, depois, viu o noivo l embaixo. Gabe acabara de chegar e se posicionara, esperando pela noiva. Diferentemente de qualquer
outro noivo, Gabriel no parecia nem um pouco nervoso. Os ombros aparentavam uns trs metros mais largos naquele smoking branco, e o senhor Deverax estava totalmente
relaxado e imponente. Havia um largo sorriso no rosto, o que no era motivo de estranheza para nenhuma outra me. Gabe parecia mais feliz do que um pirata que acaba
de roubar um navio repleto de tesouros.
   Kate sentiu prazer ao relembrar a ltima vez que o vira no escritrio. Ele parecia mais assustado e nervoso do que um puma descontrolado. E a senhora Fortune
soubera, desde ento, que Deverax era o par perfeito para a filha mais nova.
   Podia at perdo-lo por ser cabea-dura e no aceitar nenhum dinheiro.
   Sterling tocou-a no rosto.
   ? Manteve o segredo?
   Ela balanou a cabea, concordando.
   ? Tem sido to difcil. No quero que nada nos distraia no dia do casamento de Rebecca. Mas tenho que admitir que manter notcias to maravilhosas em silncio
tem sido muito difcil.
   Toda a famlia sabia que a Frmula Secreta da Juventude havia sido aperfeioada... Mas somente ela e Sterling sabiam que a frmula fora aprovada, com sucesso,
pelo Ministrio da Sade. A mais nova inveno estava pronta para ser comercializada.
   Havia mais riqueza a ser construda, outro marco na dinastia da famlia Fortune, e Kate irradiava entusiasmo depois dessa conquista.
   Deliberadamente, tocou a pulseira de pingentes que adornava o pulso. Havia poucos naquela pulseira, mas ela sabia que veria a neta e alguns dos netos usando os
prprios pingentes. Era um smbolo de famlia. Kate dera a pulseira a Rebecca porque pressentira que a caula havia encontrado fora no talism. A pulseira sempre
fora um smbolo de famlia, um lembrete de amor e lealdade e de que toda a famlia precisava estar unida.
   Mas a me pegara a lembrana de volta essa manh... E dera  caula uma pulseira de ouro que havia sido dela. Rebecca no precisava mais de lembranas, nem de
smbolos. Estava prestes a comear a prpria dinastia, do jeito dela.
   Sterling tocou-lhe no brao.
   ? Est pronta para ir l embaixo e entregar sua querida filha, meu amor?
   ? Mais do que pronta. ? Ergueu o queixo, e deu-lhe a mo. No ficava bem a me da noiva chegar tarde.
   Por um rpido momento, entretanto, a senhora Fortune lembrou da poca quando nada parecia mais importante do que conseguir poder e dinheiro. Ao longo dos anos,
Kate aprendera a definir fortuna de uma forma muito diferente.
   Os filhos encontraram felicidade. A famlia estava unida. E essa era a nica fortuna que realmente importava.

   FIM
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